Povos unidos na Jornada da Natureza para reflorestar a Mata Atlântica no Paraná
Com semeadura aérea e tecnologia ancestral, a Jornada da Natureza une poder público, quilombolas, indígenas e MST para restaurar a floresta, garantir comida e construir o futuro.
A comunidade quilombola João Surá, em Adrianópolis (PR), recebeu no último sábado (6) o encerramento da 4ª Jornada da Natureza. A semana começou na Terra Indígena Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, e terminou no Vale do Ribeira com a semeadura aérea de duas toneladas de sementes da palmeira juçara, somando-se às 30 toneladas distribuídas por todo o Paraná. Pela primeira vez, os quilombos do Vale se juntaram a indígenas e comunidades da reforma agrária numa ação que enfrenta a degradação ambiental que deixa cidades cada vez mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos e eventos climáticos extremos.
Ralph de Medeiros Albuquerque, superintendente do Ibama no Paraná, afirma que a Jornada da Natureza é o maior programa de recuperação da Mata Atlântica no estado. “A escala é diferente da Amazônia ou do Cerrado, que são biomas de dimensões gigantescas. Justamente por isso a ação é tão significativa: recuperar um bioma tão degradado exige esforço concentrado e articulado”, avalia. De acordo com ele, todas as atividades realizadas durante a jornada ensinam mais do que o plantio e a recuperação, fomentando a conscientização. “É mais que uma aula para recuperação das áreas, é a libertação desses territórios.” Para Ralph, o diferencial está na integração de políticas públicas que vão da produção de sementes à compra pela Conab e pelo Incra, gerando renda para as famílias.
O superintendente do Ibama também destacou a importância do monitoramento científico para a espécie. “A juçara é uma espécie ameaçada. Precisamos avançar com políticas de monitoramento. A ciência já comprova que a semeadura é uma das melhores estratégias para preservação.” Ele explicou que o Ibama faz a divisão de parcelas e o monitoramento amostral para verificar como as sementes estão se desenvolvendo e germinando em cada local. “Em Quedas do Iguaçu, os índices são muito positivos, acima da média. Temos uma recuperação efetiva. A gente precisa de comprovação científica para avançar com essas ações.” O assentamento José Lutzenberger, em Antonina, onde quase duas toneladas foram semeadas, é um exemplo monitorado que revela sucesso.
Já o comandante da Polícia Rodoviária Federal, Marcos Takeo, formado em engenharia florestal, conduziu o helicóptero que sobrevoou os territórios para reconhecimento e semeadura. Ele citou um ganho ambiental amplo, relacionado ao reflorestamento das juçaras: “À medida que a palmeira juçara se restabelece, a fauna também retorna. Aves e roedores encontram alimento e repovoam a área. Não se trata apenas de plantar árvores, mas de reconstituir uma teia de vida”. Takeo, cujo trabalho habitual é o resgate aeromédico de vítimas em rodovias, levou ao céu pessoas que nunca haviam voado durante a Jornada. A emoção delas, diz, foi uma experiência inesquecível.
Reflorestamento é comunidade unida e comida na mesa
A diretora do Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos, Cassiane Aparecida de Matos, fez uma viagem transformadora ao sobrevoar o território. Lá de cima, viu o terreno onde sua família trabalhava na roça, o centro comunitário e o cemitério dos ancestrais. Seu pedido para o futuro é direto: “quero as nossas famílias voltando a ocupar o nosso território. Hoje, a comunidade está cercada por pinus e eucaliptos, espécies plantadas pela indústria madeireira”. O que está faltando, diz Cassiane, são árvores nativas como o palmito juçara, que sempre foi o sustento das casas e das famílias.
O quilombola João Martins de Andrade Pereira tem 63 anos e nasceu na comunidade João Surá. Conta que a palmeira juçara foi não só sustento da casa, mas a própria casa em que vivia foi construída com a madeira dessa palmeira, em um tempo anterior à exploração predatória. “Quando eu tinha 15 anos, ninguém extraía palmito para venda, mas para uso do próprio bem estar. A madeira servia para fazer casas e cercas, sem uso de prego. Esse conhecimento, as crianças de hoje já nem têm”. Sua fala revela uma ruptura silenciosa: o avanço da exploração comercial apagou práticas que mantinham a floresta em pé e a comunidade alimentada. A Jornada da Natureza tenta reconstituir esse fio, devolvendo à palmeira seu lugar de centralidade na vida quilombola.
Antônio Carlos de Andrade, filho de dona Joana, uma das lideranças mais antigas da comunidade, carrega essa herança. Dona Joana viveu 87 anos, ensinou remédios de ervas, alimentou quem chegava, convocava reuniões e motivava as famílias a buscar políticas públicas. Viu a luz elétrica chegar, viu o progresso, mas também viu a degradação. Antônio, que perdeu a mãe recentemente, diz que o exemplo dela é o testemunho de que o cuidado com o outro e com a terra são a mesma coisa. A cozinha que leva o nome de dona Joana na Jornada não é apenas uma homenagem: é a afirmação de que alimentar é um ato político e ancestral.
Tecnologia a serviço das comunidades: o AçaíBot
Enquanto o agronegócio transformou extensões de terra em produção de commodities, a Jornada aposta em outro caminho. Na comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, foi lançado o AçaíBot, um robô desenvolvido para facilitar a colheita da palmeira juçara. A tecnologia é 100% brasileira: criada em Belém do Pará para o açaí da Amazônia, foi adaptada no último ano para a juçara, o açaí da Mata Atlântica. A máquina, feita de plástico injetável e fibra de carbono, é a aposta contrária ao modelo que expulsou famílias do campo.
Como diz José Damasceno, camponês e integrante do MST, a tecnologia que tomou a terra transformou grandes áreas em produção de commodities, não de alimentos. “O AçaíBot, ao contrário, busca fixar o agricultor na terra, aumentar a produção de comida saudável e preservar o ambiente. O objetivo agora é democratizar o acesso a essa ferramenta nos assentamentos, fortalecendo a diversificação da agricultura. É a modernização caminhando lado a lado com a reforma agrária e a conservação ambiental”.
A união como resposta à crise
A professora indígena Elizandra Fygsanh Freitas, integrante da coordenação das Terras Indígenas, comemora a união dos povos da terra como uma das únicas formas de combater a crise climática. “Estamos vivenciando uma crise climática no mundo e fechar os olhos não é mais uma opção. Semear é um ato que precisa atravessar gerações”. E a fala da professora encontra eco no que disse Ivete Lopes de Mello, integrante da coordenação da comunidade Dom Tomás Balduíno, ao agradecer a solidariedade recebida após os tornados que atingiram a região. “A situação climática de hoje tem tudo a ver com o futuro de todos, principalmente das crianças”.
O coordenador nacional do MST, Tarcísio Leopoldo, que atua na comunidade Dom Tomás Balduíno, informou que foram 30 toneladas de sementes e mais de 10 mil mudas plantadas em todo o Paraná. Mas, o dado quantitativo, para ele, é menos importante do que o simbólico. “Territórios do campo, das águas e da floresta, tanto tempo invisibilizados pela sociedade, agora se organizam juntos. Cada comunidade com sua cultura, sua forma de organização, mas a luta é uma causa só: manter a floresta em pé e defender os territórios”.
Há ainda uma camada mais profunda nessa história. A região de Rio Bonito do Iguaçu abriga um dos maiores complexos de reforma agrária do Paraná. O que era latifúndio de pinus e eucalipto da antiga madeireira Araupel hoje abriga 5.500 famílias camponesas. E neste ano, o governo federal formalizou o assentamento de 33 mil hectares que pertenciam à empresa, encerrando mais de uma década de espera para 2 mil famílias acampadas. O representante do Incra, Nilton Bezerra Guedes, projeta que na quinta Jornada essas famílias já estejam estruturadas em seus lotes, produzindo alimentos e preservando o ambiente, em um modelo que pode se tornar referência nacional.
A vice-reitora da Universidade Federal do Paraná, Camila Fachin, resume o sentido mais amplo da experiência. O MST tem ensinado a força da organização e da agroecologia como motor da produção de alimentos sem agrotóxicos. E o reflorestamento ensina uma economia que não agride o ambiente. Ela aponta para o que há de mais original na Jornada: não separa a luta por terra da luta por floresta em pé, nem a produção de comida da regeneração ambiental. Cada semente de juçara carrega essa múltipla promessa. Em meio a cidades devastadas por eventos climáticos extremos, a Jornada da Natureza mostra que é possível agir. Não com discursos, mas com sementes, tecnologia, memória e união.
Parcerias e continuidade: a Jornada que não termina
A semeadura aérea é um dos principais trabalhos realizados pela Jornada da Natureza. Em parceria com a Polícia Rodoviária Federal do Paraná, a ação garante a chegada das sementes a áreas mais remotas e promove o reflorestamento massivo de regiões degradadas. A dimensão coletiva se revela também na extensa rede de instituições que a viabilizam. Realizada pelo Movimento Sem Terra por meio da Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (Acap), a ação reúne desde associações de produtores orgânicos e cooperativas de crédito rural até universidades como a Federal da Fronteira Sul (UFFS) e a UFPR Litoral. Órgãos públicos, como Conab, Incra, Ibama e Instituto Água e Terra, além da Embrapa e prefeituras municipais, integram essa aliança. Este ano, a Jornada contou ainda com o patrocínio da CAIXA e do Governo do Brasil.