Desfile da Acadêmicos de Niterói foi uma justa homenagem, sem configurar propaganda eleitoral

Só lendas são homenageadas no Carnaval. Neste domingo, foi a vez de Luiz Inácio Lula da Silva — e também de Ney Matogrosso —, assim como tantas outras personalidades já foram celebradas em carnavais anteriores.

Lula tem história suficiente para caber em incontáveis enredos. A escola que decidiu homenageá-lo tem liberdade artística e de expressão para fazê-lo. Falar em propaganda eleitoral antecipada é um absurdo. Afinal, que interferência teve Lula ou o governo nas escolhas artísticas da escola? Nenhuma. O mesmo incentivo recebido pela Acadêmicos — justo e necessário para quem constrói o maior espetáculo da Terra — foi destinado também às demais escolas.

Ao mesmo tempo em que destacou a biografia de Lula, a escola também desferiu críticas sociais importantes, como aos conservadores e ao próprio bolsonarismo, retratado de forma satírica — linguagem tradicional do Carnaval, que historicamente usa ironia e crítica política para dialogar com a realidade do país.

Lula cumpriu uma agenda marcada pela valorização da cultura popular durante o Carnaval, passando por Salvador, Recife e Rio de Janeiro, onde foi recebido com entusiasmo pelo público.

No mais, o que se vê é choradeira. Abuso de poder econômico é algo que pode ser atribuído, por exemplo, a Sergio Moro em 2022, com gastos de campanha questionados, e a Jair Bolsonaro, com motociatas infladas pelo uso do cartão corporativo, igrejas pedindo voto e prefeituras pressionando a população — situações amplamente debatidas naquele período, inclusive em reportagens jornalísticas.

O Carnaval é a festa do povo. E um dos seus foi homenageado — de forma bela, legítima e grandiosa.

O enredo e o samba: a trajetória de um retirante que virou símbolo popular

A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narrando a trajetória que começa no agreste pernambucano, passa pela migração em pau de arara, pelo trabalho como torneiro mecânico, pela liderança sindical durante a ditadura e pela chegada à Presidência da República.

O próprio samba-enredo reforça esse recorte histórico e popular, ao cantar a infância marcada pela pobreza, a luta operária, a resistência política e referências a figuras como Zuzu Angel, Henfil e Vladimir Herzog. Não se trata de propaganda eleitoral, mas de narrativa cultural — uma leitura artística de um personagem histórico, algo que o Carnaval faz há décadas ao transformar biografias, conflitos sociais e símbolos políticos em desfile.

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