Conservadores, provincianos e tecnocratas, herdeiros de uma velha lógica urbana. Como classificar o alto clero da administração municipal de Curitiba, responsável por criar um fenômeno incoerente e anticultural: o Carnaval com hora para acabar, um paradoxo que contraria o próprio espírito dessa festa popular?
Essa anomalia ganhou contornos oficiais agora, com Eduardo Pimentel, mas a má vontade com o Carnaval não vem de hoje — e não foram poucas as vezes em que vimos a PM avançando sobre foliões.
São gestores que, claramente, não entendem nem vivenciam essa cultura popular. O Carnaval é uma expressão histórica do povo brasileiro, construída nas ruas, fortalecida pelas periferias e pelas classes trabalhadoras, que transformam a cidade em espaço de encontro, cor e presença coletiva. É justamente essa ocupação popular que, ano após ano, incomoda setores das elites locais — muitas vezes distantes dessa vivência, embora sigam ocupando os espaços de poder.
No fim das contas, não deixa de ser a “Curitiba Europeia” — um ideal fabricado por elites locais, marcado por um profundo complexo de vira-lata, que tenta se impor por meio do controle e do preconceito: Carnaval, sim, mas com local definido e hora para acabar, em contraste com o espírito popular e transgressor que sempre marcou essa manifestação cultural.
É a mesma gestão que interna compulsoriamente pessoas em situação de rua e posta vídeos espetacularizando o fato. E a mesma também que não ofereceu ônibus de graça no dia do Enem, colocando Curitiba entre as poucas capitais a fazer pouco caso do que, para muitos jovens, é a principal porta de entrada para o ensino superior e um futuro melhor.
Mudam os nomes, mas não os grupos de interesse que conduzem, invisivelmente, os destinos do município — e que respondem pelos grandes contratos, como os do transporte público. A estrutura, as entranhas, são as mesmas. E, talvez, mais conservadoras aqui do que em boa parte das grandes cidades.
Carnavais tradicionais contam com forte apoio do poder público. São uma máquina de turismo e geração de renda. Como convencer alguém a vir passar o Carnaval em Curitiba sendo honesto — e dizendo que, na capital paranaense, tem toque de recolher, bombas de efeito moral e balas de borracha como parte da programação?
O Carnaval oficial na Marechal é lindo e importante, graças ao esforço monumental das escolas, e ainda bem que cresce. Os bloquinhos brilham no pré-carnaval. Mas não se pode esquecer que a folia também nasce da rua, da espontaneidade e da ocupação popular do espaço urbano.
O Carnaval tem, sim, hora para acabar: quando chega a Quarta-feira de Cinzas — e, vale lembrar, nem isso é igual em todas as cidades. Para o povo, essa festa é também uma oportunidade de fuga das opressões cotidianas. Em Curitiba, chega ao fim sob restrições. Que em 2027 o Carnaval possa acontecer com a devida liberdade, autonomia e com pleno respeito ao direito de concentração e de ir e vir, como prevê a Constituição.