A decisão da Prefeitura de Curitiba de determinar a dispersão do público do Carnaval no Largo da Ordem às 2h30 da madrugada de domingo cria um risco real e previsível: transformar uma festa popular em cenário de tensão.
A justificativa apresentada é liberar o espaço para limpeza e montagem da Feira do Largo. O problema é que a dispersão simultânea de milhares de pessoas, em um ambiente noturno e já cheio, pode gerar exatamente o efeito contrário ao desejado. Quando multidões são obrigadas a sair ao mesmo tempo, o resultado costuma ser conhecido: correria, uso de bombas de efeito moral, balas de borracha, pessoas feridas e até risco de pisoteamento.
Não se trata de exagero. Trata-se de reconhecer um risco operacional básico em qualquer gestão de grandes eventos urbanos.
Se episódios desse tipo acontecerem, a Prefeitura de Curitiba não poderá se eximir da responsabilidade política pela decisão tomada, assim como a Polícia Militar, que será responsável pela operação de dispersão.
O alerta ganha ainda mais peso porque os dados mostram um cenário preocupante no estado. Segundo informações do Ministério da Justiça, as mortes decorrentes de intervenção policial foram a única categoria de violência letal que cresceu no Paraná entre 2024 e 2025, passando de 405 para 426 casos. Reportagens recentes baseadas em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também apontam que a letalidade policial no estado atingiu patamares recordes nos últimos anos, sem que houvesse adoção ampla de câmeras corporais — ferramenta básica de transparência e controle.
Diante desse contexto, qualquer decisão que envolva controle de multidões e ação policial deveria priorizar a redução de riscos — e não a criação de um cenário potencialmente explosivo.
O Carnaval no Largo da Ordem faz parte da dinâmica urbana de Curitiba há anos. Planejamento público deveria organizar a cidade para a festa, e não criar condições para que a festa termine em conflito.