A Copa de Trump

Dia desses, num boteco tradicional de Curitiba, decorado com fotos de Garrincha e outros ídolos do futebol, o proprietário me mostrou seu desencanto com a Copa do Mundo. Pela primeira vez, não fará uma programação especial para a competição. Os jogos serão transmitidos normalmente, mas sem telão, bandeiras, decoração temática ou qualquer dos adereços que costumam transformar o torneio em uma celebração coletiva.

“Não tem clima”, resumiu.

A indignação dele passa pelas barbaridades protagonizadas pelo governo Trump e por episódios como o impedimento do árbitro somali Omar Artan de atuar na competição após ter sua entrada negada nos Estados Unidos. Mas não apenas. O desencanto também se estende à própria Seleção Brasileira, que para muitos já não representa o povo como em outros tempos.

A imagem transmitida é a de um grupo fechado em si mesmo, cada vez mais distante da torcida. Uma panela que enxerga com desconfiança qualquer talento capaz de alterar a hierarquia estabelecida. O caso de Endrick é emblemático. Primeiro veio a declaração de Casimiro de que o atacante “não faz parte do grupo”. Depois, o episódio do carrinho duro e desleal aplicado pelo capitão da equipe durante um treino, reforçando a sensação de que o jovem atacante é tratado como um corpo estranho dentro do grupo.

A mídia tenta, mais uma vez, agendar a competição no cotidiano da população, vendendo o torneio como um momento único, mágico e inigualável. Mas a competição mal começou e sobram motivos para o desconforto.

O sentimento do proprietário do bar parece refletir algo mais amplo.

Num cenário desses, talvez o próprio esporte salve a Copa. Quem sabe surjam zebras, campanhas improváveis e seleções desacreditadas chegando longe. Quem sabe o Irã. Quem sabe outras nações frequentemente pressionadas, sancionadas ou submetidas aos interesses das grandes potências. Quem sabe o próprio Brasil. Quando a bola rolar, pode ser que a paixão fale mais alto e que parte dessas contradições fique em segundo plano.

Ainda assim, seria uma vitória de Pirro.

Contradições

A Copa do Mundo de 2026 já reúne elementos para figurar entre as edições mais contraditórias da história do futebol. O que deveria representar a união dos povos por meio do esporte acabou se transformando num retrato das tensões políticas do nosso tempo, das barreiras migratórias, dos interesses econômicos e da transformação gradual da Copa em um produto moldado muito mais pelas exigências do mercado do que pela tradição esportiva.

O primeiro sinal de alerta veio antes mesmo da bola rolar.

O árbitro somali Omar Artan, escolhido pela própria FIFA para integrar o quadro oficial da competição, teve sua entrada negada nos Estados Unidos e acabou excluído do torneio. A cena é difícil de acreditar. Um profissional selecionado por mérito técnico, considerado um dos melhores árbitros da África e o primeiro somali escalado para uma Copa do Mundo, impedido de participar por uma decisão migratória do principal país-sede.

A reação da FIFA foi constrangedora. Gianni Infantino limitou-se a lamentar o episódio e afirmar que a entidade não controla as políticas migratórias dos governos. É verdade. Mas a FIFA controla quem recebe a Copa do Mundo. E escolheu entregar sua principal competição a um país cujas políticas migratórias são capazes de barrar até mesmo participantes oficialmente credenciados pelo torneio.

O caso Artan não é isolado. Há meses multiplicam-se dúvidas sobre vistos para jornalistas, torcedores, dirigentes e integrantes de delegações. Em algumas situações, a presença de pessoas ligadas à competição passou a depender de negociações políticas paralelas ao próprio futebol. Quando uma Copa do Mundo precisa discutir quem terá autorização para atravessar uma fronteira, alguma coisa está profundamente errada.

O constrangimento chegou a tal ponto que o próprio Gianni Infantino foi questionado por jornalistas se havia perdido o controle da Copa do Mundo. A pergunta surgiu após a repercussão internacional do caso Omar Artan e das crescentes incertezas envolvendo vistos e circulação de participantes. A resposta foi reveladora. Infantino afirmou que a FIFA tenta encontrar soluções, mas reconheceu que não controla governos, autoridades migratórias ou forças de segurança. Talvez sem perceber, acabou admitindo publicamente que aspectos fundamentais para a realização do torneio escapam ao controle da própria entidade que organiza a competição.

A pergunta continua no ar. Se a FIFA não consegue garantir a entrada de árbitros credenciados, nem assegurar a circulação de participantes oficialmente vinculados ao evento, quem realmente está comandando a Copa?

Tudo isso ocorre sob a presidência de Donald Trump. O mesmo Trump que construiu parte de sua carreira política defendendo muros na fronteira mexicana, endurecimento migratório, deportações em massa e uma visão nacionalista das relações internacionais. A ironia é evidente: o maior torneio do planeta será disputado majoritariamente em um país governado por alguém que transformou a restrição à circulação de pessoas em uma de suas principais bandeiras políticas.

Não deixa de ser simbólico que uma competição criada para aproximar povos, culturas e nações esteja sendo realizada sob a tutela política de um governo que transformou muros, deportações, restrições migratórias e confrontos diplomáticos em marcas de sua atuação. A Copa de 2026 talvez seja a primeira em que o país anfitrião principal se impõe sobre o torneio de forma tão evidente.

A contradição se torna ainda maior quando observamos a composição da própria sede.

Estados Unidos, México e Canadá venderam ao mundo a ideia de uma Copa da integração continental. Hoje, o discurso parece peça de ficção. Os Estados Unidos convivem com atritos frequentes com seus parceiros, endurecem políticas fronteiriças e são governados por uma administração que trata imigração e soberania nacional em tom de confronto. O torneio da união acontece justamente num momento em que ao México se acenam muros e deportações, enquanto o Canadá se vê obrigado a ouvir ameaças de anexação por parte de setores da política americana.

Dois pesos

Existe ainda uma incoerência difícil de ignorar.

A FIFA excluiu a Rússia das competições internacionais em razão da invasão da Ucrânia. A decisão foi apresentada como uma defesa de princípios e do respeito à ordem internacional. Diretrizes que parecem possuir aplicação seletiva.

Os Estados Unidos não apenas permanecem plenamente integrados ao sistema esportivo internacional como são os anfitriões centrais da Copa. Trata-se da mesma potência que neste ano realizou operações militares contra alvos iranianos, capturou Nicolás Maduro em território venezuelano após uma intervenção armada amplamente questionada por juristas e organismos internacionais, apoia militarmente a ofensiva israelense em Gaza, mantém há mais de seis décadas um embargo econômico contra Cuba e segue impondo sanções, bloqueios e pressões econômicas a países espalhados pelo planeta.

No caso cubano, as restrições vêm sendo aprofundadas. A dificuldade para aquisição de combustível e as barreiras comerciais impostas ao país produzem efeitos que recaem diretamente sobre a população, afetando desde o fornecimento de energia até o funcionamento de serviços básicos.

É impossível ignorar a pergunta: se a geopolítica passou a ser critério para definir quem pode ou não participar do futebol internacional, por que alguns países são tratados como párias enquanto outros seguem intocáveis?

A impressão transmitida é a de que existem regras para as potências rivais do Ocidente e outras para as potências que comandam a ordem global.

Enquanto isso, o futebol vai sendo empurrado para o segundo plano.

A expansão para 48 seleções e 104 partidas segue a mesma lógica. A FIFA vende a mudança como democratização do esporte. Na prática, ela amplia receitas, contratos, patrocínios e audiência. A Copa sempre foi especial porque era rara, exclusiva e difícil. Classificar-se era uma conquista extraordinária. Agora, a competição se aproxima cada vez mais de um megaevento permanente.

Mercado acima da tradição

Como se isso não bastasse, esta será a segunda Copa realizada nos Estados Unidos em pouco mais de três décadas. O país já havia sediado o torneio em 1994.

Uma nação sem tradição histórica relevante no futebol recebendo novamente o maior evento do esporte enquanto países profundamente ligados ao jogo seguem esperando.

A Inglaterra não recebe uma Copa desde 1966. São seis décadas de espera. Sessenta anos sem que a terra que ajudou a criar o futebol possa sediar novamente sua principal competição.

Outras nações com cultura futebolística muito mais intensa também permanecem fora da rota da FIFA, enquanto o Mundial retorna a um país onde o futebol continua disputando espaço com futebol americano, beisebol, basquete e hóquei. O Canadá tampouco ajuda a dissipar essa sensação. É um país respeitado em inúmeros aspectos, mas cuja relevância histórica no futebol mundial é praticamente inexistente. Sua presença na candidatura responde muito mais a critérios geográficos e comerciais do que à tradição esportiva.

A mensagem é difícil de não perceber: tradição vale menos do que mercado consumidor.

E é justamente por isso que o México surge como a grande oportunidade desperdiçada.

O país possui uma das torcidas mais apaixonadas do mundo, estádios históricos, identidade futebolística, experiência organizacional e uma cultura popular profundamente ligada ao esporte. O Estádio Azteca ocupa um lugar quase sagrado na memória coletiva do futebol mundial.

Uma Copa integralmente mexicana talvez não produzisse os mesmos contratos bilionários, nem os mesmos números para patrocinadores, plataformas digitais e conglomerados de mídia. Em compensação, teria algo que esta edição parece perder a cada nova polêmica: identidade.

A FIFA certamente baterá recordes de audiência, faturamento e exposição global. Os patrocinadores ficarão satisfeitos. As plataformas digitais registrarão números históricos. Os contratos de televisão renderão cifras inéditas. Sob a ótica comercial, dificilmente haverá o que lamentar.

A edição de 2026 já está marcada por barreiras migratórias, vistos negados, conflitos internacionais, interesses comerciais e acordos políticos. A escolha da sede, a expansão do torneio e a condução da FIFA reforçam a impressão de que o futebol deixou de ser a razão principal do espetáculo para se tornar apenas uma parte dele.

Talvez surjam grandes jogos e apareçam personagens capazes de fazer o mundo esquecer, ainda que por noventa minutos, todas essas contradições. O futebol tem essa capacidade.

Mas, independentemente do que acontecer dentro de campo, esta Copa já chega marcada por uma pergunta incômoda: quando o maior torneio do planeta passa a servir prioritariamente aos interesses do mercado e das grandes potências, o que resta daquilo que o tornou especial?

Talvez seja justamente essa sensação que levou o dono daquele velho boteco curitibano a desistir dos telões, das bandeiras e da festa.

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