Enquanto Nova York enfrenta os ricos, Curitiba combate os pobres

Nova York decidiu abrir supermercados públicos para reduzir o preço da comida. Curitiba, que gosta de se apresentar como “cidade inteligente” retirou um restaurante popular do Centro para instalar um módulo da Guarda Municipal.

As duas cidades convivem com aumento do custo de vida, pressão imobiliária e crescimento da população em situação de rua. As respostas dadas pelos governos seguem direções opostas.

Em Nova York, o prefeito Zohran Mamdani decidiu transformar o custo de vida em conflito político aberto com o mercado imobiliário e os ultra-ricos. Aos 34 anos, o socialista eleito no fim de 2025 iniciou o mandato defendendo taxação sobre imóveis de luxo, aumento de impostos para grandes fortunas e medidas para conter a pressão da especulação imobiliária sobre trabalhadores comuns.

Nos primeiros meses de governo, Mamdani apresentou proposta de taxação sobre imóveis milionários e segundas residências de alto padrão, estimada em cerca de US$ 500 milhões anuais. Também iniciou audiências públicas contra abusos praticados por proprietários, reorganizou estruturas municipais de proteção a inquilinos e colocou em andamento a criação de supermercados públicos subsidiados em regiões populares da cidade. O pacote inclui ainda expansão de creches gratuitas e contenção de reajustes em apartamentos regulados.

A ideia central do novo governo nova-iorquino é simples: enfrentar diretamente as engrenagens econômicas que tornaram a cidade inviável para trabalhadores de renda média e baixa.

Curitiba enfrenta parte dos mesmos problemas, mas escolheu outro alvo.

A capital paranaense teve a maior alta do Brasil nos preços de imóveis residenciais em 2024, segundo o índice FipeZAP. Também aparece entre as cidades com custo de vida mais alto do mundo em rankings internacionais. O aluguel dispara, morar perto do trabalho vira privilégio e o acesso à cidade se torna cada vez mais difícil para trabalhadores pobres.

Ainda assim, o debate dominante na prefeitura não gira em torno de taxar especulação imobiliária, ampliar habitação popular – apesar de algumas ações de regularização fundiária, reconheça-se, mas muito aquém do necessário – ou reduzir o custo de vida.

A energia política está concentrada na rua. Nesta semana, a gestão Eduardo Pimentel passou a endurecer abordagens contra pessoas em situação de rua. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito percorre a região central acompanhado pela Guarda Municipal e pela Fundação de Ação Social. “Se quer ficar em Curitiba, tem que trabalhar”, afirma a um homem que dormia na rua. Em outro momento, declara que quem não aceitar acolhimento “tem que andar” e “ir embora da cidade”.

A prefeitura também realizou as primeiras internações involuntárias de pessoas em situação de rua após nova portaria municipal. Servidores relataram pressão por encaminhamentos sem critérios técnicos claros e aumento das abordagens voltadas à internação.

Na mesma linha, o restaurante popular Mesa Solidária Luz dos Pinhais foi removido da região próxima à Praça Tiradentes para dar lugar a um módulo da Guarda Municipal.

Enquanto isso, a estrutura de assistência social do município acumula denúncias de precarização.

Há um déficit superior a 130 servidores nas casas de passagem de Curitiba. Trabalhadores relatam sobrecarga, assédio moral e incapacidade de atender adequadamente a demanda crescente da cidade.

Outra denúncia revelou infestação de percevejos em unidades de acolhimento destinadas à população vulnerável. Moradores relataram feridas, picadas e problemas recorrentes de higiene em hotéis sociais e casas de passagem.

É nesse ponto que o discurso da “cidade inteligente” começa a desmoronar.

Curitiba consolidou internacionalmente a imagem de cidade inovadora, organizada e eficiente. Mas uma cidade realmente inteligente enfrentaria as causas da exclusão urbana — explosão imobiliária, precarização da moradia, desigualdade territorial e colapso da assistência social.

O que se vê hoje é outra lógica.

Nova York, símbolo histórico do mercado financeiro e da especulação imobiliária, passou a discutir taxação de milionários para financiar comida, aluguel acessível e permanência urbana. Curitiba responde à própria crise social com patrulhamento, remoção e endurecimento contra os mais vulneráveis.

No fim, as duas cidades parecem partir de diagnósticos completamente diferentes. Uma entende que a cidade ficou cara demais para o trabalhador. A outra parece acreditar que o problema são os pobres continuarem aparecendo nela.

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