O candidato à presidência Romeu Zema (Novo) escolheu Carlos Lacerda como referência nesta quinta-feira (1º), ao compartilhar nos stories uma frase do ex-governador da Guanabara: “As vozes não se calarão enquanto não se fizer justiça e não se restabelecer o império da lei”.
A escolha chama atenção pelo personagem citado. Lacerda esteve no centro de alguns dos episódios mais tensos e desestabilizadores da política brasileira do século 20. Fez oposição feroz a Getúlio Vargas, liderou setores que tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek e apoiou o golpe de 1964 contra João Goulart.
Zema, que já garantiu em entrevista ao Roda Viva não ser uma pessoa “beliscosa” — querendo dizer belicosa —, buscou desta vez inspiração justamente em um político cuja trajetória foi marcada por confrontos permanentes e pela defesa de saídas de força em momentos decisivos da vida institucional brasileira. A gafe “beliscosa”, aliás, foi registrada à época pela imprensa e virou motivo de chacota nas redes.
De Vargas a Juscelino
Carlos Lacerda fez da Tribuna da Imprensa uma das principais trincheiras de oposição ao segundo governo de Getúlio Vargas. A FGV registra que, após o atentado da rua Tonelero, em agosto de 1954, ele intensificou a campanha pela saída do presidente. A crise terminou com o suicídio de Vargas em 24 de agosto daquele ano.
No ano seguinte, Lacerda voltou ao centro de uma crise institucional. Após a vitória de Juscelino Kubitschek nas eleições de 1955, setores da UDN liderados por ele passaram a pregar abertamente um golpe militar para impedir a proclamação e a posse do presidente eleito. A posse de JK só foi garantida depois da reação de setores legalistas das Forças Armadas.
Do “império da lei” ao apoio ao golpe
A contradição histórica da frase compartilhada por Zema aparece com ainda mais força quando se chega a 1964.
Lacerda, então governador da Guanabara, apoiou a deposição de João Goulart e participou da articulação civil que respaldou a intervenção militar. O golpe derrubou um presidente constitucional e abriu caminho para uma ditadura que duraria 21 anos.

Lacerda romperia posteriormente com o regime, sobretudo quando ficou claro que as eleições presidenciais diretas não seriam retomadas no prazo esperado e que sua própria candidatura à Presidência seria inviabilizada. Esse rompimento posterior, porém, não elimina seu apoio inicial à ruptura de 1964.
Por isso, a frase sobre “justiça” e “império da lei” ganha um sentido particular quando associada à trajetória de Lacerda. Trata-se de um político que, quando resultados eleitorais e governos contrariavam seus interesses, esteve ligado a movimentos que buscaram interromper a própria ordem institucional que dizia defender.