Áudio inédito cita “Guto”, Celepar e reuniões madrugada adentro em contrato de R$ 3,8 milhões sob investigação no Paraná

O governador Carlos Massa Ratinho Junior e o secretário das Cidades, Guto Silva, assinam nesta quinta-feira (11) um convênio com a prefeitura de Fazenda Rio Grande para a construção de dois viadutos sobre a BR-116.

Um áudio inédito que chegou ao Reverbero acrescenta novos elementos ao caso do contrato de R$ 3,833 milhões firmado pelo governo do Paraná para a compra de simuladores de tiro policial, hoje no centro de uma investigação que apura suspeitas de peculato, corrupção passiva e fraude em licitação.

Ouça: https://www.instagram.com/p/DXOOwRtDmEW/

A gravação, atribuída a conversa entre pessoas ligadas diretamente ao negócio da empresa contratada, amplia o conteúdo já tornado público após reportagem de O Globo, que revelou a quebra do sigilo bancário do empresário Adolfo Jachinski Neto, investigado no inquérito que envolve a contratação da EBTS – Empresa Brasileira de Treinamento e Simulação.

O novo material, ainda não divulgado anteriormente, traz menções a articulações políticas, ajustes financeiros, ambiente informal de reuniões e referências inéditas à Celepar como parte do desenho pensado para expansão do projeto.

Em um dos trechos, aparece a menção a “Guto”, referência que dialoga com o nome de Guto Silva, ex-chefe da Casa Civil e nome que até poucas semanas atrás era tratado nos bastidores como um dos preferidos de Ratinho Junior para a sucessão estadual.

Na conversa, um dos interlocutores relata ter participado de encontros que avançavam até a madrugada e descreve um ambiente de bebida durante as tratativas.

Segundo ele, uma dessas reuniões terminou por volta de três da manhã, com a observação de que era preciso sair do local ainda em condições de voltar para casa — descrição que ajuda a compor o tom informal em que parte dessas conversas era narrada.

Outro ponto novo é a referência direta à Celepar. O áudio indica que havia a intenção de ampliar o projeto para diferentes batalhões policiais e manter a estrutura tecnológica vinculada à estatal paranaense.

A fala menciona a possibilidade de distribuir simuladores em unidades operacionais e integrar o sistema em servidor estatal, o que faz a Celepar surgir, pela primeira vez de forma explícita, dentro da narrativa dos próprios interlocutores.

Além disso, o diálogo também aborda ajustes de valores e tratativas financeiras relacionadas ao projeto, em um contexto em que aparece a ideia de elevar custos para acomodar repasses.

O contrato que hoje integra a investigação foi firmado em dezembro de 2019 entre a Secretaria de Estado da Segurança Pública e a EBTS, prevendo:

  • uma unidade móvel de treinamento virtual de tiro no valor de R$ 2.407.000,00
  • um simulador fixo de tiro e táticas policiais por R$ 1.426.000,00

Totalizando R$ 3.833.000,00

A decisão judicial já conhecida aponta que a quebra de sigilo bancário foi considerada necessária para rastrear movimentações financeiras e identificar eventuais repasses incompatíveis com a execução formal do contrato.

Ao G1, o Governo do Paraná disse, por meio de nota, que: “tem regras rígidas de controle, compliance e transparência e não responde por supostos áudios atribuídos a uma desavença societária de empresários sem vínculos com o Estado.

A licitação, realizada há sete anos, foi feita por meio de pregão eletrônico, de forma transparente e os objetos propostos foram entregues. Eles estão em uso pela Polícia Civil desde então. O Tribunal de Contas do Estado inclusive atestou a regularidade da contratação em um acórdão publicado em julho de 2024.

A investigação sobre a desavença societária é tocada pela Polícia Civil do Paraná e está direcionada para a desavença societária. O pedido de quebra de sigilo feito pela própria Policia Civil ajudará a esclarecer as versões apresentadas pelos empresários. Os ex-secretários não são investigados.”

O ex-secretário Guto Silva afirmou, também em nota, que “não conhece o empresário citado, jamais foi sócio ou manteve qualquer relação com ele ou com a empresa mencionada. O pregão 1133/2019 foi conduzido pela Secretaria de Segurança Pública, sem qualquer participação da Casa Civil ou do então secretário. Trata-se de acusação antiga, já esclarecida em 2022 e sem qualquer respaldo nos fatos ou nos órgãos de controle.”

O empresário Jonny Rocha Braga disse que apenas apresentou os áudios às autoridades: “Quero informar que as gravações foram feitas com intenção de comprovar uma dívida da EBTS para comigo. Desde 2014 o Adolfo vinha prometendo pagar a minha parte como fundador da empresa em 2008, com procedentes de licitações (tenho o acordo em mãos e o processo cível corre na Justiça). Promessa esta que passava de ano para ano sem ser cumprida. Reitero que eu nunca acusei nenhuma autoridade. Todas as tratativas, esquemas e nomes mencionados, foram feitas pelo próprio Adolfo, como mostram as gravações.”

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