Poucas vezes no século XX países considerados periféricos conseguiram alterar de forma tão profunda as relações econômicas globais quanto durante o ciclo de nacionalizações do petróleo que levou à criação da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)
Em diferentes partes do Oriente Médio, da África e da América Latina, o controle sobre o petróleo passou a ser visto como uma questão de soberania nacional. A riqueza que durante décadas alimentou impérios, companhias estrangeiras e o desenvolvimento das grandes potências deveria financiar os próprios países produtores.
Selos postais, museus, canções, cartazes e materiais educativos produzidos naquele período ajudam a contar essa história. O petróleo aparece como símbolo nacional, patrimônio coletivo e promessa de futuro. Não é tratado apenas como uma commodity, mas como a base material de um projeto político. Um disco gravado na Venezuela para celebrar os vinte anos da Opep registra precisamente esse estado de espírito.
É desse material que parte An Incomplete Calendar (Um Calendário Incompleto), exibido no Olhar de Cinema. O documentário utiliza aquele álbum como porta de entrada para um período em que parte do chamado Sul Global acreditava ter encontrado no petróleo uma ferramenta capaz de alterar sua posição no mundo.
Ao longo dos anos 1950 e 1960, uma sequência de acontecimentos abalou estruturas que pareciam permanentes. Em 1951, o iraniano Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria petrolífera de seu país, até então controlada pela Anglo-Iranian Oil Company. Dois anos depois, seria derrubado por um golpe apoiado pelos governos britânico e norte-americano. No Egito, Gamal Abdel Nasser transformou a nacionalização do Canal de Suez em um dos gestos políticos mais marcantes da era da descolonização.
Em diferentes partes da África, do Oriente Médio e da América Latina, controlar recursos estratégicos deixou de ser apenas uma questão econômica. Era uma disputa sobre soberania, independência e poder.
A Opep nasceu nesse ambiente.
Fundada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, a organização representava algo raro: países historicamente subordinados às grandes potências tentando coordenar interesses para controlar a riqueza produzida em seus próprios territórios. Durante décadas, o petróleo havia financiado impérios, guerras, processos de industrialização e sistemas financeiros concentrados na Europa e nos Estados Unidos. Agora, pela primeira vez, os produtores imaginavam utilizar essa riqueza para financiar seus próprios projetos nacionais.
Em muitos daqueles países, o petróleo também passou a ser associado a causas políticas que ultrapassavam as fronteiras nacionais. A defesa da Palestina ocupava lugar importante nesse imaginário. A riqueza energética era vista como instrumento de soberania, mas também como uma forma de pressionar potências ocidentais e apoiar povos que, sob a ótica daqueles governos, enfrentavam ocupação, intervenção estrangeira ou diferentes formas de dominação.
Nos anos 1970, parecia que estavam conseguindo.
O choque do petróleo de 1973 demonstrou que os países produtores possuíam capacidade real de influenciar as maiores economias do planeta. A relação entre centro e periferia deixava de parecer tão imutável quanto antes. O petróleo já não era apenas uma matéria-prima extraída em regiões distantes. Tornava-se um instrumento de pressão política.
Os arquivos reunidos pelo documentário mostram bem esse momento. Refinarias aparecem estampadas em selos. Museus celebram a história da exploração petrolífera. Produções culturais associam o petróleo à independência nacional. O recurso natural é apresentado como patrimônio coletivo e como prova concreta de que aqueles países poderiam determinar seus próprios rumos.
O dinheiro volta
A parte mais forte do documentário aparece quando o entusiasmo daqueles arquivos encontra os resultados concretos do projeto que celebravam.
A Opep não fracassou. As nacionalizações avançaram. Os Estados produtores passaram a controlar parcelas muito maiores da renda petrolífera. As grandes companhias internacionais perderam poder. Aquilo que parecia improvável nos anos 1950 tornou-se realidade. O problema não foi a derrota. Foi o que aconteceu depois da vitória.
À medida que os petrodólares se acumulavam, uma questão prática surgia: onde colocar tanto dinheiro? A resposta, em grande medida, estava em Londres, Nova York, Paris e Zurique.
Bilhões de dólares provenientes do petróleo passaram a circular pelos grandes bancos ocidentais. Essas instituições financeiras utilizavam os recursos para conceder empréstimos, financiar governos e ampliar a própria expansão do sistema financeiro internacional. O dinheiro extraído dos campos petrolíferos do Oriente Médio e da América Latina retornava aos centros econômicos que, durante décadas, haviam concentrado o poder global.
A riqueza produzida pela nacionalização do petróleo não financiou uma ordem econômica alternativa. Passou a alimentar, em larga medida, a mesma arquitetura financeira que aqueles projetos políticos pretendiam desafiar.
Não se trata de ingenuidade nem de traição. Trata-se de uma contradição estrutural. Entrar no mercado mundial com maior poder de barganha não significava construir um mercado diferente. O petróleo continuava sendo negociado em dólares, por meio de instituições e mecanismos que permaneciam sob influência dos grandes centros financeiros internacionais.
1980
O disco comemorativo que inspira o documentário foi lançado em 1980. No mesmo ano, Irã e Iraque, dois dos países fundadores da Opep, entraram em guerra.
As causas do conflito remontavam a disputas territoriais, rivalidades regionais e tensões agravadas pela Revolução Iraniana de 1979. Os Estados Unidos não criaram a guerra, mas apoiaram o Iraque ao longo do conflito, enxergando o novo regime iraniano como uma ameaça estratégica.
O episódio expôs uma limitação que o petróleo sozinho não conseguia resolver.
A organização havia construído poder econômico. Não havia construído uma unidade política duradoura entre seus integrantes.
Interesses nacionais, disputas regionais e projetos de poder continuavam existindo sob a superfície daquela solidariedade celebrada em discursos, canções e cerimônias oficiais.
O petróleo e seus limites
Meio século depois, os protagonistas dessa história continuam ocupando posições estratégicas na geopolítica mundial.
A Venezuela segue submetida a sanções e pressões econômicas dos Estados Unidos. O Irã permanece em confronto com Washington e seus aliados. As disputas energéticas continuam influenciando guerras, alianças e rearranjos de poder em diferentes regiões do planeta.
Os arquivos recuperados por An Incomplete Calendar pertencem ao passado. As questões que eles levantam continuam atuais.
O documentário também ajuda a observar outro aspecto da trajetória da Opep. A organização ampliou a participação dos países produtores na renda petrolífera, fortaleceu Estados nacionais, financiou infraestrutura, expansão urbana e investimentos públicos em diversas partes do mundo. Seria impossível compreender a transformação de vários países produtores sem considerar o papel desempenhado pelo petróleo.
Mas o petróleo, sozinho, não resolveu o problema do desenvolvimento.
Em muitos casos, a abundância de recursos naturais não foi acompanhada por uma diversificação econômica capaz de reduzir a dependência da própria commodity. A industrialização sonhada por parte daqueles governos ocorreu de forma limitada ou desigual. Economias inteiras continuaram dependentes da exportação de petróleo bruto e das oscilações do mercado internacional.
O filme sugere uma questão conhecida por economistas e historiadores do desenvolvimento: riqueza mineral não produz automaticamente sociedades mais complexas, industrializadas ou tecnologicamente avançadas.
Sem investimento contínuo em educação, ciência, tecnologia, indústria e inovação, a abundância de recursos naturais pode se transformar em uma nova forma de dependência.
Os petrodólares financiam estradas, cidades e grandes projetos nacionais. Não garantem, por si mesmos, uma transformação estrutural.
Depois da vitória
A discussão proposta por An Incomplete Calendar não termina no petróleo. A Opep realizou boa parte daquilo que se propôs a fazer. Os países produtores ampliaram receitas, conquistaram influência internacional e recuperaram o controle sobre recursos estratégicos.
Mas a transformação encontrou limites. Um movimento criado para ampliar a autonomia de países periféricos conseguiu fazê-lo dentro de uma estrutura que permaneceu essencialmente intacta. O poder mudou parcialmente de lugar. A arquitetura que organizava esse poder continuou a mesma.
Os arquivos reunidos pelo filme registram uma época em que muitos governos acreditavam que o petróleo poderia financiar industrialização, autonomia econômica e uma posição menos subordinada no mundo.
Parte disso aconteceu. Parte não. Os países produtores conquistaram mais poder sobre suas riquezas.Mas não conseguiram transformar esse poder em uma alternativa à ordem econômica internacional.