Curitiba entrou para a história política brasileira como o palco do primeiro grande comício das Diretas Já. Em 12 de janeiro de 1984, a capital paranaense reuniu cerca de 50 mil pessoas na Boca Maldita, num ato que superou as expectativas dos organizadores e ajudou a transformar uma articulação ainda incerta numa mobilização nacional por eleições diretas para presidente.
O episódio de 42 anos atrás reaparece agora com detalhes renovados em Lula – Biografia, volume 2, novo livro de Fernando Morais lançado no fim de março, no qual o escritor reconstrói os anos finais da ditadura e o avanço político que levaria Luiz Inácio Lula da Silva da liderança sindical à vitória presidencial de 2002. A obra mostra como o ato curitibano alterou a percepção nacional sobre a capacidade de mobilização popular naquele momento político.
Segundo o relato recuperado por Morais, o jornalista Carlos Brickmann, enviado especial da Folha de S.Paulo, voltou a São Paulo impressionado com a dimensão da manifestação. Na redação, resumiu o impacto em uma frase: “A coisa pegou”. No dia seguinte, o jornal registrava que os 30 mil esperados haviam se transformado em pelo menos 50 mil manifestantes — alguns cálculos falavam em 60 mil.
Um dos articuladores centrais do ato foi o então governador do Paraná, José Richa. A escolha de Curitiba, segundo a narrativa do livro, ganhou força após uma sugestão do general Leônidas Pires Gonçalves, que via a capital paranaense como espécie de termômetro político nacional: se a campanha funcionasse ali, poderia se espalhar pelo país.
A leitura se apoiava numa imagem consolidada da cidade: Curitiba era vista como centro urbano de classe média, sem os contrastes mais agudos de Rio de Janeiro e São Paulo, frequentemente tratada por institutos de pesquisa e agências de publicidade como espaço de teste para tendências nacionais.
No palanque estavam lideranças decisivas da oposição ao regime militar: além de José Richa, participaram Franco Montoro, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Lula, então em ascensão como liderança sindical e partidária.
A mobilização também reuniu artistas e comunicadores. Entre eles estavam Paulo Leminski e Moraes Moreira, responsáveis pelo chamado “Frevo das Diretas”: Leminski escreveu a letra, Moraes compôs a melodia. A canção chegou a ser retida pela censura antes de circular nacionalmente.
Se a meta é a democracia
democracia é a meta
eleição direta
Verso de Lemkinski
O sucesso do ato em Curitiba teve efeito imediato. Menos de duas semanas depois, São Paulo reuniria centenas de milhares de pessoas na Praça da Sé. A campanha se tornaria o maior movimento popular da história política brasileira, reunindo diferentes correntes partidárias, lideranças sindicais, artistas, intelectuais e setores sociais diversos em torno da defesa do voto direto para presidente.
Antes de ser associada, décadas depois, à Operação Lava Jato, Curitiba havia ocupado um capítulo político bem mais nobre e democrático da formação histórica brasileira, enfrentando a Ditadura e mostrando que o regime começava a perder sustentação pública.