A história na capital paranaense do técnico que montou a base da Seleção do tri e voltou a ser lembrado com Brasil 70: A Saga do Tri
João Saldanha voltou a ser lembrado por uma nova geração desde a estreia de Brasil 70: A Saga do Tri. Na série da Netflix, lançada em maio, ele é interpretado por Rodrigo Santoro e aparece já no primeiro episódio tentando convencer Pelé a voltar à Seleção depois da traumática Copa de 1966. A sinopse oficial confirma o episódio: Pelé resiste a retornar, enquanto Saldanha tenta fazê-lo mudar de ideia.
A passagem de Saldanha pela Seleção durou pouco mais de um ano, mas deixou boa parte da estrutura da equipe que conquistaria o tricampeonato mundial no México. Comunista declarado em plena ditadura militar, ele classificou o Brasil com uma campanha perfeita nas Eliminatórias e foi demitido 78 dias antes da Copa, depois de uma sequência de conflitos dentro e fora do futebol.
Muito antes disso, sua história com a bola começou em Curitiba.
Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1917, Saldanha chegou à capital paranaense aos sete anos, em 1924. Sua família era ligada aos maragatos e havia deixado o Rio Grande do Sul durante a Revolução de 1923. Depois de uma passagem pelo Uruguai, instalou-se em Curitiba, onde permaneceria por cerca de quatro anos.
Foi uma coincidência decisiva. Saldanha chegou à cidade no mesmo ano em que nascia o Club Athletico Paranaense, criado em 26 de março de 1924 a partir da fusão entre Internacional e América.
A família morava na Rua Iguaçu, no Água Verde. Segundo o jornalista André Iki Siqueira, autor da biografia João Saldanha: uma vida em jogo, os fundos da casa ficavam próximos à área do Athletico. O menino que até então era fascinado por cavalos começou a frequentar a Baixada e acompanhar o futebol.
Saldanha estudava no Colégio Estadual Conselheiro Zacarias — onde foi contemporâneo de outro futuro personagem da política brasileira, Jânio Quadros — e passou a aparecer cada vez mais no campo do clube recém-criado.
Um Filhote do Athletico
Ele não ficou apenas na arquibancada.
Saldanha contou posteriormente que foi assistir aos treinos e acabou escalado nos chamados “Filhotes do Athletico”, grupo de garotos ligado ao clube. Uma lembrança daquele período permaneceria com ele: com exceção do goleiro, os meninos não tinham posições fixas. Décadas depois, o ex-técnico recordaria aquela experiência ao falar sobre formação de jogadores.
Foi também ali que virou atleticano.
E não se trata apenas de uma identificação atribuída posteriormente por biógrafos. Em entrevista ao ge, em julho de 2026, o jornalista e pesquisador Sandro Moser contou que Saldanha continuou falando do Athletico durante a vida adulta e fazia questão de recordar, quando voltava a Curitiba como comentarista, que havia conhecido o futebol na cidade e que torcia pelo clube.
Em 1928, a família deixou Curitiba e voltou ao Rio Grande do Sul. Três anos depois, Saldanha seguiu para o Rio de Janeiro. Lá construiria uma relação igualmente importante com o Botafogo, clube pelo qual jogou e que comandou na conquista do Campeonato Carioca de 1957.
Curitiba, porém, não desapareceu de sua história.
De volta à cidade
Uma das voltas mais significativas aconteceu justamente em 1970.
Poucos meses depois do tricampeonato mundial — e da demissão que o impediu de comandar na Copa a Seleção que havia classificado — Saldanha estava novamente em Curitiba como comentarista.
O Santos veio à cidade para enfrentar o Athletico pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa. No elenco estavam Pelé, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo, recém-campeões mundiais no México. Antes da partida, os jogadores foram recebidos pelo então governador Paulo Pimentel em um almoço no Palácio Iguaçu.
Saldanha também estava lá.
Há inclusive registro fotográfico daquele encontro, hoje preservado no acervo da exposição O Poder do Futebol e o Futebol do Poder, do Museu da Imagem e do Som do Paraná: Saldanha aparece em pé durante a recepção em Curitiba.
Depois, foi trabalhar no jogo.
O Athletico venceu o Santos por 1 a 0. Na mesma entrevista ao ge, em julho de 2026, Moser lembrou que Saldanha pôde comemorar naquele dia a vitória do clube pelo qual torcia desde menino.
A cena ajuda a dimensionar uma relação que não terminou quando a família deixou Curitiba em 1928. Saldanha retornou outras vezes à cidade como comentarista e continuou mencionando sua ligação com o Athletico.
E o Paraná apareceria novamente em sua biografia por outra razão.
O comunista de Porecatu
Saldanha ingressou ainda jovem no Partido Comunista Brasileiro e manteve a militância política mesmo depois de se tornar uma figura conhecida do futebol e do jornalismo.
No final dos anos 1940 e início dos anos 1950, teve participação direta no conflito de Porecatu, no Norte do Paraná. Posseiros da região enfrentavam grandes proprietários, jagunços e forças policiais em uma disputa pela permanência nas terras, e o PCB passou a atuar na organização da resistência.
A participação de Saldanha não foi periférica.
Relatos históricos o identificam como assistente político do grupo ligado ao PCB que atuou em Porecatu, onde utilizava o codinome “Professor Siqueira”. Jeanete Gouvea, que o conheceu naquele período, registrou posteriormente essa atuação.
Há também registro de uma entrevista concedida pelo próprio Saldanha à Folha de Londrina, em 1985, na qual descreveu sua conversa com os posseiros e a participação do PCB na organização da resistência armada. Segundo seu relato, o partido perguntou aos trabalhadores se pretendiam permanecer nas terras e, diante da resposta positiva, defendeu que seria necessário resistir e conseguir armas.
É um capítulo pouco lembrado quando se fala do técnico da Seleção de 1970. O menino que descobriu o futebol em Curitiba voltaria ao Paraná adulto, dessa vez como quadro do Partido Comunista envolvido em um dos conflitos agrários mais importantes da história do estado.
As Feras de Saldanha
Em fevereiro de 1969, João Saldanha recebeu de João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), o convite para comandar a Seleção.
O Brasil vinha da desastrosa campanha de 1966, quando caiu ainda na primeira fase da Copa da Inglaterra. Saldanha tinha experiência como treinador no Botafogo, mas havia construído sua fama principalmente como jornalista e comentarista.
E era um comunista conhecido nacionalmente assumindo a Seleção apenas dois meses depois da edição do AI-5.
Dentro de campo, o trabalho funcionou.
Saldanha definiu rapidamente seus titulares, que ficaram conhecidos como as “Feras do Saldanha”, e classificou o Brasil para o México com 100% de aproveitamento: seis vitórias em seis partidas, 23 gols marcados e apenas dois sofridos.
Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres estavam entre os jogadores daquele time. Grande parte da estrutura da equipe que seria campeã mundial em 1970 já estava formada.
A contribuição de Saldanha para o tricampeonato está principalmente aí. Ele recebeu uma Seleção desacreditada depois de 1966, definiu uma equipe, conduziu uma campanha impecável nas Eliminatórias e deixou o Brasil classificado.
Dizer que simplesmente “montou a Seleção do tri” exige uma ressalva. Zagallo fez mudanças importantes depois que assumiu, tanto na escalação quanto na organização tática. Mas recebeu um time já formado em boa medida pelo antecessor. A própria apresentação oficial da série da Netflix descreve Zagallo assumindo depois da demissão de Saldanha e herdando a equipe formada.
Saldanha fez o Brasil chegar à Copa. Não teve a oportunidade de comandá-lo nela.
A ditadura e a demissão
A demissão de João Saldanha, em março de 1970, reuniu problemas esportivos, conflitos pessoais e uma pressão política que hoje está documentada nos arquivos da própria ditadura.
Saldanha acumulava atritos com Havelange. Havia enfrentado resultados ruins em amistosos, entrado em conflito público com Yustrich, então técnico do Flamengo, e também protagonizado divergências envolvendo Pelé.
Mas havia outro problema para a CBD: o treinador da Seleção era um comunista conhecido, em pleno governo Emílio Garrastazu Médici.
Documentos hoje disponíveis no Arquivo Nacional mostram que os órgãos de repressão monitoravam Saldanha. Relatórios do Serviço Nacional de Informações registravam suas declarações e atividades, e documentos secretos acompanhavam seus movimentos. O próprio projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional, considera o conflito com Médici um ponto central para compreender sua demissão.
O episódio mais conhecido envolveu Dadá Maravilha.
Médici manifestou publicamente o desejo de ver o atacante convocado para a Seleção. Saldanha não pretendia chamá-lo e reagiu à tentativa de interferência com a resposta que entraria para a história:
“Eu não escalo o ministério e o presidente não escala o meu time.”
A formulação aparece em diferentes versões ao longo das décadas, mas o episódio e o sentido da resposta são documentados. O Arquivo Nacional, inclusive, cataloga uma fotografia histórica de Saldanha identificando-o como o técnico demitido antes da Copa por não aceitar a interferência de Médici na escalação.
A Seleção tinha enorme valor simbólico para o regime. A possibilidade de o Brasil conquistar o tricampeonato oferecia ao governo Médici um instrumento poderoso de propaganda num período marcado por censura, perseguições, prisões, tortura e assassinatos políticos.
Nesse cenário, Saldanha era uma figura particularmente incômoda. Não escondia sua militância comunista, era monitorado pelos órgãos de segurança e resistia às interferências externas no time.
Sua demissão não precisa ser reduzida a uma única causa para que o componente político seja reconhecido. Os conflitos com a CBD, os problemas internos e os resultados recentes existiam. A pressão da ditadura também existia — e está registrada nos arquivos do período.
Em março de 1970, Saldanha caiu. Faltavam 78 dias para o início da Copa.
Zagallo assumiu, fez mudanças e conduziu o Brasil no México.
Em 21 de junho, a Seleção derrotou a Itália por 4 a 1 no Estádio Azteca e conquistou definitivamente a Taça Jules Rimet.
João Saldanha assistiu à Copa de outro lugar: voltou ao jornalismo e foi ao México como comentarista.
Rodrigo Santoro e a volta de Saldanha
Cinquenta e seis anos depois, Brasil 70: A Saga do Tri colocou novamente essa história diante de um público amplo.
A minissérie estreou em 29 de maio de 2026 e tem Rodrigo Santoro como Saldanha, Lucas Agrícola como Pelé e Bruno Mazzeo como Zagallo. A própria Netflix situa a troca de treinadores em meio aos conflitos do período mais duro da ditadura militar.
O primeiro episódio, “Pelé, jogai por nós”, começa antes da queda do treinador. Pelé não quer voltar a defender a Seleção depois da experiência de 1966, e Saldanha tenta convencê-lo a mudar de ideia. No episódio seguinte, ele já está fora e Zagallo assume o time que viajará ao México.
A produção é uma minissérie de ficção baseada em acontecimentos reais, portanto dramatiza diálogos e situações. Mas sua estreia ajudou a recolocar em circulação a história de um personagem que cabe com dificuldade numa única definição: jornalista, treinador, militante comunista, participante de Porecatu e responsável por parte importante da formação da Seleção de 1970.
Para Curitiba, há ainda outra história.
Antes da Seleção, do Botafogo, de Porecatu, das discussões com Havelange e Médici e das Feras do Saldanha, havia um menino de sete anos morando no Água Verde e descobrindo a bola num clube que também acabara de nascer.
Saldanha deixou Curitiba em 1928. Continuou falando do Athletico durante a vida adulta e voltou à cidade diversas vezes como comentarista.
Em 1970, poucos meses depois de deixar a Seleção que seria tricampeã, estava novamente por aqui. Foi recebido no Palácio Iguaçu ao lado de Pelé, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo e depois comentou Athletico x Santos.
O Athletico venceu por 1 a 0. E João Saldanha pôde comemorar a vitória do seu time.