Latrocínio ou crime de ódio? Polícia apura motivação de serial killer de homossexuais preso neste sábado em Curitiba

As três mortes atribuídas a José Tiago, preso neste sábado em Curitiba, foram registradas a partir de abril deste ano. Delegado afirma que serial killer pode ter praticado crimes antes disso, desde 2018. A Aliança Nacional LGBTI+ entende que assassinatos foram motivados por lgbtfobia

O serial killer de homossexuais foi preso neste sábado. Foto: Eduardo Matysiak

O homem suspeito de matar ao menos três homossexuais no Paraná e em Santa Catarina foi preso na manhã deste sábado, 29, em Curitiba. Após denúncias anônimas e investigações, a polícia localizou José Tiago Correia Soroka em uma pensão, no bairro Capão Raso, por volta das 6h30.

José Tiago, que ficou conhecido como o serial killer de Curitiba, responderá pelas mortes de David Júnior Alves Levisio, ocorrida no dia 27 de abril e Marco Vinício Bozzana da Fonseca, morto no dia 4 de maio, ambas na capital paranaense. Ele também é suspeito da morte de Robson Olivino Paim, no dia 16 de abril, em Abelardo da Luz (SC). Os três homens eram homossexuais, moravam sozinhos e foram encontrados mortos na cama de suas residências com sinais de asfixia.

Em depoimento à Polícia, José Tiago confessou os crimes e revelou detalhes sobre como atuava para matar as vítimas e roubar objetos delas. Segundo o delegado Thiago Nóbrega, no interrogatório ele aparentava tranquilidade e não demonstrou culpa.

Para o delegado, não há dúvidas de que se trata de um serial killer. “Não tenho dúvida quanto a isso. Pela quantidade de crimes, espaçamento de tempo, modus operandi e o perfil dele. Temos consumados ou tentados entre 6 e 7 crimes”.

O inquérito apurará se os crimes cometidos foram latrocínios, onde a intenção principal seria roubar pertences das vítimas, ou homicídios praticados por ódio, o que acarretaria qualificadores. A Aliança Nacional LGBTI+ defende que os crimes sejam enquadrados como lgbtfobia.

Como agia
Conforme a Polícia, José Tiago marcava encontros por aplicativos de relacionamento com vítimas potenciais e se deslocava até a casa delas por meio de veículos solicitados por aplicativos ou táxis, através de cadastros falsos e sempre com pagamento em dinheiro.

Após ser recebidos pelas vítimas e iniciar conversa normalmente descontraída para deixá-las mais à vontade, as imobilizava com golpe de mata leão. Depois, roubava objetos de valor como celulares, computadores, videogames e joias. “Sempre agia do mesmo modo. Dava mata leão na vítima e, se a vítima apagasse, pegava os bens e ia embora. Se reagisse, ele fazia questão de matá-las, esganando até a morte”, afirma o delegado Thiago Nóbrega.

No dia 11 de maio, o homem tentou matar mais um homossexual, no bairro Bigorrilho, em Curitiba. Na ocasião, a vítima conseguiu resistir ao ataque, apesar de ter bens subtraídos. Foi a partir de então que a polícia identificou o suspeito e ele passou a ser procurado. Nesse episódio, José Tiago teria se vangloriado de ser um serial killer. “Ele estava gostando dos 5 minutos de fama dele. Estava sentindo prazer nas mortes que estava praticando e em nenhum momento teve arrependimento. Até falou para uma vítima que ele era o serial killer da televisão. Estava se vangloriando disso”, diz o delegado.

Outras vítimas
Segundo o delegado, José Tiago pode ter feito outras vítimas, sobre as quais o suspeito preferiu não falar. O caso mais antigo investigado data de 2018. “Mas pode existir vítimas anteriores. Ele preferiu delimitar um período. Ele disse que só assumiria responsabilidade pelos crimes que já conhecíamos. No entanto, disse que há outros crimes, com outras vítimas, que possivelmente sobreviveram, mas que não iria falar”. A expectativa é que com a prisão outras pessoas procurem a polícia para registrar ocorrência contra José Tiago.

À polícia, José Tiago afirmou que não manteve relações sexuais com as vítimas, exceto com uma, que sobreviveu e sobre qual preferiu não falar por motivos pessoais. Ele também não revelou qual a sua orientação sexual. “Deu a entender que mexia com lado íntimo dele, o que leva crer que tem problema com a homossexualidade e que esse assunto o incomoda”. Por isso, apesar de José Tiago ter dito que a motivação principal das mortes era roubar os pertences das vítimas, a polícia entende que pode haver também elementos de ódio. “Temos dúvida se a motivação principal foi a questão patrimonial ou crimes contra a vida. Talvez guardasse dentro dele esse sentimento, essa incerteza, e acabava colocando isso para fora no momento que pratica os crimes, descontando nas vítimas homossexuais, por não aceitar que [ele próprio] fosse homossexual ou bissexual. Ele não precisava ter matado”, explica Nóbrega.

José Tiago já havia sido preso por roubo de veículos. Há cerca de um ano foi demitido por justa causa de um emprego como chaveiro, por acumular muitas faltas. Depois disso, estaria vivendo com o dinheiro da venda dos pertencentes das vítimas.

De cada vítima, estima-se que José Tiago tenha roubado cerca de R$ 4 a R$ 6 mil em bens pessoais. “Ele disse que estava praticando um crime por semana e gastando esse dinheiro com coisas supérfluas. Gastou grande parte do dinheiro com cocaína”.

Para não ser descoberto, José Tiago passou por diversas pensões e hotéis de Curitiba, mudando-se a cada 15 dias, até ser preso na pensão do Capão Raso. “Sempre que praticava um crime, procurava mudar de hotel ou pensão, com receio que a polícia procurasse no endereço anterior”.

Lgbtfobia
O coordenador nacional da área jurídica da Aliança Nacional LGBTI+, o advogado Marcel Jeronymo, defende que os crimes sejam enquadrados como homicídio com qualificadores por motivo torpe. “Pelas naturezas do crime, entendemos que é crime de lgbtfobia. O desejo íntimo e a sexualidade não resolvida desse criminoso nos indicam que, por não aceitar sua condição e poder se envolver sexualmente com outros homens, queria matar no outro o que ele queria matar nele próprio”.

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