Por que Eduardo Pimentel passou de improvável a nome no radar de Ratinho Jr. para 2026

Prefeito Eduardo Pimentel e outras autoridades, acompanham o governador Carlos Massa Ratinho Junior na assinatura do contrato de execução das obras do Novo Corredor Metropolitano de Curitiba. Curitiba, 18/08/2025. Foto: José Fernando Ogura/SECOM

Ratinho Junior está mais enfraquecido do que nunca após recuar da disputa presidencial e ver sua própria base dividida, mas ainda tenta manter o controle sobre a sucessão no governo. Entre idas e vindas nos bastidores, um nome improvável começou a circular com mais força como possível candidato com a chancela do Palácio Iguaçu: o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel.

A hipótese deixou de ser apenas rumor depois de um encontro entre os dois na noite de segunda-feira (23), em Curitiba, poucas horas após Ratinho Junior anunciar oficialmente que desistia da disputa presidencial. Segundo bastidores políticos, o governador tentou convencer Pimentel a considerar uma candidatura ao governo estadual, movimento que reorganiza imediatamente o tabuleiro da sucessão.

Golpe de mestre ou mais uma movimentação errática de um governador que acumulou decisões equivocadas, preferiu viajar ao exterior em meio ao momento mais delicado de definição política e perdeu parte do comando sobre o próprio terreno? Pode haver uma explicação, ainda que a viabilidade eleitoral seja outra discussão.

A desistência da disputa nacional também abriu espaço para diferentes leituras sobre o que pesou na decisão. Entre as hipóteses mais comentadas estão o desgaste provocado por declarações recentes, como a fala contra o fim da escala 6×1 e a defesa de jornadas de até 60 horas semanais; a repercussão em torno do Tayayá Resort, empreendimento ligado à família Massa após licença ambiental concedida pelo governo estadual em área de preservação; a circulação de questionamentos envolvendo o empresário Nelson Tanure, comprador da antiga Copel Telecom e depois associado ao Banco Master; além do aumento de ataques de bolsonaristas nas redes sociais, inclusive com exploração de aspectos da vida pessoal da família.

Também pesa o avanço de Sergio Moro no cenário estadual. Ratinho sabe que hoje Moro lidera, nas pesquisas, o campo conservador. Permanecer no governo também pode significar manter instrumentos políticos para enfrentar ou até implodir por dentro uma candidatura do senador.

Ratinho precisa do apoio de Alexandre Curi, que se coloca como pré-candidato, apesar da preferência tácita e explícita do governador por Guto Silva, hoje secretário das Cidades.

Curi mantém influência consolidada no interior e relações políticas espalhadas pelo estado. A saída de Rafael Greca do PSD para o MDB, na semana passada, não foi mero acaso. Greca é próximo de Curi e sua movimentação foi lida como mais um sinal das fissuras dentro da base governista.

Hoje, o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná pontua melhor nas pesquisas do que o nome preferido de Ratinho. Tem mais relações, mais capilaridade e, sobretudo, base política. Mas por que, então, a relutância do governador?

Porque Ratinho Jr. demonstra não querer desapegar do governo, mesmo depois de deixar o cargo. Tentou a todo custo emplacar Guto Silva, mas o secretário não decolou e segue na lanterna entre os governistas nos levantamentos.

Guto seria um nome politicamente dependente. Só chegaria competitivo como “o candidato do Ratinho Jr.”, o que garantiria ao atual governador margem de influência direta sobre um eventual futuro governo.

Já Curi tem tamanho próprio, musculatura política e capacidade de impor autonomia. Ratinho sabe que precisa dele, mas resiste a vê-lo como cabeça de chapa.

É nesse ponto que Eduardo Pimentel passa a fazer sentido na lógica de Ratinho Jr. Prefeito de Curitiba, ele surge como alternativa capaz de dialogar com Curi sem entregar o comando político. Curi e Pimentel mantêm fortes vínculos políticos e familiares, e no Palácio Iguaçu a leitura é de que um eventual apoio de Curi a Pimentel encontraria menos resistência do que hoje ocorre em relação a Guto Silva.

Apesar disso, os esforços de Ratinho seguem concentrados em sustentar seu secretário. Em entrevista nesta terça-feira (24), o líder do governo, Hussein Bakri, afirmou que a decisão do governador levará em conta pesquisas qualitativas.

Não é um detalhe menor. No critério quantitativo, Curi lidera entre os nomes do PSD. Já numa qualitativa, em um ambiente de descrédito nas instituições, é possível direcionar a leitura para um eleitor que diga preferir um nome novo, sem tradição política ou com perfil mais gerencial — imagem que Guto tenta construir.

Quem encomenda a pesquisa também escolhe a forma de perguntar, o foco da leitura e o tipo de resposta que deseja destacar.

No fundo, o governador parece preso a um impasse: faz esforço para manter vivo um candidato de baixa tração enquanto evita fortalecer aquele que teria mais condições de enfrentar Moro num eventual segundo turno.

No entanto, não seria fácil convencer o eleitor a aceitar uma renúncia precoce de Pimentel, e nem se sabe se esse aceitaria trocar uma prefeitura que assumiu há pouco mais de um ano, por uma aventura imprevisível, queimando pontes e com o risco de comprometer seu futuro político.

Nesse cenário, Greca permanece como peça valiosa no tabuleiro. É hoje o nome governista mais lembrado nas pesquisas e, justamente por isso, segue como opção natural para compor uma vice — seja numa eventual chapa com Eduardo Pimentel, seja com Alexandre Curi, ou até mesmo remanejado à disputa ao Senado.

Enquanto Ratinho Junior hesita, Requião Filho aproveita o espaço e marca posição. Na Assembleia, nesta terça-feira (24), foi afiado ao comentar o almoço de Ratinho Jr. com a base aliada, realizado horas antes da desistência presidencial. Disse que, se estivesse presente — algo que, segundo ele, não ocorre há anos por ser oposição — levaria condolências pelo sepultamento de uma candidatura natimorta: a de Ratinho à Presidência. Perguntado sobre quem seria o sucessor de Ratinho Jr., respondeu de forma direta: ele próprio, demonstrando confiança em sua força eleitoral. Reformulada a pergunta para o campo governista, afirmou que talvez nenhum dos nomes hoje colocados na imprensa.

A demora do grupo governista em convergir em torno de um nome competitivo vai tornando mais visível o contraste entre um campo ainda consumido por disputas internas e adversários que ocupam espaço no debate público.

Em resumo, as movimentações mais recentes — sobretudo o surgimento repentino do nome de Eduardo Pimentel — revelam uma lógica simples: Ratinho sabe que precisa de Alexandre Curi, mas demonstra não querer Curi como candidato ao governo. Pimentel surge como alternativa para Ratinho Jr., ao passo que poderia apaziguar a movimentação de Curi. Ao mesmo tempo, uma eventual saída de Pimentel para a disputa estadual abriria espaço para a posse de Paulo Martins na prefeitura de Curitiba, movimento que também poderia produzir ruído dentro do campo conservador, já que, embora hoje esteja no Novo, Martins mantém forte influência no PL — legenda à qual Sergio Moro acaba de se filiar.

O Paraná voltou a render enredos imprevisíveis na política, como era normal em anos eleitorais, mas não se via desde 2018, quando Osmar Dias desistiu na última hora da candidatura ao governo — reduzindo os obstáculos para a eleição de Ratinho Jr.

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