Caso Banco Master: quando o governo enfrenta a fraude, mas patina na narrativa

São Paulo (SP), 19/11/2025 - Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O caso Banco Master reúne todos os elementos de um grande escândalo financeiro: cifras bilionárias, engenharia sofisticada de desvios, uso de estruturas societárias opacas e impactos diretos sobre a credibilidade do sistema bancário. Não à toa, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem afirmado publicamente que o episódio pode se configurar como o maior escândalo bancário da história do Brasil.

O problema, no entanto, não está na ação do Estado — mas na forma como essa ação tem sido percebida no debate público. Embora as instituições estejam operando, o governo federal aparece, em muitos momentos, na defensiva, permitindo que o caso seja capturado por narrativas distorcidas, especialmente nas redes sociais.

É preciso dizer com clareza: o Banco Master foi liquidado por decisão do Banco Central sob o atual governo. A liquidação extrajudicial é uma medida extrema, adotada apenas quando há risco relevante ao sistema financeiro e indícios graves de irregularidades. Não se trata de omissão, tampouco de conivência. Ao contrário: trata-se de uma reação dura do Estado diante de um esquema que, tudo indica, se estruturou ao longo do tempo.

Apesar disso, o episódio vem sendo apresentado por setores da extrema-direita como se fosse um problema criado pelo próprio governo que agora o investiga. Essa inversão narrativa só prospera porque o Planalto ainda não assumiu plenamente o enquadramento político do caso: o de enfrentamento rigoroso à corrupção financeira, e não o de simples gerenciamento de crise.

As investigações em curso indicam que o caso pode alcançar grandes agentes do setor financeiro, expondo práticas sistêmicas que vão além de um único banco. Há indícios de que o então controlador da instituição manteve relações espúrias com o meio político, em especial com setores ligados à extrema-direita, o que ajuda a explicar a blindagem simbólica construída em torno do banco por um período significativo.

Nesse contexto, um dos aspectos mais graves do caso é a utilização do Banco de Brasília (BRB) como elemento de sustentação do esquema. A compra de ativos posteriormente considerados de baixa qualidade — ou mesmo “ativos podres” — levanta questionamentos profundos sobre governança, critérios de risco e responsabilidade institucional. A participação de um banco público como fiador indireto de operações dessa natureza amplia o dano potencial e exige apuração rigorosa.

Há também um ponto sensível que precisa ser tratado com mais objetividade: a linha do tempo da supervisão bancária. A expansão do Banco Master e as operações hoje sob investigação demandam esclarecimentos sobre a atuação da gestão anterior do Banco Central. A sociedade tem o direito de saber o que foi monitorado, quando os alertas surgiram e por que medidas mais duras não foram adotadas antes. Questionar a supervisão passada não é ataque institucional — é transparência democrática.

Outro erro recorrente no debate público tem sido a mistura indevida de planos. Supostas ligações do banco com integrantes de outros Poderes, se existirem, devem ser investigadas com rigor, mas não dizem respeito ao Poder Executivo. Confundir responsabilidades apenas embaralha o entendimento do caso e alimenta a desinformação.

Esse padrão não é exclusivo do episódio do Banco Master. Em outras pautas de grande repercussão recente — como as fake news sobre uma suposta taxação do Pix ou as narrativas falsas em torno da criação de novos impostos com a Reforma Tributária — o governo demorou a reagir de forma coordenada e assertiva, permitindo que mentiras ganhassem tração antes da resposta oficial.

É verdade que a comunicação do governo melhorou em termos gerais. Há mais presença institucional, maior alinhamento entre áreas e esforço de reconstrução da credibilidade do Estado. Mas, em momentos críticos, isso ainda não se converte plenamente em disputa de narrativa, o que é decisivo num ambiente marcado por desinformação organizada.

O que está em curso no caso Banco Master é uma atuação coordenada de órgãos de Estado: Banco Central, Ministério Público, Polícia Federal, Tribunal de Contas e Judiciário. Esse movimento não fragiliza o governo — deveria fortalecê-lo, se bem comunicado. Combater um esquema dessa magnitude não é passivo político; é demonstração de que o Estado está funcionando.

O risco, porém, é permitir que a narrativa pública transforme um caso de fiscalização e repressão à fraude em mais um episódio nebuloso, em que ninguém entende exatamente quem fez o quê. Esse vácuo é terreno fértil para fake news e ataques oportunistas.

Se o governo quiser virar esse jogo, precisa assumir o protagonismo narrativo sem medo: contar a história em ordem, separar responsabilidades, explicar os mecanismos do esquema e reafirmar, com todas as letras, que quem desmonta uma fraude não pode ser tratado como cúmplice dela.

No caso Banco Master, a ação está em curso. Falta agora transformar esse enfrentamento em compreensão pública — antes que a desinformação faça isso no lugar do Estado.

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