Avanço de Augusto Cury expõe fragilidade de Flávio Bolsonaro, não necessariamente cansaço com a polarização

O crescimento de Augusto Cury nas pesquisas presidenciais divulgadas nesta segunda-feira (31) abriu espaço para uma interpretação imediata: parte do eleitorado estaria cansada da polarização e procurando uma alternativa a Lula e ao bolsonarismo. Essa parcela existe e ajuda a explicar o desempenho do candidato do Avante. Mas os números mostram outro movimento com maior nitidez: Cury cresceu principalmente sobre Flávio Bolsonaro.

Na pesquisa BTG/Nexus, Cury chegou a 11% das intenções de voto, um avanço de nove pontos em relação à rodada anterior. Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro, com 33%. Ao analisar a movimentação do eleitorado, o instituto identificou que quatro dos nove pontos conquistados por Cury vieram de Flávio Bolsonaro. Outros dois vieram de Lula e dois de Romeu Zema. Flávio foi, portanto, a principal origem individual dos votos que impulsionaram Cury.

O levantamento ouviu 2.005 eleitores por telefone entre 28 e 30 de agosto, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08900/2026.

A AtlasIntel/Bloomberg registra movimento semelhante. Lula aparece com 43,4%, Flávio com 33,7%, Cury com 7,8% e Renan Santos com 7,6%. Foram entrevistadas 5.014 pessoas entre 25 e 30 de agosto, por recrutamento digital. A margem de erro é de um ponto percentual e o nível de confiança, de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-07972/2026.

As metodologias são diferentes e os percentuais dos dois levantamentos não devem ser comparados diretamente. O ponto comum está na direção do movimento: Cury avançou enquanto Flávio perdeu terreno.

Isso torna insuficiente explicar a subida do escritor apenas pelo cansaço com a polarização. Se o fenômeno fosse uma fuga equivalente dos dois polos, seria razoável esperar uma perda semelhante de Lula e Flávio. Não foi o que a BTG/Nexus encontrou. O candidato que mais cedeu votos para Cury foi justamente Flávio Bolsonaro.

O problema de Flávio

A dificuldade acompanha sua candidatura desde a pré-campanha.

Flávio Bolsonaro recebeu praticamente tudo que uma candidatura poderia desejar como ponto de partida: o sobrenome que organiza a direita brasileira desde 2018, a estrutura do PL, a indicação de Jair Bolsonaro e uma base eleitoral nacional já formada. Mesmo assim, sua candidatura não produziu entre aliados o entusiasmo que acompanhava o pai.

Há uma diferença evidente entre os dois. Flávio não tem o carisma de Jair Bolsonaro.

O ex-presidente desenvolveu uma forma muito particular de comunicação política. Seus improvisos, agressividade, piadas, provocações e sucessivos absurdos faziam parte da conexão pessoal construída com seus seguidores. Flávio é um político muito mais convencional e, até agora, não apresentou uma personalidade eleitoral capaz de produzir mobilização semelhante.

Também não construiu uma narrativa própria para sustentar o suposto “legado” bolsonarista — palavra que, considerando o saldo do governo Jair Bolsonaro, merece permanecer entre aspas. Sua principal credencial eleitoral continua sendo a condição de filho do ex-presidente.

E esse pode ser exatamente o problema revelado pelo crescimento de Cury. Uma parcela do eleitorado estava com Flávio porque ele era o candidato disponível do bolsonarismo, e não necessariamente porque estivesse convencida por sua candidatura. Quando surgiu outra opção, parte dela migrou.

As dificuldades de Flávio apareceram até mesmo dentro do núcleo familiar que durante anos funcionou como uma das principais estruturas políticas do bolsonarismo.

Em junho, a disputa entre Flávio e Michelle Bolsonaro, mulher de Jair Bolsonaro e uma das figuras com maior capacidade de mobilização entre mulheres e evangélicos na direita, tornou-se pública. Michelle publicou vídeos nas redes sociais acusando o enteado de tê-la desrespeitado e maltratado durante uma discussão sobre as articulações eleitorais do PL no Ceará. Disse ter recebido uma “punhalada” e afirmou que Flávio lhe recomendara ficar fora das decisões partidárias. O conflito se prolongava desde o fim de 2025 e produziu trocas públicas de críticas entre integrantes da família Bolsonaro.

A crise posteriormente entrou numa trégua. Em julho, Flávio e Michelle anunciaram uma reconciliação pública e, em agosto, a ex-primeira-dama afirmou que os dois haviam colocado “uma pedra” sobre a desavença.

O episódio, porém, teve importância política. Michelle não é uma personagem lateral no bolsonarismo. Durante o governo do marido e principalmente na campanha de 2022, ganhou projeção própria entre o eleitorado conservador feminino e evangélico. A Reuters apontou, durante a crise, que o conflito complicava justamente a tentativa de Flávio de ampliar sua presença entre as mulheres, segmento em que enfrenta dificuldades eleitorais.

Se a transferência da liderança de Jair Bolsonaro para o filho fosse natural, seria razoável esperar que ao menos o núcleo político mais próximo estivesse organizado desde o início em torno da candidatura. Não foi o que aconteceu. Flávio precisou administrar publicamente divergências dentro da própria família enquanto tentava convencer o restante da direita de que era o sucessor natural do pai.

A relação com o Centrão reforçou a mesma dificuldade. Especialmente no Nordeste, lideranças e candidatos de partidos que poderiam integrar uma aliança nacional de direita preferiram preservar relações com Lula ou manter distância do palanque presidencial de Flávio.

Na primeira viagem de campanha do candidato do PL à região, lideranças importantes do Centrão ficaram fora de suas agendas. Em diferentes estados, aliados locais priorizaram suas próprias conveniências eleitorais e evitaram uma vinculação automática com Flávio no primeiro turno.

A postura tem lógica eleitoral. Jair Bolsonaro conseguia oferecer aos aliados uma base mobilizada e uma candidatura presidencial capaz de transferir votos. Flávio ainda precisa provar que consegue fazer o mesmo.

Os números de rejeição acrescentam outro problema. Na AtlasIntel/Bloomberg, Flávio tem 52,7% de rejeição, praticamente o mesmo patamar de Lula, com 52%. Augusto Cury registra apenas 18,5%.

Flávio enfrenta, assim, uma combinação particularmente difícil: carrega uma rejeição comparável à dos principais protagonistas da polarização sem demonstrar até agora a mesma capacidade do pai de transformar o sobrenome Bolsonaro em mobilização eleitoral.

Cury encontrou espaço

Isso não significa que o crescimento de Augusto Cury possa ser reduzido à fraqueza de Flávio.

Existe uma parcela do eleitorado cansada da polarização, e Cury reúne características favoráveis para capturá-la. Nunca ocupou cargo eletivo, tem rejeição muito baixa e chega à eleição conhecido por sua trajetória como escritor, psiquiatra e palestrante.

Há ainda uma percepção, entre parte de seu público, de que Cury é um intelectual. Essa classificação é bastante discutível quando submetida aos critérios da produção acadêmica, mas eleitoralmente interessa a imagem construída junto ao público. Milhões de pessoas conhecem seu nome e seus livros sem associá-lo aos desgastes tradicionais da política.

Cury chega à eleição conhecido sem carregar o desgaste de quem já governou, votou projetos, participou de coalizões ou precisou tomar decisões impopulares. Sua baixa rejeição está relacionada também a essa condição: milhões de brasileiros sabem quem ele é, mas ainda não tiveram motivos políticos concretos para rejeitá-lo.

Seu desempenho entre os jovens reforça a necessidade de acompanhar o fenômeno. Na BTG/Nexus, Cury chega a 22% entre os eleitores de 16 a 24 anos. Seu voto, porém, ainda é pouco consolidado: 59% dizem estar decididos, contra 85% entre os eleitores de Lula e Flávio.

É um eleitorado disponível. Pode crescer rapidamente, como aconteceu agora, e pode mudar novamente com a mesma velocidade quando Cury passar a receber o escrutínio reservado aos candidatos competitivos.

O que Cury defende

Esse escrutínio precisa incluir seu programa de governo.

A leitura do documento mostra que a imagem de candidato sem posição ideológica definida não corresponde exatamente às propostas apresentadas.

O próprio plano afirma que sua “mente valoriza os pilares econômicos e institucionais mais sólidos da direita” e associa esse campo a valores como liberdade econômica, meritocracia, produtividade, responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.

Na economia, Cury estabelece como objetivo perseguir déficit público próximo de zero, defende controle rigoroso dos gastos, redução gradual da dívida e uma ampla reforma administrativa. O texto fala em simplificação das estruturas estatais, modernização das carreiras e mecanismos permanentes de avaliação de desempenho dos servidores.

Na infraestrutura, o programa parte do diagnóstico de que o Estado brasileiro não dispõe sozinho dos recursos necessários para realizar todos os investimentos e prevê ampliar concessões e parcerias público-privadas.

Há uma orientação liberal bastante clara nesses pontos, embora combinada com políticas sociais e presença estatal em outras áreas.

Cury defende o SUS, investimentos públicos em educação e ciência, políticas para mulheres, expansão do crédito, cooperativismo e proteção aos vulneráveis. Seu programa fala em um “capitalismo humanizado”, conciliando liberdade econômica, eficiência estatal e proteção social.

A conta, porém, não está suficientemente explicada.

O mesmo programa que estabelece déficit próximo de zero e redução da dívida anuncia uma quantidade considerável de novos investimentos. O chamado Banco do Empreendedor, por exemplo, teria um fundo inicial entre R$ 30 bilhões e R$ 50 bilhões. Também estão previstas expansões em ciência, tecnologia, saúde, infraestrutura digital, crédito, educação e outras áreas.

O documento detalha objetivos, mas é menos preciso sobre as escolhas necessárias para financiá-los. Quais despesas seriam reduzidas para alcançar déficit próximo de zero? Quais estruturas seriam atingidas pela reforma administrativa? De onde sairiam os recursos para ampliar simultaneamente tantos investimentos?

Outro ponto merece escrutínio. Conceitos e métodos desenvolvidos pelo próprio Augusto Cury aparecem convertidos em políticas públicas ao longo do programa.

A “Gestão da Emoção”, associada à sua atividade profissional, está presente na educação e na saúde. Na proposta de saúde digital, por exemplo, pacientes que aguardassem atendimento teriam acesso a conteúdos inspirados nessa metodologia, incluindo vídeos, exercícios de respiração e orientações sobre ansiedade e estresse.

Na educação, o programa apresenta uma “Metodologia Psicoativa”, atribuída ao próprio Cury, e prevê sua utilização na política para estudantes neurodivergentes.

A discussão sobre saúde mental e educação socioemocional é necessária. Mas a transformação de métodos associados profissionalmente ao próprio candidato em programas nacionais exige evidências independentes de eficácia, critérios técnicos claros e explicações sobre eventuais conflitos de interesse.

O que as pesquisas mostram

Augusto Cury já deixou de ser uma candidatura que pode ser tratada como curiosidade. Seu crescimento em dois levantamentos divulgados no mesmo dia exige atenção, e seu programa precisa receber o escrutínio correspondente.

Também existe eleitor cansado da polarização. A baixa rejeição de Cury, sua ausência de carreira política e a imagem de outsider ajudam a explicar por que ele consegue alcançá-lo.

Mas isso não explica sozinho o movimento desta segunda-feira.

Na pesquisa em que é possível acompanhar a migração dos votos, Flávio Bolsonaro foi quem mais alimentou o crescimento de Cury. Dos nove pontos conquistados pelo candidato do Avante, quatro vieram do candidato do PL. Lula perdeu dois.

O dado combina com uma sequência de dificuldades anteriores. Flávio teve problemas para consolidar apoios no Centrão, encontrou resistência entre lideranças regionais e chegou a enfrentar uma disputa pública com Michelle Bolsonaro dentro do próprio núcleo familiar. Agora, quando apareceu uma alternativa com capacidade de disputar uma parcela desse eleitorado, foi justamente sua candidatura que apresentou a maior perda.

Cury pode estar capturando parte do cansaço com a polarização. Mas, até aqui, encontrou uma brecha especialmente grande no lado bolsonarista.

Jair Bolsonaro construiu durante anos uma relação pessoal com seu eleitorado. Flávio recebeu o sobrenome, o partido, a indicação do pai e o chamado “legado”.

Os votos, como começa a mostrar Augusto Cury, são uma herança bem menos automática.

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