Homeland: o que a série americana tem a ver com o Brasil?

Conspirações, fake news, traições e medidas ativas de agentes externos para desestabilizar uma democracia. A série é uma ficção que se passa nos Estados Unidos, mas poderia muito bem retratar o Brasil

 

A série norte-americana Homeland encerrou sua sétima temporada em abril mostrando que, após tantos anos, ainda têm fôlego e capacidade de se mostrar atual e relevante. Sim, estamos diante de uma série de ficção, mas que se propõe a tratar temas atuais, como terrorismo e espionagem, com alguma verossimilhança. Claro, com enredo recheado de conspirações, traições e heroísmos, típicos de produções desse tipo. Mas claramente conectado com o que está acontecendo no mundo. Em Homeland, vemos que terrorismo, fake news e crise política podem fazer parte de uma mesma rede de relações e eventos.

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A espiã Carrie Mathison é a protagonista da série

A sétima temporada, e já avisamos de antemão que o texto tem spoilers, mostra os Estados Unidos à beira do caos político. O impeachment da presidente Keane parece inevitável. A situação política do país se degradou a partir de medidas ativas do GRU, grupo de espionagem russo, que atua com o objetivo de abalar democracias no mundo. Podemos aqui fazer um parêntese e dizer: se há ações que abalam propositalmente democracias no mundo, elas partem, principalmente, do país no qual a série é rodada. Mas Homeland nunca foi uma produção que se propôs a legitimar as ações externas dos Estados Unidos. Adota uma abordagem crítica, denunciando invasões e intervenções americanas em outros países,  sobretudo no Oriente Médio.

Mesmo quando coloca a Rússia como vilã, a série abre espaço para que o agente que comandou a operação defenda por que realizou determinadas ações. “Há uma história de agressão do país de vocês contra o nosso, que vocês chamam de ‘contexto’. A guerra fria que, para vocês, nunca acabou. Um: a expansão da Otan na Europa Oriental, começando em 1994. Dois: a guerra da OTAN contra a Iugoslávia em 1999. Três: a guerra contra o Iraque, em 2003. Quatro: o reconhecimento unilateral da independência de Kosovo em 2008. Cinco: Líbia. Seis: Síria. Guerra, guerra, guerra. Guerra dos EUA contra nós”.

Em dado momento, a presidente Keane fala que fim de regimes democráticos mundo afora não são mero acaso.

“Quando pensamos em mortes de democracias, pensamos em revoluções, golpes militares de Estado e homens armados nas ruas. Mas cada vez menos acontece desse jeito. Turquia, Polônia, Hungria, Nicarágua, Filipinas…Democracias morrem quando não estamos olhando, quando não estamos prestando atenção. E o fim raramente vem de forma rápida. Ele chega bem devagar, como o crepúsculo, e, a princípio, nossos olhos não percebem”.

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A presidente Keane vê a democracia de seu país fragilizada

A trama para interferir nos Estados Unidos é intricada. O grupo tenta ligar a presidente à morte de um general. E usa “idiotas úteis” para isso, deixando pistas propositais, que vão revelar que uma das envolvidas tem ligação com o chefe de gabinete da presidente. É uma isca para tentar ligar os pontos. No começo, a experiente espiã Carrie a morde, mas depois começa a desconfiar de como as suspeitas chegaram até ela. E no fim, descobre-se que tudo fazia parte de um plano para se olhar para um lado, e não para outro. Ainda bem que Carrie olha para o outro, e revela a tentativa de manipulação que está por trás de tudo.

De aliada, a ex-agenda da CIA Carrie se torna inimiga da presidente e, através da investigação, quer derrubá-la. É que de santa  Keane não tem nada. Também pudera, trata-se do mesmo personagem que, na temporada anterior, foi vítima de um atentado que deixou vários mortos, e só por pouco ela escapou. Naquele momento, o inimigo era interno – uma conspiração militar para impedir que uma candidata antimilitarista chegasse ao poder, ferindo interesses econômicos.  A presidente sobreviveu, mas a ferida continuou aberta, e na atual temporada ela inicia o mandato fazendo uma verdadeira caça às bruxas e prendendo mais de 200 suspeitos, violando direitos individuais. É chamada de fascista pela própria equipe. Por isso, vai de mal a pior. Aos poucos, ao ver a gravidade de suas ações, cede. Mas aí os problemas começam a se avolumar. E ela não governa. Apenas se defende. Não consegue ter uma agenda positiva. Uma agonia que lembra os últimos momentos do governo Dilma. Ao grupo de parlamentares que tem dúvidas sobre a intervenção externa, Keane diz: “Estamos sob ataque de uma operação russa gigantesca que foi projetada para acabar com a nossa democracia e minimizar o nosso papel no cenário mundial. Se vocês não acreditam, e eu sei que alguns não acreditam, perguntem-se o seguinte: ‘O que foi que nós, qualquer um de nós, fizemos pelo povo nos primeiros cem dias?’”.

Em meio às falsas denúncias, a presidente é vítima de um golpe. Com o país dividido, um blogueiro especializado em distorção dos fatos – e suspeito de fazer parte da conspiração – se torna um herói da oposição. Caçado pelo governo e defendido por milícias conservadoras de brancos separatistas do sul do país. Quando o FBI o encontra e se prepara para prendê-lo se vê diante de um impasse. O jornalista, em meio a crianças e homens armados dispostos a defendê-lo, diz que não vai se entregar. Uma hora o conflito seria inevitável. Um jovem se fere. É levado para o hospital, mas eis que lá surge o fato que incendiará o país.

FAKE NEWS

Um vídeo falso mostra menino abandonado no leito hospital, sem atendimento e sangrando até morrer. Velho truque do KGB, mas agora a arma é muito mais potente. Com a internet, e com servidores feitos para automatizar usuários falsos e elevar o que se pretende a milhões de cliques, a história ganha outras proporções. Estamos no mundo das redes sociais, onde ninguém sabe bem como as coisas viralizam. Por exemplo, comparando novamente à realidade, a onda de protestos no Brasil de 2013, na qual Julian Assange, do WikiLeaks, disse que não se pode descartar uma atuação orquestrada e uso de robôs para “bombar” os eventos nas redes sociais. Foi o que disse também o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Segundo ele, o Brasil foi alvo das mesmas conspirações que tentaram desestabilizar seu país. “O mesmo jogo está sendo jogado agora no Brasil. Os símbolos são os mesmos, os cartazes são os mesmos, Twitter e Facebook são os mesmos, a mídia internacional é a mesma. Eles (os manifestantes) são liderados a partir do mesmo centro”, disse Erdogan. Não custa desconfiar.

Voltando a Homeland, tempos depois, um senador ávido por poder, mesmo sabendo que os fatos estão sendo manipulados por um agente externo, decide iniciar um processo para destituir a presidente do poder, usando uma emenda que permite tirar o mandatário quando ele está impossibilidade por motivos de saúde ou não está em pleno gozo de suas faculdades mentais. Não é o caso aqui, mas eis mais uma semelhança com a política brasileira, onde uma presidente foi deposta a despeito de não ter pratico crime de responsabilidade.

Keane é avessa à política e tem dificuldade para negociar sua permanência. Quando a trama russa é enfim revelada, ela se prepara para assinar um pacote de sanções, mas é aconselhada pelo vice-presidente a adotar uma saída que politicamente a deixaria mais forte: fazer com que o Congresso debata as medidas e faça parte do processo – o que, num caso de ataque à democracia do pais, não seria difícil, unindo Democratas e Republicanos. E aí que ela percebe que é parte do problema e decide entregar o cargo ao vice.

Que bom para os americanos que na série eles podem se dar o luxo de viver eventos que fragilizam sua democracia apenas na ficção.  No Brasil, nós não sabemos até que ponto tudo que está acontecendo aqui pode ter interferência de outros países, por exemplo, com colaborações ilegais em investigações da Lava Jato. A operação chegou a reconhecer que houve contribuição informal, o que, em qualquer proporção é muito grave e fere a soberania nacional.

Vimos nesse processo todo, ainda, como os Estados Unidos cresceram o olho sobre o Brasil, a ponto de espionar a Petrobras e a própria presidente Dilma Rousseff. Um atentado à soberania nacional, que ligou o alerta sobre a necessidade de protegermos nossas riquezas e a nossa própria democracia. À época, Snowden publicou: “Não tenho dúvidas de que o Brasil é o grande alvo dos Estados Unidos”.

Contudo, essa tarefa, num ambiente político conturbado, parece mais difícil. E não sei se nossas forças de inteligência são tão inteligentes assim como as americanas. Afinal, chegamos ao cúmulo de ter uma conversa particular de uma presidente da República divulgada por um juiz de primeira instância, sem que houvesse, até agora, uma punição formal ao juiz em questão. O mesmo juiz que divulgou conversas pessoais de um investigado para constrangê-lo e que pratica prisões preventivas com duração de mais de dois anos (e com anuência do Supremo).

Por essas e outras, nossa democracia está em xeque, e isso não é ficção. Vemos nestas eleições o quanto as fake news, as mesmas que abalaram os Estados Unidos na série Homeland, na vida real estão confundindo as pessoas e mudando o rumo dos acontecimentos. Já teve até notícia de presidente propondo mamadeira erótica.

Voltando um pouco no tempo, no dia do julgamento do habeas corpus de Lula, vimos o comandante do Exército dar recado ao STF que as forças armadas estavam atentas à sua missão. Meses atrás, vimos policiais militares invadirem uma festa supostamente da milícia e prender mais de 200 pessoas, muitas das quais se revelaram inocentes. Políticos são mortos por causa de seus posicionamentos políticos. Ex-presidentes são impedidos de visitar determinados lugares devido a ameaças. As ameaças ganham proporções e se tornam realidade a ponto de pessoas se matarem umas as outras, como ocorreu com o mestre Moa do Katendê, vítima de de defensores de Bolsonaro.

Comparando com outra série, House of Cards, a realidade da política brasileira é tão mais sórdida que a produção americana quando vista por brasileiros parece sem graça. Mas ainda temos chão para termos uma realidade parecida com o universo de Homeland. Precisaríamos retomar um papel de destaque no exterior que outrora ensaiamos.

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