A edição de maio de 2026 da revista piauí coloca o Porto de Paranaguá no centro de um sistema financeiro sob investigação nacional. Na reportagem “A Simbiose”, assinada por Ana Clara Costa, o caso do Banco Master é apresentado não como um episódio isolado, mas como parte de uma engrenagem que articula fundos de investimento, operadores financeiros e recursos de origem ilícita para inflar ativos e adquirir bens reais.
Entre esses ativos, segundo a revista, está uma área no Porto de Paranaguá. O texto afirma que o mesmo modelo utilizado em outras operações — baseado em fundos de fachada e estruturas criadas para contornar exigências regulatórias — foi aplicado com sucesso no litoral paranaense, e que o grupo envolvido permanece como proprietário da área até hoje.
A reportagem também aponta que esse sistema operava com recursos de origem ilícita, incluindo valores provenientes de atividades investigadas no setor de combustíveis e associadas ao crime organizado. Nesse contexto, o mercado financeiro não aparece apenas como ambiente de circulação de capital, mas como estrutura capaz de absorver e processar esses recursos dentro de mecanismos formais.
Outro elemento destacado pela piauí é a ausência de responsabilização institucional. Segundo a revista, há um impasse entre órgãos públicos sobre quem deve responder pelo caso. O Ministério de Portos e Aeroportos atribui a responsabilidade à Portos do Paraná, a empresa estatal remete à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), e a agência não respondeu aos questionamentos. A situação descrita é de um caso que permanece em aberto, mesmo após a conexão com um esquema financeiro de alcance nacional.
A matéria registra ainda que Cleiton Santos Santana, apontado como participante do esquema e controlador do Grupo BSO, foi recebido pelo governador Ratinho Jr. em agenda pública no período anterior à revelação das investigações. Não há indicação de relação direta entre o encontro e as operações investigadas, mas o episódio evidencia a circulação institucional de agentes ligados ao caso.
As revelações da piauí reorganizam informações que já vinham sendo divulgadas de forma fragmentada nos últimos anos. Em 2025, reportagem da CNN mostrou que o terminal PAR50, em Paranaguá, estava sob investigação por operações envolvendo fundos de investimento. No mesmo período, o tema foi levado ao debate político no estado pelo deputado estadual Arilson Chiorato (PT), que questionou a transparência da aquisição e cobrou explicações sobre a estrutura financeira do negócio.
Também em 2025, a CNN revelou que o Porto de Paranaguá foi utilizado como rota para entrada irregular de metanol em um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis com participação de integrantes do PCC. Segundo as investigações, os recursos gerados por essas operações eram posteriormente lavados por meio de empresas de fachada, fintechs e fundos de investimento.
Uma reportagem publicada pela BBC News Brasil, em setembro de 2025, acrescentou novos elementos ao apontar que o Grupo BSO — ligado à Liquipar e à Stronghold — assumiu o controle do terminal PAR50 após a compra da empresa vencedora do leilão. A BBC também registrou que o grupo é investigado sob suspeita de integrar a estrutura logística de operações ligadas ao PCC, hipótese negada pelas empresas.
Já em 2024, o mesmo empreendimento havia sido apresentado publicamente como parte de um investimento estratégico no estado. À época, a Liquipar anunciou aporte de R$ 572 milhões para expansão do terminal de granéis líquidos no Porto de Paranaguá, em parceria com o governo estadual e com foco na exportação de biocombustíveis. O valor é o mesmo posteriormente associado ao ativo sob investigação, indicando tratar-se da mesma operação.
Ao reunir esses elementos, a reportagem da piauí altera o enquadramento do caso no Paraná. O que antes aparecia como uma investigação pontual sobre um terminal passa a ser compreendido como parte de um sistema mais amplo, no qual fluxos financeiros, operações no setor de combustíveis e aquisição de ativos estratégicos se conectam.
Apesar da sucessão de reportagens e investigações, o caso segue sem desfecho. A área no Porto de Paranaguá permanece sob controle do grupo citado, enquanto as responsabilidades continuam indefinidas entre os órgãos públicos envolvidos.