Você conhece a cataia, o “uísque caiçara” brasileiro?

Conhecida como “uísque caiçara”, a cataia é uma bebida tradicional do litoral do Paraná feita a partir da infusão em cachaça das folhas da Pimenta pseudocaryophyllus, planta nativa da Mata Atlântica. Ligada há décadas às comunidades caiçaras, a bebida acaba de receber o reconhecimento da Assembleia Legislativa como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná.

O Projeto de Lei 552/2026, de autoria do deputado estadual Goura (PDT), foi aprovado em turno único pela Assembleia no dia 11 de agosto. O reconhecimento considera não apenas a bebida, mas os conhecimentos e modos de fazer associados à sua produção e sua presença na cultura das comunidades do litoral paranaense.

De chá a “uísque caiçara”

Antes de parar dentro das garrafas de cachaça, as folhas da cataia já eram utilizadas pelas comunidades tradicionais da região, inclusive no preparo de chás.

A bebida como é conhecida hoje ganhou popularidade no litoral principalmente a partir da década de 1980, quando as folhas passaram a ser colocadas em cachaça. A infusão transfere para a bebida aromas, sabores e características da planta e também altera sua coloração. Foi assim que ela ganhou o apelido de “uísque caiçara”.

A tradição está especialmente associada a Guaraqueçaba, às ilhas da Baía de Paranaguá e à Barra do Ararapira, comunidade no extremo norte do litoral paranaense apontada como um dos principais berços da bebida.

Na Barra do Ararapira, a história da cataia preparada com cachaça é associada ao pescador aposentado Rubens Jorge Muniz. Segundo relato publicado pela imprensa, há cerca de quatro décadas ele encontrou a folha na mata, percebeu seu aroma, que lembrava cravo e canela, e decidiu experimentá-la na cachaça.

A receita se espalhou e passou a integrar encontros, celebrações e outras práticas comunitárias. A cataia também mantém relação com manifestações tradicionais do litoral, como o fandango caiçara.

Tradição mantida pelas comunidades

A cadeia da cataia envolve a coleta e o beneficiamento das folhas e a produção da bebida. As mulheres caiçaras têm participação importante na preservação e transmissão desses conhecimentos entre gerações.

Com o tempo, a bebida também passou a integrar a gastronomia e o turismo do litoral. A produção movimenta pequenos produtores, extratores e comerciantes e representa fonte de renda para moradores das comunidades tradicionais.

O reconhecimento como patrimônio também chama atenção para um problema ainda não resolvido: a regulamentação da produção. A cataia ainda não possui registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o que dificulta a comercialização regular e a expansão da cadeia produtiva. Segundo o mandato de Goura, há um trabalho em andamento com as comunidades tradicionais para buscar a regulamentação.

A expectativa é que o reconhecimento estadual ajude a preservar os modos tradicionais de produção e amplie a valorização da cataia como produto ligado à cultura caiçara, à gastronomia, ao turismo comunitário e à economia do litoral paranaense.

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