Dados extraídos da agenda oficial divulgada pelo próprio Governo do Paraná mostram que Ratinho Junior registrou, em janeiro deste ano, jornada pública inferior à metade da carga horária semanal de um trabalhador submetido à jornada convencional da CLT.
O levantamento, sistematizado pela deputada estadual Ana Júlia Ribeiro, indica que o governador somou 90 horas e 30 minutos de compromissos oficiais ao longo do mês, o que corresponde a média de 20 horas e 26 minutos por semana. Pela legislação trabalhista brasileira, um trabalhador em jornada integral cumpre 44 horas semanais.
Na prática, isso significa que, pela própria agenda oficial do governo, Ratinho Junior registrou 46,4% da jornada semanal de um trabalhador comum — ou seja, 53,6% a menos.
O recorte considera apenas o mês de janeiro, já que em fevereiro o governador permaneceu duas semanas em férias no exterior, o que alteraria a base comparativa.
A discussão ganhou força após declaração dada por Ratinho Junior no último domingo, dia 15, quando se posicionou contra o debate sobre o fim da escala 6 x 1 e afirmou que, se um trabalhador quiser cumprir jornadas maiores, isso seria uma decisão individual.
Para Ana Júlia, há uma contradição evidente entre o discurso e os próprios dados oficiais divulgados pelo Executivo estadual. “Assim fica fácil ser contra o fim da escala 6 x 1. Pode parecer difícil de acreditar, mas os dados usados aqui vêm da própria agenda oficial divulgada pelo Governo do Paraná. Se essa agenda reflete integralmente a rotina do governador, a jornada pública registrada é muito inferior à de milhões de trabalhadores. Se não reflete, permanece a pergunta: o que não está sendo registrado?”, afirmou.
A deputada ressalta que o dado considera exclusivamente os horários publicados oficialmente pelo Executivo estadual e afirma que a transparência sobre a rotina de governo também faz parte do compromisso público. “Não somos nós que estamos dizendo. É o próprio governo, por meio da agenda oficial, que mostra esse volume de compromissos.”
Na mesma linha, Requião Filho criticou a fala do governador e associou o debate ao papel histórico da legislação trabalhista na proteção dos trabalhadores.
“Nem todo mundo trabalha para o pai. Imagina chegar numa fábrica e dizer que naquela semana vai trabalhar só dez horas. Direitos trabalhistas existem justamente porque a relação entre empregado e empregador é desigual e precisa de proteção. Defender mais tempo para a família é humanidade”, afirmou o parlamentar.
Segundo ele, a política precisa estar voltada à melhoria concreta da vida das pessoas. “O fim da escala 6×1 é uma das maneiras de garantir mais tempo de qualidade para as famílias. O Estado precisa assegurar que direitos trabalhistas melhorem a vida dos trabalhadores. É para isso que serve a política: para cuidar das pessoas.”
Ana Júlia também relaciona o debate atual à necessidade de enfrentar a precarização das relações de trabalho. “Não vamos aceitar novamente discursos que tentam deslegitimar a luta dos trabalhadores e sugerem ainda mais precarização do emprego. Estamos na luta pelo fim da escala 6 x 1, porque descanso é direito, não privilégio.”
A deputada lembra ainda que o debate sobre direitos trabalhistas toca um histórico conhecido da própria família do governador. O apresentador Carlos Roberto Massa, pai de Ratinho Junior, já foi condenado pela Justiça do Trabalho em ação relacionada ao descumprimento de normas trabalhistas em propriedade rural, com irregularidades apontadas em saúde, segurança, intervalo para repouso e condições de trabalho.
“Milhões de brasileiras e brasileiros enfrentam jornadas exaustivas, dupla jornada, transporte precário e pouco tempo de descanso. É esse país real que precisa ser considerado quando se discute jornada de trabalho”, concluiu Ana Júlia.