Luta de classes e identidade: é possível superar essa tensão na esquerda?

Rio de Janeiro (RJ), 15/11/2024 - Manifestantes se reunem em protesto pelo fim da jornada de trabalho 6 x 1, na Cinelândia, centro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A questão é mais complexa do que parece à primeira vista: ou a exploração econômica estrutura tudo e as demais opressões dela derivam, ou existem formas de dominação que não se reduzem à classe e exigem resposta própria. O que a história mostrou é que as duas posições têm problemas. Experiências revolucionárias que transformaram a estrutura material preservaram hierarquias de gênero, raça e sexualidade. Políticas de reconhecimento desvinculadas de redistribuição foram incorporadas pelo mercado sem dificuldade. E enquanto a esquerda ancora esse debate em termos teóricos ou se divide sobre ele, a direita descobriu que disputar valores, pertencimento e identidade rende mais votos do que um programa econômico, e passou a pautar eleições com exatamente as questões que a esquerda tem dificuldades em como  tratar.

O Brasil de 2026 oferece um dado concreto que complica o impasse. O debate em torno do fim da escala 6×1 mobilizou algo que parecia difícil: uma pauta trabalhista clássica com apoio popular massivo, superando fronteiras eleitorais, geracionais e religiosas. Com 71% de aprovação nas pesquisas Datafolha de março de 2026 — número que cresceu de 64% em dezembro de 2024 — e 80% segundo a Nexus, a proposta colocou a direita numa posição que ela raramente enfrenta: a de defender abertamente os interesses patronais contra uma demanda de qualidade de vida sentida por milhões de trabalhadores. 

Os argumentos contra repetem, como observou o ministro Guilherme Boulos, “os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário e férias” — o caos econômico, o desemprego, a quebra de empresas. São os mesmos argumentos que a história descartou sistematicamente.

O ponto de partida mais honesto para esse debate, ao menos no Brasil, é Florestan Fernandes. Em A Revolução Burguesa no Brasil, ele mostra que a burguesia brasileira se constituiu por fusão com as velhas estruturas de poder herdadas da colônia e do período escravocrata, sem precisar fazer a ruptura democrática que marcou as burguesias europeias clássicas. 

O que importou foi “preservar as condições extremamente favoráveis de acumulação originária, herdadas da Colônia” e engendrar ao lado delas condições modernas de acumulação. Florestan chamou isso de caráter autocrático da dominação burguesa: “entre as elites das classes dominantes havia um acordo tácito quanto à necessidade de manter e de reforçar o caráter autocrático da dominação burguesa, ainda que isso parecesse ferir a filosofia da livre empresa, as bases legais da ordem e os mecanismos do Estado representativo.”

Esse arranjo tem consequências diretas para a questão racial. Os libertos e ex-escravos foram lançados na ordem competitiva “em condições peculiares” — enfrentando a concorrência dos imigrantes, o tratamento discriminativo dos empregadores, e a ausência de qualquer condição econômica, social e política mínima para disputar em igualdade. O trabalho livre foi submetido, escreve Florestan, “a um processo de corrupção secular” que começou por negar-lhe solidariedade estamental e terminou negando-lhe solidariedade de classes. O capitalismo brasileiro converteu “vários requisitos da ordem social competitiva em privilégios fechados”. Raça e classe se constituíram juntas aqui, numa arquitetura de exclusão que o fim jurídico da escravidão não desarmou.

Isso já aponta algo que o marxismo clássico nem sempre resolve: certas hierarquias têm história própria, sedimentação cultural e formas de reprodução que não desaparecem com a transformação das relações de produção. A experiência soviética ilustra isso. Os primeiros anos da revolução produziram avanços reais: legalização do aborto em 1920, reconhecimento jurídico de igualdade entre os sexos, Alexandra Kollontai defendendo que a emancipação feminina exigia romper a dependência doméstica como categoria econômica. O regime estalinista reverteu parte desses avanços. O aborto foi criminalizado em 1936, a família restabelecida como célula moral do Estado, a homossexualidade repenalizada. 

II.

É nesse ponto que Chantal Mouffe localiza o problema central da esquerda contemporânea. Em Hegemonia e Estratégia Socialista, escrito com Ernesto Laclau em 1985, ela narra que o livro nasceu da seguinte constatação: “A incapacidade da política de esquerda, nas suas versões marxista e social-democrata, de levar em conta uma série de movimentos que surgiram na sequência das revoltas de 1968 e que corresponderam a resistências contra diversas formas de dominação, as quais não podiam ser formuladas em termos de classe. A segunda onda do feminismo, o movimento gay, as lutas antirracistas e as questões em torno do meio ambiente transformaram profundamente o panorama político, mas os partidos da esquerda tradicional não foram receptivos a tais demandas, cujo caráter político foram incapazes de reconhecer.”

O que Mouffe chama de “essencialismo de classe” — a perspectiva segundo a qual “as identidades políticas seriam a expressão da posição dos agentes sociais nas relações de produção” — produziu uma esquerda incapaz de reconhecer como política aquilo que não cabia na gramática do trabalho industrial. Ela é explícita sobre o que a proposta alternativa não significa: “ao contrário de algumas leituras desonestas do nosso argumento, isso não significa que privilegiamos as demandas dos novos movimentos às custas das da classe operária. O que nós enfatizamos foi a necessidade da política de esquerda articular as lutas de diferentes formas de subordinação sem atribuir uma centralidade a priori a qualquer uma delas.”

Em Por um Populismo de Esquerda, Mouffe documenta o custo desse abandono ao analisar o thatcherismo. Enquanto a esquerda britânica esperava que a deterioração das condições econômicas a devolvesse ao poder, Thatcher “intervinha em diversas frentes — econômica, política e ideológica — para reconfigurar discursivamente o que era, naquele momento, considerado o ‘senso comum'”. Stuart Hall descreveu o thatcherismo como um “populismo autoritário” que combinou “os temas ressonantes do conservadorismo orgânico — nação, família, dever, autoridade, padrões, tradicionalismo — com os temas agressivos de um neoliberalismo revivido”. O Partido Trabalhista, “prisioneiro de sua visão economicista e essencialista, foi incapaz de compreender a necessidade de uma política hegemônica”. Quando voltou ao poder em 1997 com Tony Blair, havia incorporado tão profundamente a hegemonia neoliberal que nem mesmo tentou questioná-la.

III.

O que começou como aprendizado britânico dos anos 1980 virou o roteiro padrão da direita global. Trump, Bolsonaro, Orbán, Meloni: todos construíram maioria eleitoral não sobre plataformas econômicas coerentes, mas sobre disputas de valor, identidade e pertencimento. A família, a nação, a religião, a rejeição ao que chamam de “ideologia de gênero” — essas são as categorias em torno das quais a direita contemporânea organiza seu eleitorado. Parte das pessoas mobilizadas por esse discurso são exatamente aquelas que mais sofrem com a desestruturação econômica promovida pelas mesmas forças que as mobilizam identitariamente.

Nancy Fraser nomeou esse fenômeno com precisão. Em O Velho Está Morrendo e o Novo Não Pode Nascer, ela cunhou o conceito de “neoliberalismo progressista” para descrever a aliança que se consolidou especialmente nos Estados Unidos: a convergência entre correntes liberal-individualistas do feminismo, do antirracismo e da luta pelos direitos LGBTQ+ com as forças que promoviam o neoliberalismo econômico. “Havia uma afinidade eletiva entre a visão meritocrática de ’emancipação’ que pregava ‘quebrar o teto de vidro’ e o ethos do mercado livre.” O efeito foi que o progressismo forneceu cobertura ideológica para o avanço neoliberal, enquanto os ganhos materiais para a maioria das pessoas que essas correntes afirmavam representar foram mínimos. “Os negros nos Estados Unidos ainda enfrentam enormes assimetrias — na verdade, crescentes — no que diz respeito ao sistema de justiça criminal, empregos, moradias”, escreve Fraser. “A realidade é que o neoliberalismo progressista não produziu muitos ganhos materiais reais para a esmagadora maioria das pessoas.”

A direita populista soube explorar esse vazio. Em sua análise da campanha de Trump em 2016, Fraser identifica ali uma visão pró-classe trabalhadora — por mais cínica que fosse — ligada ao etnonacionalismo. O bannonismo projetou a classe trabalhadora como “homens brancos na condição de operários fabris, mineradores, petroleiros”, enquanto “a real classe trabalhadora é altamente diversificada em termos de etnia, cor, gênero, sexualidade.” Fraser aponta a possibilidade que essa operação bloqueou: bastaria reimaginar a classe trabalhadora em sua composição real — trabalhadores de serviços, domésticos, rurais, imigrantes, mulheres — para construir uma força social completamente diferente.

O debate brasileiro em torno da escala 6×1 oferece, nesse contexto, algo raro: um caso em que a pauta trabalhista clássica e a pauta de qualidade de vida se fundem numa mesma demanda com enraizamento popular real. São 14 milhões de brasileiros que trabalham sob essa escala, com apenas um dia de descanso semanal — concentrados exatamente nos setores de menor renda e menor escolaridade, segundo dados do próprio governo. A proposta tocou algo que vai além do cálculo salarial: o direito ao tempo, à família, ao corpo, à saúde mental. Em 2025, o Brasil registrou mais de 4 milhões de afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho, com aumento de 143% nos casos de transtornos mentais. A escala 6×1 não é apenas uma questão econômica — é uma questão de reprodução social, no sentido preciso que Nancy Fraser usa o termo.

IV.

O problema mais fundo, que Fraser desenvolve em Teoria da Reprodução Social, é que o marxismo clássico tratou como externas à contradição principal certas dimensões que são constitutivas do próprio capitalismo. A tese central é que “o subsistema econômico do capitalismo depende de atividades sociorreprodutivas externas a ele, que formam uma de suas condições básicas de existência.” O trabalho de cuidado, de criação de filhos, de manutenção de comunidades — “chamado de cuidado, trabalho afetivo ou subjetivação, essa atividade forma os sujeitos humanos do capitalismo, sustentando-os como seres naturais corporificados.” Nenhuma sociedade que mina sistematicamente essa reprodução pode resistir por muito tempo, e o capitalismo financeirizado contemporâneo está fazendo exatamente isso.

A contradição relevante, escreve Fraser, não está apenas dentro da economia capitalista, mas “na fronteira que simultaneamente separa e conecta produção e reprodução.” Ao subordinar essa fronteira à lógica de acumulação ilimitada, o capitalismo “desestabiliza os próprios processos sociais dos quais o capital depende.” A crise do cuidado, a sobrecarga das mulheres, a devastação de comunidades, a violência contra corpos racializados não são expressões simbólicas derivadas — são produtos de contradições estruturais do sistema. Fraser insiste, porém, que “a crise da reprodução social não é autônoma e não pode ser compreendida adequadamente por si só.” As lutas que redesenham o limite entre economia e sociedade, produção e reprodução, mercado e vida “são tão centrais para as sociedades capitalistas quanto as lutas de classes analisadas por Marx.”

É precisamente aqui que o debate em torno da escala 6×1 ganha densidade teórica. A resistência patronal e da direita parlamentar ao fim da escala não é nova — repete um padrão secular de oposição a qualquer limitação da exploração do trabalho. O que é novo é a dificuldade política que essa posição gera. A direita que se consolidou eleitoralmente pela captura de pautas de valor e identidade se vê obrigada, nesse caso, a defender abertamente o interesse do patronato contra uma demanda de dignidade com 71% de aprovação popular.

 O presidente do União Brasil chegou a admitir em evento com empresários que era preciso “inteligência” para evitar que deputados e senadores que disputam a reeleição tivessem que votar contra a pauta. A esquerda raramente coloca a direita nessa posição — e quando consegue, é porque encontrou uma pauta que articula classe, corpo, cuidado e tempo de vida numa mesma demanda concreta.

V.

A crítica marxista a Mouffe, e em certa medida a Fraser, tem substância. Ellen Meiksins Wood, em The Retreat from Class, argumenta que ao deslocar o eixo para a construção discursiva do político, Mouffe perde a capacidade de explicar por que certos conflitos existem, não apenas como eles se articulam. Essa crítica ganha força empírica quando se observa o que aconteceu com parte das políticas identitárias nas últimas décadas: empresas celebram diversidade enquanto mantêm exploração, governos ampliam reconhecimento simbólico sem alterar estrutura social.

A oligarquia que Florestan descreveu, contudo, nunca precisou de nenhuma pauta identitária para exercer dominação. Ela selecionou “a luta de classes e a repressão do proletariado como o eixo da Revolução Burguesa no Brasil” — e ao mesmo tempo preservou a hierarquia racial como instrumento funcional de acumulação, sem que isso gerasse nenhuma contradição interna visível. A hipótese de que basta resolver a contradição econômica principal para que essas hierarquias se dissolvam não tem amparo nem na história brasileira nem nas experiências socialistas do século XX.

As eleições que foram decididas nos últimos anos — nos Estados Unidos, no Brasil, na Hungria, na Itália — não foram decididas primariamente por plataformas econômicas. Foram decididas por quem soube mobilizar com mais eficácia questões de pertencimento, de ameaça cultural e de identidade. Parte da esquerda que insiste em tratar essas questões como secundárias está entregando esse terreno para a direita.

VI.

O impasse em que a esquerda se encontra não é falta de teoria. A pergunta “classe ou identidade?” pressupõe que essas dimensões competem pelo mesmo espaço político, quando o que a experiência histórica mostra é que elas se constituem mutuamente. No Brasil, isso tem endereço preciso. A violência policial que abate majoritariamente jovens negros nas periferias não se explica sem desigualdade econômica, mas também não se explica apenas por ela — carrega a herança que Florestan descreveu: o ex-escravo que entrou no mercado competitivo sem condições de disputar, cujo corpo continuou sendo gerido pelo Estado como ameaça a controlar. O trabalho doméstico não remunerado que recai sobre mulheres negras não é injustiça apenas simbólica — é o que Fraser chamaria de condição estrutural da reprodução do mercado, o trabalho que o capitalismo precisa e não paga. A devastação das terras indígenas não é conflito ambiental isolado — é a continuidade histórica de um padrão de acumulação por espoliação que Florestan rastreou desde a colônia.

A síntese que ainda falta é política. Fraser a enuncia ao propor reimaginar a classe trabalhadora “interseccionalmente — não restrita a uma maioria étnica branca de homens heterossexuais, trabalhadores de manufatura e da mineração, mas englobando todas essas outras ocupações — remuneradas e não remuneradas — e englobando massivamente imigrantes, mulheres e negros.” Uma classe trabalhadora assim concebida não precisaria escolher entre redistribuição e reconhecimento, porque as duas dimensões constituem a mesma realidade de exploração.

O debate em torno da escala 6×1 sugere que esse tipo de articulação é possível quando a pauta consegue conectar corpo, tempo, renda e cuidado numa demanda que as pessoas sentem concretamente. Segundo o governo, as jornadas mais extensas estão concentradas entre trabalhadores de menor renda e menor escolaridade — e a proposta é também, por isso, “uma medida de redução de desigualdades no mercado de trabalho”. Não é coincidência que o apoio seja de 83% entre jovens de 16 a 24 anos, a geração que mais vocalizou o debate nas redes e que mais sofre com a sobreposição de precarização, ausência de tempo e adoecimento mental.

O problema permanece em como produzir uma linguagem capaz de conectar precarização do trabalho, violência racial, crise do cuidado e subordinação de gênero de modo que essa conexão mova pessoas, não apenas convença intelectuais. A direita já respondeu a essa pergunta à sua maneira, unindo ressentimentos heterogêneos numa narrativa de povo ameaçado por elites progressistas. A esquerda ainda procura uma resposta que não repita o economicismo que ignorou metade da experiência social, nem o identitarismo que fragmentou o que precisava ser articulado. O 6×1 mostra que quando encontra essa resposta, a direita fica sem chão.

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