Eu avisei que a hipocrisia tem método: o pedágio é do Ratinho, mas a culpa é do “outro”

Por Requião Filho

Acompanho com atenção, e nenhuma surpresa, o teatro que tomou conta da Assembleia Legislativa nestes primeiros dias de fevereiro de 2026. Deputados da base aliada, que passaram os últimos anos aplaudindo o Palácio Iguaçu, agora rasgam as vestes contra os abusos do novo pedágio.

Falam em “absurdo”, criticam a localização dos pórticos e reclamam das multas dos seus eleitores. Quero deixar claro: a indignação do povo é legítima. O desespero dos prefeitos é real. O grito do setor produtivo e dos moradores rurais, que agora pagam para ir à esquina, é justo. O modelo implantado é, de fato, uma tragédia para a economia do Paraná.

O que não é legítimo, o que beira o estelionato intelectual, é ver os mesmos que deram cheque em branco ao governador Ratinho Junior tentarem, agora, jogar essa bomba exclusivamente no colo do Governo Federal.

Em 8 de maio de 2023, eu ocupei a tribuna e desenhei exatamente o que está acontecendo hoje. Não precisei de bola de cristal, apenas de memória e análise política. Eu disse:
“Quando o paranaense gritar com o preço do pedágio, o Governador vai dizer que a tarifa é culpa do governo Lula. O governo Lula aceitou um pedágio que foi montado pelo governador Ratinho, pelo então presidente Bolsonaro e pelo G7”.

Dito e feito.

O modelo que hoje encarece o frete, que instalou 15 novas praças (subindo de 27 para 42) e que criou essa armadilha dos pórticos eletrônicos, foi gestado a quatro mãos entre o Governo Ratinho e a gestão Bolsonaro. Foi o governo estadual que desenhou o pacote, que concordou com as concessões onerosas e que vendeu a ideia de que a iniciativa privada salvaria nossas estradas.

Agora, os deputados da base agem como se tivessem acordado de um coma. Gritam contra a ANTT e apontam o dedo para Brasília, fingindo que não sabem quem é o pai da criança.
Onde estavam esses deputados quando o Governo do Estado delegou as rodovias? Onde estavam quando alertamos que o modelo híbrido e a outorga disfarçada em obras resultariam em tarifas altas? Estavam na foto oficial, sorrindo ao lado do Governador.

A estratégia do Ratinho sempre foi clara e eu avisei: ele segurou a concessão o máximo que pôde para não atrapalhar sua reeleição, assinou o acordo garantindo que as obras seriam “mérito do Estado”, e deixou a cobrança impopular para a conta da União.
É muito fácil ser governo na hora de cortar a fita e virar oposição na hora que o boleto chega.

Aos colegas deputados da base que hoje esbravejam: a culpa não é apenas de quem executa o contrato, mas de quem desenhou o modelo. Vocês apoiaram o projeto de Ratinho e Bolsonaro. Vocês validaram a lógica de mercado acima do interesse público.

O povo do Paraná tem toda a razão de estar furioso. Mas não aceitem ser enganados duas vezes. O pedágio que hoje sangra o bolso do paranaense tem DNA, tem história e tem responsáveis que agora tentam se esconder atrás de discursos inflamados.

A fatura chegou, como eu avisei que chegaria. Tenham, ao menos, a coragem de assumir quem fez o pedido.

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