“O terceiro mundo vai explodir!”. Trechos do filme “O bandido da Luz Vermelha” ressoavam no telão, segundos antes de o IRA! subir ao palco para tocar “Rubro Zorro”, música inspirada no longa revolucionário de Rogério Sganzerla, de 1968.
O terceiro mundo (e o primeiro também) segue se deteriorando a cada a dia, mas o que “explodiu” mesmo nesse sábado, dia 7, foi o Teatro Positivo, com a apresentação apoteótica da banda paulistana.
No palco, um Nasi performático chicoteava o cabo do microfone. Estalava com energia o fio no chão – até que, em dado momento, o cabo não resistiu e o microfone falhou, necessitando de intervenção do road da banda.
Um dos principais frontman do rock nacional estava inspirado. Presença de palco, a voz calibrada por uma bebericada e outra, no intervalo das músicas, no que parecia ser uma dose de whisky e muita energia e conexão com a plateia.
De suspensórios e calça social, inquieto o tempo todo, o vocalista parecia ter um quê de expressionismo alemão. E nem precisava se esforçar para que o público reagisse aos seus incentivos para bater palmas no ritmo da música ou cantar junto. Nasi domina a plateia.
Ao lado dele, no canto esquerdo do palco, com macacão vermelho, talvez o melhor guitarrista do rock oitentista nacional: Edgard Scandurra. Ele e a guitarra parecem uma coisa só, em um dos raros casos em que o músico fala através do instrumento. É uma comunhão impressionante.
Entre idas e vindas, brigas e reconciliações, o IRA! continua fazendo jus ao nome e quem foi ao show em Curitiba viu que a banda não está para brincadeira. O grupo entregou um show de rock como há tempos Curitiba não via.
No setlist, um dos álbuns mais cultuados do rock nacional, o Psicoacústica, que completa 35 anos e foi tocado na íntegra – uma oportunidade mais que especial para dar um salto ao final da década de 1980 e fugir dos shows recheados apenas por hits que – vale para qualquer banda – muitas vezes enchem o saco.
Durante o show, Nasi fez um breve comentário sobre o álbum, que foi produzido em parceria com o produtor português Paulo Junqueiro e entrou para a lista dos 80 discos mais importantes da música no Brasil, segundo a revista Rolling Stone.
“Na época, o álbum foi mal compreendido por parte do público e da imprensa. A gravadora, então, arrancou os cabelos. Mas, ao longo do tempo, esse disco foi fazendo história. Nós estávamos certo contra tudo e contra todos e hoje estamos aqui celebrando 35 anos”.
Nasi
Depois, ainda sobrou tempo, e muito tempo, para os principais sucessos da banda, que não são poucos. Nasi pediu para que os seguranças abrissem o espaço que separa a primeira fila e o palco. E a multidão desceu junto, fazendo o Teatro Positivo “explodir”.
Ao final, em um breve encontro no camarim, fumando um cigarro de filtro vermelho, Nasi respondeu a um comentário sobre a qualidade do show e de sua performance: “O galo está velho, mas ainda dá um caldo”.