Singapura, Maluf e o que a habitação revela sobre o Estado no Brasil

Quando Paulo Maluf lançou, nos anos 1990, o Projeto Cingapura em São Paulo, a referência a Singapura não era apenas estética. O nome procurava associar a política paulistana a uma experiência internacional já conhecida pela capacidade de substituir assentamentos precários por moradias verticalizadas produzidas em larga escala. A promessa era condensar modernização urbana, reorganização visual da cidade e resposta rápida ao déficit habitacional.

Os conjuntos implantados em São Paulo alteraram a paisagem de diversas áreas e produziram volume relevante de unidades. Mas a distância em relação ao caso singapuriano apareceu cedo: enquanto em Singapura a habitação fazia parte de uma política territorial contínua, em São Paulo a verticalização não foi acompanhada por uma transformação equivalente da estrutura urbana ao redor.

Essa diferença se tornaria ainda mais visível com o tempo. Em 2015, reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que, no Cingapura Barão de Antonina, um dos primeiros empreendimentos do programa, áreas comuns haviam sido divididas informalmente entre famílias e novas construções surgiam dentro do próprio conjunto, reproduzindo ocupações precárias no interior do espaço que originalmente pretendia eliminar esse tipo de precariedade.

As justificativas dos moradores revelavam o problema estrutural: famílias cresceram, os apartamentos eram pequenos e o entorno continuava pressionado por déficit habitacional severo. Parte dos novos ocupantes vinha da favela vizinha. A forma física da intervenção não foi suficiente para absorver a dinâmica social que continuava operando no território.

O que Singapura fez além de construir moradia

Quando Singapura iniciou, no começo dos anos 1960, seu programa de substituição de assentamentos precários, a política habitacional já estava vinculada a um objetivo mais profundo: reorganizar materialmente a sociedade num país recém-independente, com forte superlotação urbana, precariedade sanitária, pobreza e tensões étnicas.

A criação da Housing and Development Board, em 1960, não significou apenas construir em grande escala. O Estado incorporou solo urbano, densidade populacional, circulação, equipamentos públicos e composição social dos bairros ao mesmo planejamento.

Ao longo das décadas seguintes, cerca de 90% do solo passou a ficar sob domínio público ou forte regulação estatal, permitindo ao governo definir localização, expansão e renovação urbana sem depender diretamente da lógica especulativa do mercado fundiário.

Mais de 80% da população vive hoje em unidades vinculadas ao sistema HDB, em contratos de arrendamento de 99 anos, com financiamento subsidiado.

Mas o aspecto decisivo foi o efeito social produzido por essa política.

A transferência de famílias de áreas precárias para bairros dotados de escola, transporte, comércio e estabilidade residencial alterou padrões de vida cotidiana, ampliou segurança doméstica, fortaleceu patrimônio familiar e reduziu parte importante da vulnerabilidade urbana.

A habitação pública tornou-se um dos pilares da ascensão social singapuriana.

O Estado ainda introduziu regras de composição étnica nos conjuntos habitacionais para evitar a cristalização de bairros segregados e reduzir tensões sociais herdadas do período colonial.

Isso não elimina críticas: o modelo foi construído sob forte centralização política, baixa alternância de poder e forte disciplina estatal. Trabalhadores migrantes seguem fora da parte mais protegida do sistema habitacional.

O salto brasileiro em escala nacional

No Brasil, a política habitacional só ganharia escala nacional comparável décadas depois, com o Minha Casa Minha Vida.

Criado em 2009, o programa representou a maior política habitacional brasileira desde o ciclo do Banco Nacional da Habitação, criado em 1964.

Sua diferença em relação ao Projeto Cingapura paulista está justamente na abrangência: milhões de unidades contratadas em todas as regiões do país, com subsídio direto, financiamento e capilaridade nacional.

Mesmo onde reapareceram problemas conhecidos — sobretudo localização periférica de parte dos empreendimentos — o programa alterou concretamente o acesso à moradia formal, ao patrimônio e à estabilidade residencial de milhões de famílias.

Nenhuma política posterior sob governos conservadores atingiu a mesma escala.

Florestan Fernandes e a democratização pela habitação

É nesse ponto que Florestan Fernandes oferece uma leitura particularmente forte.

Em A Revolução Burguesa no Brasil, ele mostra que a modernização brasileira avança frequentemente sem desmontar integralmente estruturas históricas de privilégio.

Direitos crescem, políticas públicas se ampliam, instrumentos modernos surgem — mas os núcleos centrais de concentração econômica permanecem resistentes.

No espaço urbano, isso significa que a habitação pode avançar sem alterar de forma equivalente a estrutura fundiária.

Por isso o Minha Casa Minha Vida, mesmo com limitações, representa democratização material concreta: ele desloca milhões de famílias historicamente excluídas para dentro de uma esfera formal de moradia e patrimônio.

Isso dialoga diretamente com a ideia de Florestan de democratização ampla: não apenas acesso formal a direitos, mas transformação concreta das condições materiais de vida.

Onde o bloqueio urbano permanece

O Brasil dispõe de instrumentos legais para enfrentar retenção imobiliária e vazios urbanos, previstos no Estatuto da Cidade.

Entre eles:

  • IPTU progressivo
  • parcelamento compulsório
  • edificação obrigatória

Mas sua aplicação permanece limitada.

Municípios frequentemente resistem a aplicar com intensidade instrumentos que afetem diretamente a valorização privada da terra.

É nesse ponto que o capital imobiliário e elites urbanas continuam exercendo forte capacidade de veto.

A política habitacional avança, mas o núcleo fundiário da desigualdade urbana brasileira permanece em grande parte preservado.

Singapura conseguiu fazer da habitação um eixo de reorganização social porque solo, Estado e continuidade caminharam juntos.

No Brasil, a habitação avança — às vezes em escala histórica —, mas ainda dentro de uma estrutura urbana em que a terra continua sendo um dos centros mais resistentes da desigualdade.

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