Pelé se aposentou da Seleção por descontentamento com a ditadura militar, revelou anos depois

Pelé. Foto Paulo Pinto/Fotos Publicas

Quando recusou oficialmente o convite para disputar a Copa do Mundo de 1974, Pelé afirmou que não poderia voltar atrás na decisão de encerrar seu ciclo na Seleção Brasileira. Em carta enviada à Confederação Brasileira de Desportos (CBD), o Rei do Futebol disse que seria uma forma de “iludir” o povo brasileiro, que havia lotado o Maracanã para sua despedida em 1971, e defendeu a renovação da equipe.

Na época, esse foi o motivo oficial para sua recusa.

Décadas depois, porém, Pelé revelou que havia uma razão muito mais profunda por trás da decisão.

Em entrevistas concedidas no fim da década de 1990, o tricampeão mundial afirmou que também decidiu não voltar à Seleção por discordar da utilização política da equipe durante a ditadura militar. Segundo ele, não queria servir como instrumento de propaganda do regime.

A declaração contrasta com a imagem construída ao longo dos anos de que sua aposentadoria da Seleção teria sido apenas uma decisão esportiva.

Em fevereiro de 1974, a CBD chegou a fazer um apelo formal para que Pelé disputasse a Copa do Mundo da Alemanha Ocidental. A resposta veio em uma carta pública.

“Está na hora de unirmos esforços para que surjam outros”, escreveu o camisa 10, acrescentando que sua decisão de 1971 era “irrevogável” e que não poderia decepcionar os brasileiros que prestigiaram sua despedida.

Embora o texto não faça qualquer referência ao contexto político, Pelé afirmou posteriormente que esse não era o único motivo.

Segundo o ex-jogador, havia forte pressão para que voltasse à Seleção, justamente pelo enorme peso simbólico que sua presença teria em um país governado pelos militares. Ele preferiu manter sua decisão e encerrar definitivamente sua trajetória com a camisa amarela.

A versão foi reforçada anos depois pelo técnico Zagallo, que declarou que o desconforto de Pelé com a situação política brasileira fazia parte das razões para sua recusa.

A ausência do maior jogador da história foi sentida em campo. Sem Pelé, o Brasil fez uma campanha discreta na Copa de 1974, terminando na quarta colocação após derrotas para Holanda e Polônia na fase final do torneio.

A revelação feita pelo próprio Pelé ajudou a reescrever um dos episódios mais marcantes da história da Seleção: sua despedida não foi apenas o encerramento de uma carreira internacional vitoriosa, mas também uma decisão influenciada pelo contexto político vivido pelo Brasil durante a ditadura militar.

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