A Prefeitura de Curitiba acertou ao transformar em calçadão o trecho da Rua Conselheiro Laurindo que separa o Teatro Guaíra da Praça Santos Andrade. A obra começou nesta segunda-feira (17), com a retirada do asfalto, e vai integrar espaços que estão frente a frente, fazem parte da mesma paisagem urbana, mas permaneceram durante décadas separados pela circulação de carros.
O novo calçadão vai conectar o Guairão à Praça Santos Andrade e ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), criando uma área contínua para pedestres, convivência e atividades culturais.
É uma mudança pequena no mapa da cidade, restrita a uma quadra, mas bastante lógica quando se observa como aquele espaço já é utilizado.
Quem já saiu de um espetáculo lotado no Guairão conhece a situação. Centenas ou milhares de pessoas deixam o teatro praticamente ao mesmo tempo e encontram, logo em frente, uma rua aberta ao tráfego. Em grandes apresentações, festivais e outros eventos, o público acaba ocupando as calçadas e esperando para atravessar uma via que separa o teatro da maior área livre disponível exatamente diante dele.
Transformar essa quadra em calçadão torna a circulação mais segura e melhora as condições de acessibilidade. Pessoas com deficiência, idosos, crianças e quem tem mobilidade reduzida poderão circular entre o teatro e a praça sem enfrentar o fluxo de veículos que hoje corta o conjunto ao meio.
Cultura na rua
A mudança abre possibilidades interessantes para a programação cultural da região.
A nova área poderá receber feiras, apresentações, instalações, projeções e performances ligadas ao próprio teatro, à UFPR ou aos eventos realizados na Santos Andrade. Em grandes ocasiões, pode funcionar como uma extensão externa do Guaíra, permitindo atividades que comecem dentro do teatro e continuem na praça.
A Santos Andrade já recebe esse tipo de ocupação em diferentes momentos do ano. A diferença é que haverá uma área maior e contínua, chegando até a entrada do teatro.
E não se trata de qualquer equipamento cultural. O Teatro Guaíra é um dos maiores complexos culturais da América Latina e um dos edifícios mais imponentes de Curitiba. O complexo reúne três auditórios em seu prédio principal, entre eles o Bento Munhoz da Rocha Netto, o Guairão, além de manter corpos artísticos como a Orquestra Sinfônica do Paraná e o Balé Teatro Guaíra.
Do outro lado está o prédio histórico da UFPR, outra construção imediatamente reconhecível na paisagem curitibana. Entre os dois, uma das praças mais conhecidas da cidade.
Essa dimensão torna ainda mais estranha a configuração atual. A fachada monumental do Guaíra está voltada para a Santos Andrade, mas a praça termina antes de chegar ao teatro. No meio, uma quadra da Conselheiro Laurindo mantém separados dois espaços que visualmente parecem ter sido feitos para funcionar juntos.
Transformá-la em calçadão corrige essa interrupção e permite que a praça finalmente chegue ao Guaíra.
Ficar no Centro
A obra também combina com uma questão recorrente quando se fala em recuperar o Centro de Curitiba: não basta levar pessoas até a região. É preciso oferecer condições para que elas fiquem.
O Centro concentra teatros, universidades, bares, restaurantes, comércio, patrimônio histórico e outros equipamentos culturais. Ainda assim, durante décadas, boa parte de seus espaços foi organizada principalmente para circulação, inclusive de automóveis.
O entorno do Guaíra tem uma característica especialmente interessante. O teatro leva centenas de pessoas ao Centro justamente à noite, quando boa parte do comércio já fechou. Em dias de grandes espetáculos, esse movimento pode chegar aos milhares.
Uma área pública confortável diante do teatro permite que esse público chegue antes, permaneça depois das apresentações e ocupe a região de outra maneira. Evidentemente, um calçadão sozinho não resolve os problemas do Centro, mas ajuda a tornar um de seus pontos mais movimentados muito mais convidativo para quem está a pé.
Curitiba conhece bem esse tipo de escolha. Quando a Rua XV de Novembro começou a ser transformada em calçadão, em 1972, retirar os carros de uma via importante também provocou resistência. Hoje, seria difícil imaginar o Centro sem ela.
Uma quadra da Conselheiro Laurindo não terá a dimensão histórica da transformação da Rua XV, e nem precisa ter. O princípio, porém, continua válido: há trechos da cidade nos quais reservar espaço aos carros simplesmente faz menos sentido do que entregá-lo às pessoas.
A quadra entre o Guairão e a Santos Andrade é um desses lugares.
Com previsão de conclusão até o fim do ano, a obra vai corrigir uma divisão que a própria utilização cotidiana do espaço já mostrava ser pouco lógica. Guaíra, Santos Andrade e UFPR continuarão sendo lugares diferentes, com funções diferentes. Só deixarão de ter uma rua separando aquilo que, urbanisticamente, funciona muito melhor junto.