O príncipe negro e o polaco: o encontro de Itamar Assumpção e Paulo Leminski

Paulo Leminski e Itamar Assumpção tinham muito em comum. Os dois gostavam de contrariar convenções, desconfiavam das fórmulas estabelecidas e desenvolveram linguagens próprias, difíceis de acomodar nas divisões tradicionais entre poesia, música popular e experimentação. Quando se conheceram em Curitiba, no início dos anos 1980, encontraram também uma afinidade pessoal que se transformaria em amizade e parceria musical.

O encontro aconteceu durante uma apresentação de Arrigo Barnabé na capital paranaense. Itamar, que havia passado parte da juventude em Arapongas e Londrina antes de se estabelecer em São Paulo, ficou três dias hospedado na casa de Leminski e Alice Ruiz, no bairro Pilarzinho. Levou seu violão. Saiu de lá com uma aproximação que renderia algumas das composições mais interessantes de seu repertório.

A história é recuperada pelo jornalista e biógrafo Toninho Vaz, autor de uma biografia de Leminski, em texto publicado pela revista Bravo!. Mas o depoimento mais revelador veio do próprio Itamar, em entrevista concedida aos jornalistas Neuza Pinheiro e Rodrigo Garcia Lopes, publicada originalmente no jornal cultural Nicolau e posteriormente recuperada pela revista Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.

Ao recordar a amizade, Itamar resumiu:

“Éramos como irmãos gémeos, sabe, não dá pra explicar. Foi uma pessoa artística e humanamente muito ligada a mim.”

A intimidade entre os dois se desenvolveu em torno da música, da literatura e da disposição de levar suas ideias até as últimas consequências, mesmo quando isso significava enfrentar dificuldades para viver do próprio trabalho.

Bravo!

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Da poesia ao contrabaixo

Leminski nasceu em Curitiba, em 1944. Poeta, romancista, tradutor, biógrafo e compositor, era um estudioso de línguas e culturas, com interesses que iam da poesia concreta à tradição japonesa, passando pela literatura clássica, pelo judô e pela música popular. Publicou o romance experimental Catatau, em 1975, e fez da concisão, dos jogos de palavras e do humor marcas reconhecíveis de sua produção.

Itamar Assumpção nasceu em 1949, em Tietê, São Paulo, e se mudou ainda jovem com a família para o Paraná. Foi em Londrina que participou de festivais, trabalhou com teatro e se aproximou de músicos como Arrigo Barnabé. Em 1973, estabeleceu-se em São Paulo, onde se tornaria um dos principais nomes da chamada Vanguarda Paulista.

Seu primeiro álbum, Beleléu, Leléu, Eu, lançado em 1980, apresentou ao público o personagem Nego Dito, uma figura provocadora, marcada pela marginalidade, pelo confronto e pela ironia. Itamar cantava, tocava contrabaixo, criava arranjos e organizava suas composições com uma precisão incomum. Samba, funk, reggae, rock e jazz conviviam em estruturas rítmicas que fugiam às convenções da canção popular.

A importância de Itamar é examinada no documentário Daquele Instante em Diante, dirigido por Rogério Velloso e lançado em 2011. Por meio de imagens de arquivo, apresentações e depoimentos de pessoas próximas, o filme reconstrói a carreira do artista e seu relacionamento conturbado com a indústria fonográfica.

Itamar produziu grande parte de sua obra de maneira independente, resistindo às exigências comerciais das gravadoras e enfrentando dificuldades para alcançar um público mais amplo. Sua produção, frequentemente classificada como marginal ou maldita, acabaria reconhecida como uma das experiências mais originais da música brasileira das últimas décadas do século XX.

Dicionário Cravo Albin

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Uma parceria que começava pelo telefone

A colaboração entre Leminski e Itamar produziu canções como Vamos Nessa, Custa Nada Sonhar e Dor Elegante. A primeira, incluída no disco Sampa Midnight, é um exemplo de como os dois conseguiam combinar invenção verbal e construção musical.

Itamar contou que recebeu a letra de Vamos Nessa por telefone. A princípio, não sabia o que fazer com aqueles versos. Começou então a experimentar acordes no violão e encontrou uma solução rítmica incomum: uma composição em cinco tempos, estrutura com a qual nunca havia trabalhado.

O episódio ajuda a compreender a parceria. Leminski não escrevia necessariamente segundo as expectativas de um compositor convencional. Itamar, por sua vez, não se limitava a colocar uma melodia sobre o texto. A construção musical respondia às possibilidades abertas pelas palavras.

Em sua entrevista ao Nicolau, o compositor explicou que cada música exigia soluções particulares, incluindo harmonias, divisões rítmicas e estruturas próprias. Era esse rigor que também aproximava seu trabalho da poesia de Leminski.

A afinidade tinha raízes anteriores às gravações. Itamar contou que, quando começou a conviver com o poeta, passou a ler seus livros e a conhecer melhor sua maneira de pensar. Recebeu dele um exemplar de Catatau, que inicialmente não conseguiu compreender.

O próprio Leminski também demonstrava curiosidade pelo método criativo do amigo. Em uma passagem da entrevista ao Nicolau, os jornalistas apresentaram perguntas que o poeta havia deixado manuscritas. Uma delas queria saber como Itamar criava: de noite ou de dia, louco ou são.

A resposta veio em forma de brincadeira, acompanhando o ritmo da pergunta. Era um diálogo entre artistas que compartilhavam o prazer de manipular a linguagem.

Alice Ruiz, a terceira voz

IMMuB |     Artista - Alice Ruiz

A história dessa aproximação estaria incompleta sem Alice Ruiz. Poeta, compositora e estudiosa do haicai, Alice vivia com Leminski quando Itamar começou a frequentar a casa do casal, em Curitiba.

Ela estabeleceu sua própria relação criativa com o músico. Na entrevista ao Nicolau, Itamar contou que estava desenvolvendo um trabalho de grande porte com Alice e destacou a musicalidade que encontrava em seus poemas.

Ao falar da composição Navalhanaliga, explicou que a escrita de Alice já continha uma organização rítmica capaz de sugerir caminhos para a melodia. Segundo ele, bastou pegar o violão para a música começar a aparecer.

A parceria também se alimentava de uma sensibilidade compartilhada para a concisão, o jogo de palavras e os deslocamentos de sentido. Tanto Alice quanto Leminski tinham uma escrita que interessava particularmente a um compositor atento ao ritmo interno das palavras.

Itamar chegou a afirmar que, se escrevesse poesia, gostaria de escrever como os dois. Era uma declaração significativa vinda de alguém que, apesar da qualidade literária de suas próprias letras, insistia em dizer que sua linguagem era a música.

Alice também participa do documentário Daquele Instante em Diante, ao lado de músicos, familiares e outros colaboradores de Itamar. Sua presença ajuda a compreender o ambiente artístico e afetivo em que essas parcerias se desenvolveram.

BlankTape

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A dor elegante de uma amizade

Uma das expressões mais conhecidas do encontro entre Itamar e Leminski é Dor Elegante. A letra, escrita pelo poeta, transforma o sofrimento em uma imagem de ironia e dignidade, com o humor peculiar que caracterizava sua escrita.

Na entrevista ao Nicolau, realizada após a morte de Leminski, Itamar contou que ainda tinha a composição inédita e demonstrou interesse em trabalhá-la com cuidado. A gravação seria lançada posteriormente, no álbum Pretobrás, de 1998.

A canção ganharia outras interpretações e se tornaria uma referência importante na aproximação entre poesia e música brasileira. Em 2002, Itamar a apresentou em um espetáculo com Elke Maravilha, registrado na memória artística preservada pelo Museu Itamar Assumpção.

Leminski morreu em 1989, aos 44 anos. Itamar morreria em 2003, aos 53. A amizade entre os dois, portanto, foi interrompida relativamente cedo, mas deixou um conjunto de canções e uma história de admiração recíproca.

Ao recordar o amigo, Itamar observou que ambos compartilhavam a preocupação de desenvolver uma linguagem própria, independentemente das dificuldades que encontrassem. Também lamentou os projetos que ficaram por realizar, incluindo a vontade de levar Leminski em uma viagem à Europa.

Havia, na relação entre o músico e o poeta, uma combinação rara de exigência artística, humor e cumplicidade. Leminski reconheceu em Itamar um compositor capaz de trabalhar suas palavras sem domesticá-las. Itamar encontrou na poesia do amigo possibilidades musicais que dificilmente surgiriam de uma escrita convencional.

E Alice Ruiz, com sua própria produção, ampliou essa convivência e acrescentou outro repertório de experiências à obra do compositor.

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