A mansão de alto padrão no Lago Sul, em Brasília, hoje associada às articulações de Daniel Vorcaro em meio à crise do Banco Master, já havia passado antes pelo circuito de um dos principais financiadores privados do casal Sergio Moro e Rosângela Moro: Salim Mattar, fundador da Localiza e um dos empresários mais identificados com a agenda liberal no país.
O imóvel ganhou projeção nacional depois que reportagens mostraram que, já sob uso de Vorcaro, tornou-se endereço de reuniões com autoridades, empresários e interlocutores políticos em Brasília no período em que o Banco Master buscava sustentação institucional diante do avanço de investigações e pressões do mercado. Antes disso, porém, a casa esteve vinculada a Salim Mattar por contrato de locação. A passagem do imóvel por esses dois personagens — em momentos diferentes, mas dentro do mesmo ambiente de influência econômica e política da capital federal — chamou atenção também porque documentos revelados pela imprensa apresentaram versões com valores diferentes para o aluguel.
Mais do que uma residência de luxo, a mansão de R$ 36 milhões passou a simbolizar um espaço de circulação de influência em Brasília: um endereço por onde, em tempos distintos, passaram um dos principais formuladores da agenda de privatizações do bolsonarismo e o banqueiro que hoje ocupa o foco de uma das crises financeiras mais sensíveis do país.
Mattar consolidou-se como um dos principais financiadores privados do casal Moro em 2022: doou R$ 100 mil à campanha de Sergio Moro ao Senado e R$ 50 mil à campanha de Rosângela Moro à Câmara dos Deputados. Depois da eleição, a rede privada de apoio ao senador permaneceu ativa: já eleito, Moro recebeu mais R$ 318 mil em novas doações privadas, sinalizando a continuidade de sustentação empresarial para além do calendário eleitoral.
A relação política entre Moro e Mattar também se tornou pública.
Em 2023, Moro homenageou Mattar nas redes sociais ao comentar uma premiação internacional concedida ao empresário por um instituto liberal, afirmando ser necessário valorizar “o liberalismo econômico e político e seus propagadores”.

A manifestação explicitou afinidade com uma agenda econômica e política construída ao longo dos últimos anos.
Privatizações, refinarias e soberania
À frente da política de desestatização no governo Jair Bolsonaro, Salim Mattar tornou-se um dos principais defensores da venda de ativos públicos estratégicos, incluindo refinarias da Petrobras.
A defesa dessas privatizações sempre teve peso político elevado porque envolve diretamente soberania energética, capacidade estatal de regulação e controle sobre um setor central para o abastecimento nacional.
A venda de refinarias tornou-se um dos símbolos mais sensíveis da agenda ultraliberal aplicada ao Estado brasileiro.
A ideologia antes e depois da toga
A aproximação com Mattar também reforça um debate antigo sobre Sergio Moro: o de que sua atuação pública sempre esteve associada a uma orientação ideológica clara.
Ainda como juiz da Operação Lava Jato, decisões de Moro foram alvo de críticas por produzirem efeitos diretos no cenário político nacional em momentos decisivos da vida institucional brasileira.
Ao aceitar o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro, transformou em vínculo institucional uma convergência política que já vinha sendo apontada no debate público.
Sua entrada definitiva na política eleitoral consolidou também uma rede de apoio formada por empresários diretamente ligados à agenda liberal e bolsonarista.
O mesmo circuito de poder
Não há prova pública de relação societária entre Salim Mattar e o Banco Master.
Mas o cruzamento de nomes, tempos e ambientes chama atenção porque expõe novamente um mesmo circuito:
- financiamento político;
- empresários de grande porte;
- agenda liberal;
- influência em Brasília.
A mansão, nesse contexto, funciona menos como prova patrimonial e mais como retrato de um ambiente em que os mesmos personagens seguem reaparecendo quando grandes interesses financeiros entram em cena.