Em tempos de caos mundial, projeto iniciado por Lula prepara o Brasil para um novo patamar militar

Num momento em que guerras voltaram a reorganizar prioridades internacionais e a defesa reaparece como tema central nas grandes potências, um programa iniciado há quase duas décadas começa a ganhar outro significado no Brasil: foi no segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva que o país assinou o acordo que deu origem ao PROSUB, responsável por estruturar a construção do primeiro submarino de propulsão nuclear da América Latina.

Ter um submarino de propulsão nuclear significa ingressar num grupo muito restrito de países capazes de manter presença militar prolongada no mar com alto grau de autonomia e baixa detecção. Diferentemente dos modelos convencionais, esse tipo de embarcação pode permanecer submerso por longos períodos, percorrer grandes distâncias sem necessidade de reabastecimento e operar em áreas estratégicas com capacidade permanente de vigilância. Na prática, isso altera o peso de um país no tabuleiro naval porque amplia sua capacidade de dissuasão: não se trata apenas de defender a costa, mas de impor outro cálculo a qualquer potência que observe aquele espaço marítimo como área de interesse.

Assinado em 2008 e formalizado nos contratos seguintes com a então Naval Group — à época DCNS — o programa foi além da compra de submarinos franceses. A encomenda dos quatro modelos convencionais serviu como porta de entrada para algo maior: transferir tecnologia, erguer um complexo industrial em Itaguaí e criar as condições para que o Brasil passasse a dominar uma engenharia restrita a um número muito pequeno de países.

O projeto mais ambicioso dessa arquitetura é o Submarino Nuclear Álvaro Alberto, cuja construção avançou para uma fase decisiva com o corte inicial do casco resistente no complexo naval do Rio de Janeiro. A previsão oficial hoje trabalha com conclusão em torno de 2037, prazo pressionado por sucessivos desafios orçamentários e pela necessidade de manter contratos internacionais ativos.

Hoje, essa tecnologia continua concentrada num grupo restrito de países: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Índia mantêm submarinos nucleares operacionais.

No caso brasileiro, a justificativa estratégica está diretamente ligada à Amazônia Azul, faixa marítima onde se concentram o pré-sal, cabos submarinos, rotas comerciais e parte relevante da infraestrutura energética nacional.

Antes mesmo do submarino nuclear, o programa já entregou resultados concretos à Marinha do Brasil. O Riachuelo (S-40) e o Humaitá (S-41) já estão incorporados à frota, enquanto o quarto submarino convencional da série foi lançado ao mar no fim de 2025, encerrando a primeira etapa industrial do programa.

O projeto nasceu ainda nos anos 1970 dentro do programa nuclear da Marinha, mas foi a partir de 2008, com orçamento, acordo industrial e decisão política, que deixou de ser hipótese recorrente e passou a ter cronograma, estaleiro e casco.

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