Olhar de Cinema: entre ficção radioativa e realidades de opressão

Uma cientista tenta evitar um desastre nuclear no sertão paraibano. Em Minas Gerais, moradores convivem com o esvaziamento lento de uma comunidade cercada pela mineração. Entre imagens de arquivo e um obscuro disco produzido para celebrar a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), um documentário revisita sonhos de emancipação política engolidos pela geopolítica do petróleo.

Do filme de abertura, Yellow Cake, aos documentários A Noite e os Dias de Miguel Burnier e An Incomplete Calendar, a programação da 15ª edição do Olhar de Cinema encontra um ponto de contato: a maneira como diferentes formas de poder moldam territórios, comunidades e destinos individuais.

Se Yellow Cake pareceu distante para parte do público, é difícil permanecer indiferente diante de A Noite e os Dias de Miguel Burnier, exibido nesta segunda-feira (8) dentro da Mostra Competitiva Brasileira.

Dirigido por João Dumans, parceiro de Affonso Uchoa no premiado Arábia, o documentário guarda afinidades com o longa de 2017. Ambos observam personagens empurrados para as margens e marcados por formas distintas de exclusão.

Mas há uma diferença importante. Em Arábia, a opressão surge pelo trabalho (veja o que o Réverbero já escreveu sobre o longa). Cristiano carrega o peso da exploração, da precariedade e de uma rotina que consome corpo e espírito. Em Miguel Burnier, o vazio vem justamente da ausência dele.

O distrito minerário que dá nome ao filme convive com uma contradição brutal. Cercado por uma atividade econômica bilionária, vê seus moradores afundarem no desemprego, na falta de perspectivas e numa sensação permanente de abandono.

Dumans passou quatro anos filmando a comunidade. O resultado evita entrevistas formais e discursos institucionalizados. Em vez disso, acompanha o cotidiano de quatro moradores, observando conversas, silêncios, encontros e pequenas rotinas.

Dumans durante debate após a exibição do filme

A escolha funciona. O sofrimento, o alcoolismo e o descaso aparecem. Mas o filme não transforma seus personagens em ilustrações de uma tese. Há inteligência, sensibilidade, humor, afeto e consciência sobre a própria condição.

Durante debate após a sessão, Dumans contou que o projeto nasceu como uma resposta à situação vivida pela comunidade. Com o passar dos anos, porém, a denúncia acabou dividindo espaço com outra coisa: um filme sobre amizade e sobre a vida.

Talvez seja justamente isso que torne Miguel Burnier tão contundente. O filme não esconde a violência da situação retratada, mas tampouco permite que ela seja a única dimensão de seus personagens.

Petróleo e desencanto

Também marcada pela desilusão, embora por caminhos muito diferentes, é a experiência proposta por An Incomplete Calendar, exibido na mesma noite dentro da Mostra Competitiva Internacional.

O ponto de partida é curioso: um disco lançado em 1980 pelo coral da Universidade Central da Venezuela para celebrar os vinte anos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A partir dele, a diretora constrói uma reflexão sobre petróleo, colonialismo, solidariedade internacional e os projetos políticos que surgiram em torno da organização.

O filme revisita um momento em que parte do chamado Sul Global enxergava na Opep uma ferramenta de enfrentamento às potências ocidentais e uma possibilidade concreta de transformação social.

O futuro prometido, porém, nunca chegou exatamente como imaginado.

Entre arquivos raros, músicas e documentos históricos, o documentário mostra como aqueles projetos foram sendo absorvidos pelas disputas geopolíticas do próprio sistema que pretendiam desafiar. Em determinado momento, a ironia se torna inevitável: dois países fundadores da organização, Irã e Iraque, acabariam envolvidos numa guerra devastadora, em um contexto no qual a influência dos Estados Unidos é impossível de ignorar.

Yellow Cake

Sobre Yellow Cake, se ainda é tempo.

Há bons ingredientes no filme escolhido para abrir a 15ª edição do Olhar de Cinema. A começar pela premissa ousada. A ambientação talvez seja sua maior qualidade. É um filme muito bem fotografado, editado e produzido, que demonstra domínio técnico em praticamente todos os seus aspectos.

As atuações também funcionam. Rejane Faria sustenta a protagonista com segurança, enquanto os personagens locais dão alma ao filme. E há Tânia Maria, a senhora mais amada do Brasil.

Mas esse caldo todo, na narrativa, não engrossa.

Embora seja frequentemente fascinante de observar, Yellow Cake encontra dificuldades para transformar suas ideias em uma experiência envolvente. É um filme que desperta curiosidade, mas raramente alcança a força emocional que sua história parece prometer.

O potencial está ali. A proposta também. O problema parece estar menos naquilo que o filme quer dizer e mais na forma como escolhe contar sua história.

As comparações com Bacurau são inevitáveis. Kleber Mendonça Filho está entre os produtores do longa, e os dois filmes compartilham algumas inquietações semelhantes: interesses estrangeiros avançando sobre territórios brasileiros, comunidades submetidas a forças externas e uma leitura crítica das formas contemporâneas de exploração.

A diferença é que, enquanto Bacurau conduz o espectador com firmeza até seu conflito principal, Yellow Cake prefere o mistério e a fragmentação.

Ao longo de pouco mais de duas horas, Tiago Melo mistura ficção científica, sátira política, fantasia, terror e delírio. Em alguns momentos, produz imagens marcantes e sequências de grande inventividade. Em outros, a sensação é de que a experiência sensorial fala mais alto do que a construção dramática.

Yellow Cake pouco explica e parece não se importar com isso. É uma escolha. Mas ao manter o espectador às cegas em boa parte do percurso, exige bastante dele. E nem sempre oferece elementos suficientes para recompensar esse esforço.

Ainda assim, há mérito na ousadia. Em tempos de obras cada vez mais previsíveis, o filme se permite correr riscos.

Valeu também pela experiência na Ópera de Arame que, embora não radioativa, continua oferecendo seus próprios desafios — especialmente o frio curitibano — sem perder o charme.

O Olhar de Cinema segue até 13 de junho, ocupando salas e espaços culturais de Curitiba com mais de 80 produções nacionais e internacionais. Até aqui, a realidade tem se mostrado mais dura — e também mais poderosa — do que a ficção.

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