Vice de Flávio foi criado dentro da família Collor e virou conselheiro do ex-presidente

Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), cresceu em uma família profundamente ligada ao ex-presidente Fernando Collor de Mello. Seu pai, Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça, foi um dos principais conselheiros políticos da família Collor e passou quase cinco décadas ocupando posições de confiança nas Organizações Arnon de Mello (OAM), conglomerado de comunicação que controlava a TV Gazeta de Alagoas, durante décadas afiliada da Rede Globo.

A proximidade vinha de duas gerações. Carlos Mendonça foi conselheiro de Arnon de Mello, pai de Fernando Collor, e posteriormente assumiu o mesmo papel junto ao futuro presidente da República. Participou de campanhas eleitorais, colaborou na elaboração de discursos e esteve próximo de decisões políticas importantes, inclusive durante a ascensão de Collor à Presidência, em 1990.

Em artigo publicado em maio de 2020, o jornalista Célio Gomes, que trabalhou durante anos nas empresas da família, descreveu Mendonça como o principal conselheiro de Arnon de Mello e relatou a continuidade dessa relação com Fernando Collor.

Segundo Gomes, o pai do atual candidato a vice-presidente exercia influência superior à de muitos diretores do conglomerado. Enquanto executivos eram substituídos, ele permanecia na estrutura empresarial e política dos Collor.

O jornalista também recordou a participação de Mendonça nas campanhas da família, nas quais orientava candidatos e chegava a redigir discursos. Sua autoridade decorria da relação de confiança construída durante décadas, que se manteve mesmo diante das crises políticas enfrentadas por Fernando Collor.

Em 2005, Carlos Mendonça assumiu a presidência do Conselho Estratégico das Organizações Arnon de Mello. Também presidiu o Instituto Arnon de Mello, outra entidade pertencente à estrutura institucional da família. Permaneceu ligado ao grupo até sua morte, em maio de 2020, aos 82 anos, vítima da Covid-19.

Alfredo Gaspar nasceu em 1970 e teve a infância, a adolescência e parte da formação profissional durante o período em que seu pai ocupava cargos de confiança nas empresas dos Collor. A atividade profissional de Carlos Mendonça, desenvolvida por décadas dentro do conglomerado familiar, integrava o sustento da família do atual candidato a vice-presidente.

A ligação sobreviveu ao impeachment

Fernando Collor assumiu a Presidência em março de 1990 e, logo no início do mandato, determinou o bloqueio de depósitos bancários e aplicações financeiras. A medida, conhecida como confisco da poupança, atingiu milhões de brasileiros, incluindo aposentados, trabalhadores, comerciantes e empresas.

Em 1992, denúncias de corrupção envolvendo Paulo César Farias, o PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Collor, provocaram uma crise que culminou no impeachment. O presidente renunciou antes da conclusão do julgamento no Senado, mas teve os direitos políticos suspensos por oito anos.

Carlos Mendonça continuou ao lado da família Collor.

Em 2010, quando Fernando Collor disputou novamente o governo de Alagoas, foi o pai de Alfredo Gaspar quem assumiu a coordenação da campanha. A atuação está registrada em reportagens da época, inclusive na cobertura da decisão da Justiça Eleitoral que proibiu Collor de utilizar os nomes de Lula e Dilma Rousseff em seu jingle eleitoral.

A relação também se manifestou fora das campanhas. Quando Fernando Collor foi eleito para a Academia Alagoana de Letras, Carlos Mendonça atuou como seu representante e porta-voz em atividades ligadas à instituição.

Décadas depois do impeachment, a ligação política alcançou a geração seguinte.

Em 27 de setembro de 2022, durante um debate promovido pela TV Gazeta, Fernando Collor, novamente candidato ao governo de Alagoas, anunciou que pretendia nomear Alfredo Gaspar secretário de Segurança Pública caso fosse eleito.

“Por isso, eu gostaria de anunciar que o meu próximo secretário de Segurança Pública em Alagoas será o doutor Alfredo Gaspar de Mendonça”, declarou o ex-presidente.

Na mesma intervenção, Collor reafirmou os valores que dizia defender: “Deus, Pátria, Família, Liberdade”.

O anúncio ocorreu durante a campanha em que Alfredo Gaspar concorria a deputado federal pelo União Brasil. Collor acabou derrotado na disputa pelo governo estadual, enquanto Gaspar foi eleito para a Câmara dos Deputados.

A escolha anunciada em rede de televisão demonstra que a proximidade política entre as famílias não terminou com a morte de Carlos Mendonça. O próprio Fernando Collor pretendia incorporar seu filho ao primeiro escalão de um eventual governo.

Collor e os Bolsonaro

A aproximação entre Fernando Collor e a família Bolsonaro também é anterior às eleições de 2026.

Em novembro de 2020, durante uma cerimônia em Alagoas, Jair Bolsonaro elogiou publicamente o ex-presidente, afirmando que Collor era um homem que lutava pelos interesses do Brasil.

Dois anos depois, no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Collor declarou apoio à reeleição de Jair Bolsonaro contra Lula.

“Esse é o momento de buscarmos os indecisos, reforçar as nossas bandeiras e escolher a melhor opção para o bem do Brasil. Estamos com Bolsonaro presidente!”, declarou o ex-presidente.

Em 2026, Flávio Bolsonaro escolheu como companheiro de chapa Alfredo Gaspar, filho de um dos conselheiros mais próximos da família Collor.

O vínculo familiar ganha relevância diante de outros episódios que aproximaram o noticiário político de 2026 de personagens e práticas investigadas em escândalos anteriores, especialmente as relações entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz.

Willer Tomaz e a comparação com PC Farias

As investigações envolvendo Willer Tomaz, advogado e empresário próximo de Flávio Bolsonaro, levaram jornalistas a estabelecer paralelos com Paulo César Farias, o tesoureiro de Fernando Collor.

PC Farias foi personagem central das denúncias de corrupção que provocaram a queda de Collor em 1992. Quatro anos depois, em junho de 1996, foi encontrado morto ao lado da namorada, Suzana Marcolino, em uma casa de praia em Alagoas. O episódio tornou-se um dos casos criminais mais controversos da história política brasileira.

Em 2026, Willer Tomaz passou a ser investigado pela Polícia Federal por suspeitas relacionadas a movimentações financeiras, lavagem de dinheiro e possíveis repasses de recursos provenientes das fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.

O advogado mantém uma relação de amizade com Flávio Bolsonaro, que inclui viagens internacionais, encontros familiares e vínculos identificados em documentos bancários obtidos pelos investigadores.

Em outubro, reportagem do UOL revelou que mensagens eletrônicas encontradas pela Polícia Federal indicavam a existência de uma conta bancária vinculada à empresa Alcazar Holdings, em Portugal, na qual Flávio aparecia com acesso associado à estrutura empresarial de Willer Tomaz.

Uma funcionária do advogado solicitou ao banco Santander, em maio de 2025, a exclusão do acesso de Flávio à conta. A Polícia Federal apura as circunstâncias desse vínculo.

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam manter negócios irregulares em conjunto.

Outra reportagem, publicada pela Folha de S.Paulo em 15 de outubro, revelou que uma empresa de apostas vinculada ao advogado pagou voos em aeronaves executivas utilizados por Flávio Bolsonaro e familiares durante viagens entre Portugal e França, em 2025.

Os pagamentos foram feitos por meio da Cathedral, empresa sediada na Ilha da Madeira e proprietária da Rede Loto, operadora de apostas conhecida como BestBet.

A Rede Loto foi a primeira empresa a obter autorização para operar apostas esportivas no Brasil, concedida em maio de 2023 pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).

A presidência da autarquia era ocupada por Hazenclever Cançado, cuja indicação ao cargo foi atribuída a Flávio Bolsonaro por fontes ouvidas pela Folha. A Loterj informou que a autorização à empresa respeitou os requisitos legais.

Segundo os documentos analisados pela Polícia Federal, ao menos três trechos de viagens internacionais em jatos executivos foram contratados pela Cathedral para Flávio e Willer.

O advogado afirmou que os deslocamentos eram viagens de lazer entre amigos e que os custos foram pagos pessoalmente por ele, sem qualquer contrapartida. Flávio declarou que sua relação com Tomaz é exclusivamente de amizade.

A empregada doméstica e os negócios milionários

As suspeitas envolvendo Willer Tomaz também alcançam o patrimônio imobiliário e a administração de suas empresas.

Uma investigação dos jornalistas Alice Maciel e Paulo Motoryn, publicada pelo ICL Notícias em parceria com a newsletter Noites Húngaras, identificou uma ex-funcionária do escritório do advogado, que trabalha como empregada doméstica, registrada formalmente na direção de pelo menos 14 empresas ligadas a Tomaz.

Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, aparecia em documentos como administradora e presidente de empresas relacionadas a propriedades milionárias, ao setor de apostas e à aviação executiva.

Entre os bens associados às empresas estão uma mansão avaliada em aproximadamente R$ 10 milhões e uma ilha estimada em R$ 17 milhões, ambas em Angra dos Reis, além de um hangar em Brasília.

Localizada pelos jornalistas, Lídia disse desconhecer a atuação empresarial atribuída a seu nome.

A Polícia Federal investiga se ela foi utilizada como laranja na administração dos negócios de Willer Tomaz, isto é, se figurava formalmente à frente de empresas cujo controle efetivo seria exercido por outras pessoas.

A defesa do advogado contesta a suspeita, afirma que Lídia possui formação em administração e nega irregularidades nas estruturas societárias.

O patrimônio em Angra dos Reis também é objeto de uma disputa que envolve o jogador Richarlison.

O atacante afirmou ter investido aproximadamente R$ 10 milhões em uma mansão na Ilha Comprida e acusou Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz de participação em uma manobra que teria resultado na perda do imóvel.

A propriedade passou ao controle de uma empresa ligada ao advogado. Flávio nega participação irregular, enquanto Tomaz sustenta que a transferência decorreu de decisões judiciais e contesta as acusações feitas pelo jogador.

A controvérsia provocou um pedido de investigação ao Ministério Público Federal.

As investigações do INSS e os documentos do STJ

Willer Tomaz também é investigado no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura o esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários.

As suspeitas incluem movimentações financeiras e possíveis repasses de recursos originados das fraudes contra aposentados e pensionistas.

Em 19 de outubro, o UOL revelou outra frente da investigação: segundo a Polícia Federal, um ex-servidor do Superior Tribunal de Justiça (STJ) teria encaminhado ao escritório de Tomaz minutas de decisões judiciais e documentos sigilosos antes de sua divulgação oficial.

Os investigadores apuram também o possível acesso antecipado a pareceres do Ministério Público Federal e a utilização dessas informações na atuação do escritório.

O advogado nega ter praticado irregularidades ou obtido vantagens indevidas.

As revelações foram publicadas em meio à campanha presidencial, quando a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz já havia sido exposta por documentos bancários e registros de viagens.

“PC Farias é amador perto de Willer Thomaz”

O jornalista e escritor Xico Sá, que acompanhou as investigações sobre PC Farias durante os anos 1990, está entre os profissionais que estabeleceram comparações entre o antigo tesoureiro de Collor e Willer Tomaz.

Autor do livro O Tesoureiro, publicado em 2026, Xico Sá escreveu em uma postagem na rede social X:

“PC Farias é amador perto de Willer Thomaz”.

Em outra publicação, o jornalista relacionou o caso ao Banco Master e aos precatórios do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool.

“Primeiro, parte da grana do Master veio dos precatórios do Instituto do Açúcar e do Álcool do governo Collor. Em segundo, a ligação de Flávio Bolsonaro/Willer lembra Collor/PC Farias. Por fim, a equipe econômica de Flávio diz que não terá corte na área social. Será?”

As declarações representam a interpretação do jornalista sobre os episódios e suas semelhanças históricas. Os fatos investigados em 2026 não constituem, por si, comprovação de que existiu uma organização criminosa equivalente à do caso PC Farias.

Fernando Collor, por sua vez, voltou a ser condenado pela Justiça décadas depois do impeachment. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal o condenou a oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em um esquema envolvendo contratos da BR Distribuidora. A execução da pena começou em abril de 2025.

O candidato a vice de Flávio Bolsonaro é filho do homem que aconselhou duas gerações da família Collor, trabalhou por quase 50 anos em suas empresas e coordenou uma campanha do ex-presidente depois do impeachment.

Fernando Collor, que também apoiou Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, anunciou publicamente Alfredo Gaspar como integrante de um eventual governo naquele mesmo ano.

A trajetória dos Mendonça junto aos Collor está registrada em reportagens, documentos empresariais, campanhas eleitorais e declarações públicas. É uma ligação que ajuda a explicar a história política do candidato escolhido para acompanhar Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República em 2026.

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