Zé Dirceu faz a defesa mais contundente do governo no caso Master e aponta falhas da gestão Campos Neto

Brasília (DF) 02-04-2024 Sessão especial para celebrar a democracia brasileira. Ex-ministro José Dirceu, Maria Thereza Fontella Goulart e seu filho, João Goulart filho. Foto Lula Marques/ Agência Brasil

O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu publicou o que se tornou uma das defesas mais sólidas e articuladas do governo Lula no caso Master, atribuindo a crise a falhas estruturais herdadas do modelo regulatório adotado durante o governo anterior e a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.

No artigo, Dirceu afirma que o episódio não pode ser tratado como um erro pontual ou um escândalo isolado, mas como o resultado direto de uma arquitetura do sistema financeiro marcada por baixa regulação, opacidade e incentivos permanentes à tomada de risco.

“O caso Master […] parece longe de representar um acidente de percurso, um episódio isolado de má gestão ou um desvio pontual”, escreve, classificando-o como produto direto da arquitetura do sistema financeiro.

Segundo ele, essa arquitetura foi fortalecida por uma visão ideológica de mercado autorregulado, que reduziu a supervisão estatal e fragilizou os mecanismos de controle.

Crítica direta à gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central

Dirceu aponta explicitamente a atuação do Banco Central sob Roberto Campos Neto como um dos fatores centrais para a consolidação dos riscos que culminaram no caso Master.

Ele afirma que houve uma “flexibilização imprudente e ideologicamente orientada”, baseada na crença dogmática na autorregulação do mercado e na redução deliberada da supervisão substantiva.

O ex-ministro sustenta que o Banco Central adotou uma postura excessivamente tolerante diante de estruturas financeiras complexas, operações cruzadas e modelos agressivos de captação, deixando de atuar preventivamente sobre riscos sistêmicos que já estavam se formando.

Esvaziamento da CVM e falhas institucionais

Além do Banco Central, o texto também responsabiliza o enfraquecimento da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que teria perdido capacidade operacional, autonomia política e instrumentos eficazes de fiscalização em um mercado cada vez mais concentrado e financeirizado.

Dirceu também critica a fragmentação entre órgãos de controle, como Receita Federal e entidades reguladoras, afirmando que a falta de integração institucional facilitou a exploração de brechas por grupos financeiros.

Faria Lima como fiadora do modelo de risco

Outro ponto central da defesa é a crítica ao papel da Faria Lima, descrita como principal sustentadora política, econômica e narrativa do modelo que teria permitido a proliferação de práticas de alto risco.

“A Faria Lima foi a principal fiadora desse modelo”, afirma Dirceu, argumentando que o mercado financeiro resistiu sistematicamente a qualquer reforço regulatório, tratando-o como ameaça à inovação.

Para ele, o resultado foi um sistema que premia a irresponsabilidade, transfere riscos ao investidor comum e opera sob a expectativa implícita de que o Estado intervirá para evitar crises maiores.

CDBs, FGC e a captura da poupança popular

O artigo também critica a disseminação de CDBs com taxas acima da média, vendidos como investimentos seguros, e o uso do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) como ferramenta de marketing.

Segundo Dirceu, criou-se a “ficção de que risco elevado e segurança plena podem coexistir”, facilitando a captura da poupança popular por meio de produtos financeiros de alto risco.

Ele afirma ainda que plataformas digitais de investimento atuaram como canais de distribuição de risco sistêmico, promovendo esses produtos ao varejo sem transparência adequada.

Propostas de mudança e reforço da regulação

Para Dirceu, o caso Master-BRB-Will deve ser tratado como um ponto de inflexão na política econômica e na regulação do sistema financeiro.

Entre as propostas defendidas estão:

  • uma reforma profunda do FGC,
  • contribuições proporcionais ao risco assumido pelas instituições,
  • limites mais rígidos por banco,
  • e a proibição do uso do fundo como ferramenta publicitária.

“Não haverá estabilidade financeira, crescimento sustentável ou democracia econômica sem um Estado regulador forte, integrado e disposto a enfrentar interesses poderosos”, afirma.

Contexto: o que é o caso Master

O caso Master envolve investigações e controvérsias relacionadas ao Banco Master, com impactos também sobre o BRB (Banco de Brasília) e o Will Bank, que foi liquidado. O episódio levantou questionamentos sobre modelos agressivos de captação, estruturas societárias opacas, ativos de difícil mensuração, alta alavancagem e falhas na supervisão regulatória.

O caso ampliou o debate nacional sobre responsabilidade institucional, proteção ao investidor e o papel do Estado na regulação do sistema financeiro.

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