Luta de classes e identidade: é possível superar essa tensão na esquerda?

A questão é mais complexa do que parece à primeira vista: ou a exploração econômica estrutura tudo e as demais opressões dela derivam, ou existem formas de dominação que não se reduzem à classe e exigem resposta própria. O que a história mostrou é que as duas posições têm problemas. Experiências revolucionárias que transformaram a estrutura material preservaram hierarquias de gênero, raça e sexualidade. Políticas de reconhecimento desvinculadas de redistribuição foram incorporadas pelo mercado sem dificuldade. E enquanto a esquerda ancora esse debate em termos teóricos ou se divide sobre ele, a direita descobriu que disputar valores, pertencimento e identidade rende mais votos do que um programa econômico, e passou a pautar eleições com exatamente as questões que a esquerda tem dificuldades em como  tratar.

Singapura, Maluf e o que a habitação revela sobre o Estado no Brasil

Quando Paulo Maluf lançou, nos anos 1990, o Projeto Cingapura em São Paulo, a referência a Singapura era explícita: a promessa era substituir favelas por conjuntos verticalizados, dando à cidade uma imagem de modernização rápida por meio da habitação. Anos depois, o Minha Casa Minha Vida levaria a política habitacional brasileira a uma escala muito superior, alcançando milhões de famílias em todo o país. As três experiências partem da mesma ideia geral — usar a moradia como instrumento de reorganização social —, mas produzem resultados profundamente diferentes porque operam em bases estatais distintas.