Tim Maia pareceu surpreso quando, no meio da apresentação, puxou o refrão de Vale Tudo e ouviu, vindo da plateia, uma voz aguda repetir com entusiasmo: “vale, vale, vale!”.
“Ih, tem uma criança na plateia. Acabou de falar ‘vale’. Tomara que esteja com o pai e com a mãe”, brincou, em um comentário que carregava o humor típico do cantor e que soou quase como uma desculpa por um outro momento, digamos, digno de Tim Maia.
O menino era João, de 9 anos, sentado ao lado da mãe. Do início ao fim do espetáculo, cantou cada música com euforia, sem perder um refrão.
Sim, Tim Maia — porque a interpretação de Thor Junior, no espetáculo Vale Tudo, em cartaz no Festival de Curitiba, é a própria incorporação do cantor. É impressionante. E também emocionante, principalmente para os que não tiveram a oportunidade de ver ao vivo Tim Maia, talvez o maior personagem da música brasileira, e só o conhecem pelos discos, pela TV ou por vídeos na internet.
A forma de falar, os cacoetes e o talento absurdo para cantar: tudo ali é Tim Maia em sua melhor expressão. Vai muito além de uma mera imitação. Thor dá vida a Tim — e, no decorrer do espetáculo, a sensação que João teve, e imagino que boa parte da plateia também, é a de ter um momento, ainda que ilusório, com o artista original.
Não por acaso. O ator já contou que passou 13 anos se preparando para viver Tim Maia no palco.
“Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia”, gritava João, como em canto de torcida. Em outro momento, já sem esconder o encantamento, ainda soltou: “Tim Maia, você é o maior!”
Enquanto Tim Maia, o Thor, brilhava no palco, João também já não passava despercebido na plateia. Seu entusiasmo no segundo balcão era acompanhado por olhares cúmplices, sorrisos e aplausos espontâneos ao redor, quase como se provocasse uma pergunta silenciosa: como um menino de 9 anos conhece tão bem e é tão fã de Tim Maia em tempos de vídeos bobos de TikTok?
“Herança de família”, me disse a mãe. João aprendeu a gostar de Tim Maia com ela, que, por sua vez, também aprendeu com a mãe.
Voltando ao palco, nem no final, já durante as interações, Thor não abandona o personagem nem o humor afiadíssimo. Na foto final, enquanto um músico demorava para compor o grupo no palco, Tim Maia, o Thor, reclamou: “Tá muito lento. Tá precisando melhorar essa academia.”
Quando disse que estava acabando, a plateia soltou um “ahhhh”, e logo ele reclamou que, se fosse no Jô Soares, o “ahhhh” seria mais animado.
Então o público devolveu outro, bem mais efusivo. E ele não perdeu a piada: “Jô Soares, estamos juntos”, afirmou.
A banda que recria a Vitória Régia sustenta o espetáculo com precisão rara: arranjos limpos, groove, suingue, peso certo, alternância entre clássicos e passagens instrumentais que mantêm tensão dramática e dão ritmo à narrativa.
Há momentos em que essa construção sonora lembra o uso da trilha em Birdman, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2015, dirigido por Alejandro González Iñárritu, em que a percussão permanente ajuda a traduzir o caos dos bastidores de um teatro.
No palco, Vale Tudo mistura de maneira esperta show, memória, bastidor e humor, costurando passagens da vida de Tim Maia com naturalidade. O espetáculo é baseado na biografia escrita por Nelson Motta, amigo de Tim Maia e produtor da peça.
Nesta quarta-feira, dia 1º, o espetáculo volta ao palco do Teatro Guaíra, às 20h30, em mais uma apresentação no Guairão.
Ao final, Carmelo Maia, produtor do espetáculo e filho do cantor, subiu ao palco visivelmente emocionado. Contou que 1.500 artistas foram ouvidos até que Thor fosse escolhido para o papel.
Também falou do pai e disse ter recebido educação rígida justamente para não repetir certos caminhos ligados aos excessos que marcaram a trajetória de Tim Maia, como as drogas. “O mínimo que qualquer ser humano tem que ter é educação. E gentileza gera gentileza.”
João também chorava. Para o menino, Tim Maia estava ali o tempo todo. O artista que, como ninguém, sabe fazer rir, mas também sabe fazer chorar. Seja por letras como Réu Confesso e Me Dê Motivos. Seja pela saudade e pela falta que faz num país cada vez mais careta.