Laurentino Gomes: “Brasil jamais fez a segunda abolição e continua prisioneiro do pacto da escravidão”

O escritor paranaense Laurentino Gomes afirmou, em palestra realizada nesta terça-feira (3) no Solar do Rosário, em Curitiba, que o Brasil nunca rompeu de fato com as estruturas sociais criadas pela escravidão. Segundo ele, a abolição de 1888 encerrou o comércio de pessoas, mas não garantiu terra, educação ou cidadania aos libertos — tarefa que ele chama de “segunda abolição” e que, nas suas palavras, “o Brasil jamais fez”.

“Não era suficiente parar de comprar e vender gente como mercadoria. Era preciso incorporar os ex-escravos e seus descendentes à sociedade com direitos e deveres, como cidadãos plenos. Isso não aconteceu. Houve um abandono histórico”, afirmou o autor da trilogia Escravidão.

Laurentino lembrou que, antes do cativeiro africano, houve no país a escravização indígena, marcada por guerras, epidemias e expropriação de territórios. “Estima-se que na chegada de Cabral havia entre 3 e 5 milhões de indígenas. Três séculos depois restavam cerca de 800 mil. O Brasil matou, em média, um milhão de indígenas a cada cem anos”, disse.

Para o historiador, a opção pela mão de obra africana transformou o país no maior território escravista das Américas, com cerca de 4,9 milhões de pessoas traficadas. “Fomos o último a acabar com a escravidão. E, quando acabou, não houve distribuição de terra, moradia, empregos decentes, educação. Nada.”

O pacto entre trono e escravidão

Em outro momento, Laurentino analisou o papel da monarquia nesse processo. “Dom Pedro II governou meio século com apoio do sistema escravista. Não se entende a Independência sem observar o pacto entre o trono e os grandes proprietários”, afirmou. Segundo ele, o medo de uma fragmentação territorial e de uma “bomba social” levou as elites a optar por uma solução conservadora: “não alfabetiza, não faz reforma agrária, não mexe em nada”.

Esse acordo, de acordo com o escritor, só começou a ruir após a Guerra do Paraguai e com o avanço das campanhas abolicionista e republicana. “O Império tentou ganhar sobrevida, mas a legitimidade estava se desfazendo.”

Negacionismo e responsabilidade europeia

O autor também criticou a narrativa de que os próprios africanos seriam responsáveis pela escravidão no Brasil. “Dizer que os negros se escravizaram é uma crueldade inaceitável e um negacionismo histórico. A Europa estimulou rivalidades regionais, forneceu armas e transformou a escravidão numa escala industrial nunca vista.”

Desigualdade como herança

Para Laurentino, a marca desse passado está nas cidades brasileiras. “Somos um país segregado na paisagem. Basta ver quem mora onde. Nas periferias abandonadas pelo Estado vivem majoritariamente descendentes de escravizados. Não dá para ter um país decente nesse ambiente.”

Ele concluiu defendendo que enfrentar o legado da escravidão interessa a toda a sociedade. “Num mundo em que a riqueza vem do conhecimento, um Brasil que desperdiça gente não tem futuro. A segunda abolição precisa acontecer no comportamento, nos indicadores sociais e na geografia das nossas cidades.”

A palestra, com entrada franca, integrou um ciclo de debates sobre história e direitos humanos e terminou com sessão de autógrafos do escritor, vencedor de diversos prêmios Jabuti.

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