“Homem da mala”: a história da premiação que virou confusão no Maracanã e marcou a campanha do Athletico em 1983

Episódio ocorreu na campanha que levou o clube à semifinal do Campeonato Brasileiro; fotografia da entrega do valor ao Provopar integra exposição sobre futebol e poder no MIS-PR

Uma goleada no Maracanã, uma mala de dinheiro, uma confusão diante das câmeras e um cheque que acabou destinado a uma ação social. Um dos episódios mais curiosos da campanha do Athletico no Campeonato Brasileiro de 1983 está registrado em uma fotografia hoje exposta no Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), em Curitiba.

A imagem integra a mostra “O Poder do Futebol e o Futebol do Poder”, inaugurada em 11 de junho. Com curadoria dos jornalistas André Pugliesi e Sandro Moser, a exposição reúne fotografias, vídeos e documentos do acervo do museu para contar a história do futebol paranaense e suas relações com a política e o poder público desde a década de 1950.

A fotografia remete ao episódio que ficou conhecido como o do “homem da mala”, ocorrido durante a terceira fase do Brasileiro de 1983, uma das campanhas mais importantes da história atleticana até então.

A classificação em jogo

Athletico — ainda chamado oficialmente de Atlético Paranaense —, Atlético-MG, Colorado e América-RJ disputavam duas vagas na fase seguinte do campeonato. Na última rodada, o time paranaense enfrentava o Atlético-MG no Mineirão, enquanto Colorado e América jogavam simultaneamente no Maracanã.

O Atlético-MG já estava classificado. A segunda vaga era disputada principalmente pelos dois clubes de Curitiba. O Athletico tinha seis pontos ao fim da rodada, contra quatro do Colorado; a classificação final do grupo ainda registraria Atlético-MG em primeiro, com 11, seguido pelo Athletico, Colorado e América-RJ.

Para evitar depender do resultado no Rio de Janeiro, o Athletico precisava arrancar ao menos um empate em Belo Horizonte. Mas o Atlético-MG abriu o placar, deixando a classificação rubro-negra temporariamente condicionada ao que acontecia no Maracanã.

Foi nesse contexto que entrou em cena Paulinho Alves, filho de Hélio Alves, treinador que havia comandado o Athletico naquela campanha.

Segundo relato histórico publicado pelo site Furacao.com, Paulinho foi ao Rio de Janeiro com uma premiação destinada aos jogadores do América-RJ caso derrotassem o Colorado. Era a prática que ficaria conhecida no futebol como “mala branca”: um incentivo financeiro oferecido por um terceiro para que uma equipe vencesse ou pontuasse contra um adversário.

O resultado não poderia ter sido mais favorável aos atleticanos. O América, que ainda não havia vencido naquela fase, goleou o Colorado por 5 a 1 no Maracanã. A goleada permanece registrada como a maior vitória do clube carioca sobre uma equipe paranaense.

No Mineirão, porém, o próprio Athletico resolveu sua situação ao conseguir o empate por 1 a 1. Com isso, classificou-se independentemente da goleada no Rio.

Dinheiro, câmeras e confusão

O que poderia ter terminado como uma história de bastidor ganhou repercussão depois das partidas.

Paulinho Alves foi ao vestiário do América para entregar a premiação prometida. De acordo com a reconstrução publicada pelo Furacao.com, jornalistas e equipes de televisão apareceram no momento da entrega. Diante das câmeras, a situação terminou em confusão, com Paulinho agredido no vestiário. O episódio o transformaria no personagem conhecido como “homem da mala” no futebol paranaense.

O relato publicado décadas depois sustenta que jogadores e dirigentes do América tinham conhecimento prévio da premiação e reagiram ao perceber que a entrega estava sendo registrada. Como essa descrição específica dos bastidores parte de uma memória posterior ligada ao Athletico, ela deve ser tratada como a versão preservada sobre o episódio, e não como uma reconstrução independente de tudo o que ocorreu dentro do vestiário.

O fato é que a história teve repercussão suficiente para produzir outro registro, desta vez longe dos gramados.

O dinheiro foi parar no Provopar

Após a repercussão negativa, o valor relacionado ao episódio foi destinado ao Provopar, programa de assistência social então liderado em Curitiba por Ivete Fruet.

É justamente esse desfecho que aparece na fotografia preservada pelo MIS-PR. Na entrega simbólica, dirigentes e jogadores do Athletico aparecem ao lado de Ivete Fruet. Entre os atletas está Assis, que se tornaria um dos maiores ídolos da história do clube e, ao lado de Washington, formaria a célebre dupla conhecida como “Casal 20”.

A fotografia hoje exibida no museu registra, portanto, uma espécie de epílogo institucional para uma história iniciada na disputa por uma vaga no Campeonato Brasileiro.

O episódio também ajuda a dimensionar o significado daquela temporada. Depois de superar a terceira fase, o Athletico eliminou o Flamengo nas quartas de final e chegou pela primeira vez às semifinais do Campeonato Brasileiro, sendo eliminado pelo próprio Flamengo, que acabaria campeão.

Futebol, memória e poder

A presença da fotografia na exposição não é casual. “O Poder do Futebol e o Futebol do Poder” foi organizada justamente para explorar os pontos de contato entre o esporte, a sociedade e as estruturas políticas do Paraná.

A mostra trabalha com cerca de 400 fotografias e mais de 30 minutos de registros audiovisuais brutos pertencentes aos acervos do MIS-PR e do Palácio Iguaçu. Há imagens antigas da Baixada, registros de Colorado e Pinheiros — clubes que posteriormente dariam origem ao Paraná Clube —, visitas de jogadores e dirigentes a governadores e encontros entre autoridades e alguns dos principais personagens do futebol brasileiro.

A exposição é dividida em dois eixos. O primeiro acompanha a consolidação do futebol como fenômeno de massas, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980. O segundo se dedica às relações entre clubes, jogadores e o poder político, utilizando principalmente registros preservados no acervo do Palácio Iguaçu.

Entre as imagens estão a passagem de Pelé, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo pelo Palácio Iguaçu em 1970; registros da viagem do Colorado à África em 1974; e a visita do então governador José Richa a um treinamento do Athletico em maio de 1983, pouco depois do episódio do “homem da mala” e às vésperas da semifinal do Brasileiro.

É nesse conjunto que aparece a famosa fotografia da entrega ao Provopar: um registro que, quatro décadas depois, reúne numa mesma imagem jogadores de futebol, dirigentes e representantes do poder público — exatamente a relação que a exposição se propõe a investigar.

“O Poder do Futebol e o Futebol do Poder” estreou em 11 de junho no Museu da Imagem e do Som do Paraná, na Rua Barão do Rio Branco, 395, no Centro de Curitiba. A curadoria é de André Pugliesi e Sandro Moser.

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