Dr. Rosinha estava especialmente animado quando conversou com o Revérbero nesta quinta-feira (13). Havia acabado de sair de uma reunião privada com o presidente Lula, às vésperas do início oficial da campanha eleitoral. E havia uma coincidência difícil de passar despercebida: o encontro aconteceu justamente em um dia 13, número que Rosinha carregou nas urnas em sua vida política.
No encontro, Rosinha presenteou Lula com um exemplar de Cartas para Lula, livro que reúne textos escritos durante o período em que o presidente esteve preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Na época, Rosinha presidia o PT do Paraná e participou da organização da Vigília Lula Livre. Sob o pseudônimo de Jorge Santos, publicou no Viomundo cartas e crônicas dirigidas a Lula, posteriormente reunidas no livro.
Agora candidato ao Senado pelo Paraná, Rosinha vê com confiança o cenário apontado pelas pesquisas eleitorais e os apoios que tem recebido neste início de campanha. Na conversa com o Revérbero, falou sobre a disputa que começa oficialmente nos próximos dias.
Mas foi para falar de outra história que o Revérbero procurou Dr. Rosinha.
Quem encontra “Dr. Rosinha” em uma urna pode imaginar um nome político cuidadosamente escolhido para ser lembrado pelo eleitor. A história é bem menos planejada. Começa décadas antes da primeira eleição, quando Florisvaldo Fier ainda era estudante de medicina e resolveu pegar a estrada.
Em entrevista ao Revérbero, o candidato ao Senado pelo Paraná contou, com a paciência que lhe é característica, como o episódio da juventude deu origem ao apelido que o acompanharia pela medicina e, depois, por toda a vida pública. De voz mansa, fala em ritmo tranquilo e como se estivesse numa boa prosa, Rosinha explicou a história sem pressa e sem parecer alguém que precisa resolver outras dez coisas depois dali, mesmo quando, muitas vezes, precisa.
Nascido em Rolândia, no Norte do Paraná, Rosinha chegou a Curitiba para estudar medicina. A história do apelido remonta a 1972 e 1973, quando cursava medicina na então Universidade Católica do Paraná, hoje PUC-PR. Durante as férias da faculdade, aproveitava para viajar. Com pouco dinheiro, pegava a estrada de carona, “no dedão”, como lembrou durante a conversa. Em uma dessas viagens, foi até Natal.
Antes de partir, comprou algumas camisetas brancas. Como passaria cerca de dois meses viajando de carona pelo Nordeste, resolveu tingi-las de rosa por uma razão bastante prática: a sujeira apareceria menos do que no branco. Eram cinco ou seis camisetas, que acabaram virando praticamente seu uniforme durante a viagem.
A viagem, porém, deixou bem mais do que um apelido. Rosinha percorreu parte do país de carona, dependendo muitas vezes da hospitalidade de quem encontrava pelo caminho. Quando conseguia hospedagem na casa de alguém, aproveitava para lavar a roupa. Levava também um caderno, no qual registrava histórias e acontecimentos daqueles dias.
Foram cerca de dois meses entre caronas, hospedagens improvisadas e encontros com pessoas pelo caminho. Para Rosinha, aquele tipo de viagem também era uma maneira de conhecer o Brasil de perto, chegando a lugares e convivendo com pessoas que dificilmente conheceria de outra forma. Mais de cinco décadas depois, ainda recorda a experiência e os aprendizados daquele período.
Quando voltou a Curitiba, continuou usando as camisetas. Foi o suficiente para os colegas repararem. Primeiro tentaram “Rosa Choque”. Não pegou. Depois veio “Rosa”. Até que alguém chegou a “Rosinha”.
A lenda estava, enfim, batizada.
De Rosinha a Doutor Rosinha
O apelido continuou acompanhando Florisvaldo Fier quando o estudante se tornou médico.
Durante os atendimentos, pacientes que já o conheciam como Rosinha passaram a chamá-lo de “Doutor Rosinha”. A combinação entre profissão e apelido acabou criando o nome pelo qual seria conhecido décadas depois na política.
Quando começou a disputar eleições, o “Doutor” também ganhou uma função prática. Segundo Rosinha, havia uma preocupação em deixar claro para quem ainda não o conhecia que o candidato chamado “Rosinha” era um homem. O nome usado nos consultórios foi levado para a política.
A solução funcionou talvez melhor do que qualquer estratégia de marketing pudesse prever. Florisvaldo Fier foi ficando restrito aos documentos. Para boa parte dos paranaenses, ele simplesmente virou Dr. Rosinha.
“O meu nome é o meu apelido”, resumiu em uma entrevista publicada em 1999.
Um nome que também enfrentou preconceito
O nome que se tornou uma marca também foi usado contra ele. Questionado pelo Revérbero se “Rosinha” havia provocado ataques homofóbicos ou outras manifestações de preconceito ao longo da vida pública, ele respondeu sem hesitar: “Teve, sim”. Contou que, quando chegou à Câmara Municipal de Curitiba, as piadas circulavam principalmente nos bastidores. Depois, já como deputado estadual, também enfrentou situações semelhantes.
Eram provocações associadas ao fato de um homem carregar o apelido “Rosinha”, num ambiente político ainda mais masculino e conservador do que hoje. O preconceito, porém, não fez com que abandonasse o nome.
Há uma ironia interessante no que aconteceu depois. O homem que ouviu piadas por causa do próprio apelido construiu uma trajetória política marcada também pela defesa dos direitos humanos e dos direitos da população LGBTI.
Essa relação também passou a fazer parte da história do nome. O apelido nascido quase por acaso de algumas camisetas tingidas de rosa, e que em determinados momentos foi usado para tentar constrangê-lo, acabou incorporado definitivamente à sua identidade pública.
Florisvaldo Fier foi vereador de Curitiba, deputado estadual e deputado federal pelo Paraná por quatro mandatos. Médico e servidor público, participou da fundação do PT e também presidiu o Parlamento do Mercosul. A Câmara dos Deputados registra Florisvaldo Fier pelo nome parlamentar que o acompanhou durante seus mandatos: Dr. Rosinha.
Em 2026, aos 75 anos, ele voltou às urnas como candidato do PT ao Senado pelo Paraná.