Enquanto o governo Ratinho Jr. sustenta publicamente que a Celepar enfrenta risco de obsolescência, um documento confidencial apresentado a investidores na Faria Lima descreve a companhia como uma empresa “altamente lucrativa”, com “fortes vantagens competitivas” e potencial para se tornar “a primeira big tech do Paraná”.
A informação foi revelada nesta sexta-feira (9) pela jornalista Lauro Jardim, em reportagem publicada no jornal O Globo. Segundo a coluna, os materiais do chamado “Projeto NEX” — nome atribuído ao processo de privatização da estatal — foram usados pelo Bradesco BBI em apresentações a investidores do mercado financeiro.
De acordo com a reportagem, o material de roadshow apresenta a Celepar como uma “joia” do setor govtech brasileiro, destacando indicadores financeiros robustos. O balanço oficial da empresa registrou receita líquida de R$ 556,9 milhões e lucro de R$ 210,7 milhões em 2025. Já os documentos apresentados pelo banco apontam margem EBITDA de 30,6% e margem líquida de 26,8% em 2024, além de rentabilidade superior à de empresas comparáveis do setor.
A revelação reforça críticas feitas há meses pela oposição no Paraná. O líder da oposição na Assembleia Legislativa, Arilson Chiorato, e a líder do PT na Alep, Ana Júlia Ribeiro, estão entre os parlamentares que vêm denunciando a falta de transparência no processo de venda da estatal e os riscos envolvendo dados sensíveis da população paranaense.
Em setembro de 2025, parlamentares da Bancada de Oposição protocolaram no Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) um pedido para retirada do sigilo do processo de privatização da Celepar. No documento, deputados argumentaram que a ausência de transparência impedia o acesso a informações relevantes sobre a venda da companhia.
Na ocasião, a oposição alertou que a Celepar administra dados sensíveis de milhões de paranaenses, incluindo informações de saúde, educação, segurança pública e servidores estaduais. O grupo também argumentou que a privatização poderia comprometer a soberania digital do Estado.
Em junho de 2025, a Liderança da Oposição na Assembleia Legislativa, comandada por Arilson Chiorato, divulgou nota pública afirmando que o governo Ratinho Jr. conduzia o processo “de maneira opaca”, além de denunciar a renovação antecipada de contratos bilionários da companhia antes mesmo da conclusão do leilão. Segundo a nota, a Celepar mantinha cerca de R$ 2,25 bilhões em contratos com o Estado.
O documento também apontava preocupação com a transferência de dados da população para controle privado. Entre os exemplos citados estavam prontuários médicos, históricos escolares, registros policiais, dados fiscais e informações sociais de cidadãos paranaenses.
Já em março deste ano, Ana Júlia voltou a criticar a tramitação acelerada de projetos ligados à privatização da empresa na Assembleia Legislativa. Em manifestação pública, a deputada afirmou que o debate sobre a Celepar envolve “dados, soberania digital, algoritmos e segurança da informação”, além de acusar a base do governo de atropelar o debate legislativo.
O processo de privatização da Celepar segue cercado de controvérsias políticas e jurídicas. O leilão da empresa chegou a ser suspenso por decisão cautelar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que apontou necessidade de garantias mais rigorosas para proteção de dados e preservação do controle estatal sobre sistemas estratégicos.
A revelação de que a empresa é apresentada ao mercado financeiro como uma operação altamente lucrativa aprofunda a contradição entre o discurso oficial do governo estadual e a forma como a Celepar vem sendo oferecida a investidores privados.