Miguel Arcanjo estreia na direção com peça enxuta, viva e emocional no Festival de Curitiba

Se tem uma coisa de que Miguel Arcanjo nunca pareceu gostar – ainda que não transforme isso em bandeira pública – é de espetáculo longo quando a encenação claramente poderia ter eliminado excessos. Jornalista que talvez mais veja, acompanhe e conheça teatro hoje no Brasil, ele construiu sua trajetória olhando a cena de perto, com repertório, volume e opinião. Por isso, sua estreia “do lado de cá do balcão”, na direção de Visita a Domicílio, chegou cercada de expectativa. No Festival de Curitiba, a montagem estreou como uma coprodução Brasil-Argentina, com direção assinada por Miguel Arcanjo Prado e Zé Guilherme Bueno.

E o que se vê em cena confirma muito do que quem o acompanha já imaginava: um teatro contemporâneo que aposta em dinamismo, música, humor e tragédia sem se arrastar além do necessário. Em 60 minutos, Visita a Domicílio entrega ritmo, intensidade e conexão com o público — como se dissesse, também em forma de encenação, que o espectador tem, sim, um limite. A própria ficha do festival informa essa duração de uma hora.

Também chama atenção a ausência daquele aviso protocolar e solene contra filmagens. Não é detalhe irrelevante. Miguel há tempos tensiona certo encastelamento do teatro, essa ideia de que a arte cênica precisa se proteger demais do mundo para preservar sua grandeza. Em Visita a Domicílio, a peça não se fecha; ao contrário, parece partir do princípio de que, se houver interesse genuíno, que filmem, que comentem, que divulguem. Ainda assim, a falta do aviso não produziu dispersão. A plateia teve os pudores necessários, até porque o espetáculo prende do começo ao fim e repele aquele impulso automático de recorrer ao celular como aparelho de esvaziamento. E, justamente por não começar sob a lógica da repressão, também começou sob o signo da empatia.

No palco, Juan Tellategui é magnífico. A montagem é muito bem dirigida, mas não funcionaria sem um ator capaz de sustentar as camadas emocionais, a vibração e a delicadeza que a peça exige. Tellategui interpreta Gabo, ao lado de Cícero de Andrade como Fernando, numa história sobre o reencontro de dois antigos amores 25 anos depois.

De longe, também se reconhecem na encenação as marcas do pensamento de Miguel sobre teatro: a recusa ao enfado, o apreço pela comunicação direta, a defesa de uma cena que conecte em vez de apenas se blindar. Há ali um conjunto de escolhas que parece responder, na prática, a muito do que ele próprio há anos observa, cobra e valoriza como crítico. E talvez esteja justamente aí o aspecto mais bonito dessa estreia: ver alguém que passou tanto tempo pensando o teatro mudar de lugar e se colocar à prova atrás das cortinas.

É emocionante assistir a esse deslocamento. Ter Miguel Arcanjo escrevendo sobre teatro já é um privilégio. Tê-lo produzindo, agora, é um luxo.

Visita a Domicílio estreou no 34º Festival de Curitiba e segue em cartaz no Teatro Paiol nesta quarta-feira, 8 de abril, e quinta-feira, 9 de abril, às 18h30.

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