A afirmação, já presente no título, de que Pet Sounds é o melhor álbum de todos os tempos tem potencial para causar siricuticos entre beatlemaníacos. Eles certamente responderão com Revolver, Rubber Soul, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band ou Abbey Road. Todos excelentes discos. Alguns, obras-primas. Mas nenhum chega ao nível melódico quase divino do disco dos Beach Boys.
É claro que essa discussão nunca terminará. Há quem coloque Kind of Blue, de Miles Davis, no topo da lista. Outros preferem Astral Weeks, de Van Morrison, The Velvet Underground & Nico, do The Velvet Underground, What’s Going On, de Marvin Gaye, Blue, de Joni Mitchell ou Forever Changes, do Love. São escolhas defensáveis.
Lançado em maio de 1966, Pet Sounds chega aos 60 anos ocupando um lugar raro. Já foi eleito o maior álbum de todos os tempos pela britânica Uncut, aparece entre os primeiros colocados da Rolling Stone e mantém nota 4,20 no Rate Your Music, uma das maiores comunidades de crítica musical da internet. Esses rankings mostram que a provocação do título está longe de ser uma excentricidade.
É impossível falar de Pet Sounds sem chegar aos Beatles. Em 1965, Brian Wilson ouviu Rubber Soul e decidiu fazer o melhor disco de sua vida. A resposta veio poucos meses depois. Quando Pet Sounds chegou às lojas, Paul McCartney ficou fascinado. No ano seguinte, os Beatles lançariam Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. A história da música transformou esses dois discos em capítulos da mesma conversa.
Os próprios fãs dos Beatles raramente concordam sobre qual é o melhor álbum da banda. Uns defendem Revolver. Outros apontam por Rubber Soul. Há quem escolha Abbey Road, o Álbum Branco ou Sgt. Pepper’s. Entre os Beach Boys essa discussão praticamente não existe. Pet Sounds permanece à toda prova.
Quase toda tentativa de explicar a grandeza de Pet Sounds passa pelos Beatles ou pelas inovações de estúdio. Muita gente explica a grandiosidade desse disco pela técnica, com os sinos de bicicleta, os latidos de cachorro e a sofisticação dos arranjos.
Mas a grandeza do disco também está em outro lugar – está também numa malemolência, num suingue, numa vibração que soa orgânica, e não mero recurso de produtor ou tentativa de seguir tendências. God Only Knows talvez seja o melhor exemplo – e não porque seja a melhor do disco porque, assim definir o principal álbum Beatles, escolher a faixa mais encantadora de Pet Sounds é impossível, pois todas as faixas são boas e porque o disco funciona como deve ser, como um disco, uma obra completa . Ela parece simples na primeira audição. A melodia surpreende sem chamar atenção para si mesma. Tudo soa natural, como se aquela música não pudesse ter sido escrita de outra maneira. Paul McCartney a considera uma das maiores canções já escritas. Vindo de quem escreveu Yesterday, Eleanor Rigby e Penny Lane, não é um elogio qualquer.
Os vocais, os metais e as cordas não disputam atenção com as canções. Estão sempre a serviço delas.
Mas Beach Boys e Beatles compartilham mais do que uma rivalidade criativa. As histórias das duas bandas também acabaram marcadas por tragédias. Os Beatles perderam John Lennon para a violência. Brian Wilson passou décadas convivendo com doenças psiquiátricas, dependência química e um lento processo de deterioração física e emocional. É difícil ouvir Pet Sounds hoje sem pensar no homem que imaginou aquelas melodias, morto no ano passado, aos 82 anos.
Sessenta anos depois, segue difícil, quiçá impossível, encontrar outro disco que reúna tantas melodias tão bonitas quanto Pet Sounds.