O avanço da proposta de SAF sobre o Santos expõe mais do que uma negociação específica: revela como clubes históricos do futebol brasileiro vêm sendo capturados por uma lógica de mercado que transforma instituições coletivas em ativos financeiros controlados por investidores.
Chamam isso de modernização. Mas é privatização.
A SAF nasce de um princípio neoliberal muito claro: tudo pode e deve ser convertido em ativo financeiro, inclusive organizações populares, culturais e esportivas. O futebol deixa de ser tratado como um bem coletivo administrado por seus associados e passa a ser visto como um produto explorável por fundos que operam sob uma lógica única — lucro, valorização e retorno.
Nesse modelo, ganhar deixa de ser finalidade. Vira instrumento.
A performance esportiva passa a ser apenas um mecanismo de valorização de ativos: elenco, marca, direitos de transmissão, venda futura da própria sociedade. O clube deixa de existir como projeto institucional e passa a operar como plataforma de negócios.
E há um aspecto profundamente antidemocrático nisso.
Clubes associativos pertencem, ainda que com problemas e distorções, aos seus sócios. Há participação, eleição, deliberação, debate interno. Na SAF, o poder real se desloca para quem detém as ações. A torcida e os associados deixam de ser sujeitos de decisão e viram apenas público consumidor.
É uma ruptura de lógica: sai a comunidade, entra o investidor.
Os defensores da SAF vendem a ideia de eficiência como se ela fosse impossível no modelo associativo. Flamengo e Palmeiras demonstram justamente o contrário: gestão profissional, governança sólida e protagonismo sem entregar controle a grupos privados. O problema nunca foi o caráter coletivo dos clubes — foi a ausência de gestão profissional.
A SAF não resolve isso. Apenas muda quem passa a mandar.
E é nesse ponto que a postura do presidente Marcelo Teixeira se torna central e reveladora da armadilha. Ao reassumir o comando do Santos, ele próprio afirmou publicamente que o clube não precisava de SAF naquele momento, argumentando que negociar um clube fragilizado equivaleria a vender ações desvalorizadas e que a prioridade deveria ser reconstruir credibilidade e competência administrativa antes de qualquer abertura ao mercado.
Agora, conduz justamente o movimento que antes descartava: avançar para a venda de controle em um dos momentos mais frágeis da história recente do clube. A guinada não nasce de um projeto institucional amadurecido — surge como resposta emergencial a dificuldades financeiras, cenário clássico em que investidores encontram clubes desvalorizados e pressionados.
Quando até quem alertava sobre o risco passa a liderar o processo, o sinal de alerta é máximo.
Além da perda de autonomia, há um problema estrutural no modelo SAF pouco discutido no Brasil: clubes controlados por fundos internacionais frequentemente se inserem em cadeias financeiras complexas, com estruturas societárias opacas e circulação de capital difícil de rastrear. Em diversas ligas ao redor do mundo, o futebol já foi utilizado como plataforma para engenharia financeira agressiva e esquemas de lavagem de dinheiro.
O risco não é apenas esportivo. É institucional.
Aceitar SAF nessas condições significa transferir decisões estratégicas — patrimônio, base, receitas, planejamento e futuro do clube — para investidores cujo compromisso central é com rentabilidade. O clube deixa de ser conduzido por um projeto coletivo e passa a obedecer metas de mercado.
Modernizar clubes é necessário. Profissionalizar a gestão é urgente. Mas nada disso exige privatização. Nada disso exige entregar controle.
O futebol brasileiro precisa de governança dentro de estruturas coletivas — não de clubes transformados em ativos financeiros nas mãos de fundos.