De Arábia a um distrito colapsado pela mineração: exploração do trabalho, desemprego e contradições do Brasil

Exibido na Mostra Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema, A Noite e os Dias de Miguel Burnier acompanha a vida de moradores de um distrito minerário de Ouro Preto marcado pelo desemprego, pelo esvaziamento populacional e pelas consequências de décadas de exploração mineral. Dirigido por João Dumans, parceiro de Affonso Uchoa em Arábia, o documentário foi filmado ao longo de quatro anos e parte de uma situação concreta de violência social para construir um retrato de pessoas que seguem vivendo, criando vínculos e tentando encontrar sentido em meio ao abandono.

Em entrevista ao Revérbero, Dumans falou sobre a relação entre Miguel Burnier e Arábia, as transformações do mundo do trabalho e o longo processo de realização do filme.

Confira o que o Revérbero já escreveu sobre Arábia.

Confira o que o Revérbero escreveu sobre A noite e os dias em Miguel Burnier.

Revérbero — É sua primeira participação no Olhar de Cinema com um filme na programação?

João Dumans — É a primeira vez que eu venho com um filme meu, mas já participei de equipes de outros trabalhos exibidos aqui. Trabalhei em Vizinhança do Tigre e em Sete Anos em Maio, que passaram pelo festival.

Para mim é um prazer enorme estar aqui. O Olhar de Cinema é um festival muito diverso. Estou com um documentário e acho muito interessante exibi-lo dentro de uma mostra competitiva que reúne ficções, documentários e filmes experimentais. Gosto da ideia de que esses trabalhos possam ser vistos juntos, como diferentes formas de falar sobre a realidade do país e sobre o nosso imaginário.

Revérbero — Quem assistiu a Arábia inevitavelmente encontra alguns pontos de contato com Miguel Burnier. Como você enxerga essa relação?

João Dumans — Tem tudo a ver. Mas, na verdade, Miguel Burnier é um filme sobre pessoas sem trabalho.

São pessoas que vivem ao lado de uma planta de mineração, num distrito responsável por cerca de metade da arrecadação tributária de Ouro Preto, e que estão desempregadas. O filme nasce desse contraste entre a vida das pessoas que vivem próximas à mineração e os frutos produzidos por essa atividade.

Ele dialoga com Arábia, mas também em outros níveis. Os dois filmes observam personagens brasileiros cujas trajetórias e cuja inteligência expressam muito bem as contradições do país.

O meu interesse está nas pessoas. Não apenas nos processos políticos e sociais, mas nos sujeitos que vivem essas histórias e conseguem formular com muita inteligência as próprias dificuldades, as próprias violências das quais são vítimas.

Mas também existe alegria. Existe vida. Talvez Miguel Burnier seja mais duro do que Arábia em certo sentido, porque estamos lidando com uma situação concreta e real. Ao mesmo tempo, houve uma tentativa de mostrar também a força, a beleza e a resiliência dessas vidas.

Revérbero — Em Arábia, a opressão aparece por meio da exploração do trabalho. Em Miguel Burnier, ela surge justamente da ausência dele. Essa discussão voltou a ocupar um lugar importante na sociedade?

João Dumans — Acho que sim. Talvez tenha demorado um pouco.

Em Arábia a gente já falava disso. Havia uma certa cegueira em relação aos rumos que o próprio universo do trabalho estava tomando. Uma desagregação das comunidades constituídas em torno do trabalho, precarização, desmontes de direitos.

Hoje esse processo está mais evidente. A gente já sente os danos de algo que foi sendo instalado ao longo dos anos.

A discussão sobre a escala 6×1 conseguiu criar um espaço em que o trabalho passou a ser debatido levando em consideração o bem-estar do trabalhador. Isso aconteceu de maneira muito ampla e muito consensual entre os próprios trabalhadores. Acho que foi um avanço importante.

Revérbero — Recentemente, Arábia apareceu em lista da Folha de São Paulo dos maiores filmes brasileiros já realizados. Como você recebe esse tipo de reconhecimento?

João Dumans — Eu recebo com alegria porque isso dá novas vidas ao filme.

O cinema brasileiro vive hoje um momento de renovação do interesse do público, ainda que isso possa crescer muito mais. Quando um filme reaparece numa lista dessas, ele volta a circular. Pessoas que nunca tinham ouvido falar dele acabam chegando até a obra.

Os filmes têm várias vidas.

A gente viveu um momento muito bonito quando Arábia foi lançado, mas ele continua encontrando caminhos para ser visto, comentado e redescoberto. Isso é algo que nos deixa muito felizes.

O filme que nasceu de uma denúncia

Durante o debate realizado após a sessão no Olhar de Cinema, João Dumans contou detalhes sobre a origem de A Noite e os Dias de Miguel Burnier.

Segundo o diretor, a ideia surgiu após uma exibição de Arábia em Ouro Preto. Ao final da sessão, uma pessoa da plateia comentou que o filme a fazia lembrar de Miguel Burnier, um distrito sobre o qual, segundo ela, ninguém falava.

A observação ficou na cabeça do cineasta.

Nascido em Ouro Preto, Dumans contou que nunca havia visitado o distrito. Quando decidiu conhecer a localidade, encontrou uma situação que ajudou a definir o rumo do projeto.

“Eu cheguei numa cancela da Gerdau e o segurança perguntou o que eu procurava. Eu disse que estava indo para Miguel Burnier. E ele respondeu: ‘Aqui não tem distrito. Aqui é Gerdau’.”

Para o diretor, aquela resposta sintetizava algo que já estava acontecendo no território.

O projeto começou como uma tentativa de registrar uma situação de violência social que ele considerava invisibilizada. A ideia inicial era realizar um filme de denúncia.

Mas os anos de convivência com os moradores acabaram transformando a obra.

“O filme continuou sendo uma denúncia, mas passou a ser também um filme sobre amizade e sobre a vida.”

Filmado durante quatro anos e montado ao longo de outros três, Miguel Burnier foi sendo construído aos poucos, a partir da observação do cotidiano da comunidade.

Dumans contou que acumulou centenas de horas de material e que a montagem, realizada ao lado de Affonso Uchoa, foi uma das etapas mais difíceis do processo.

O desafio era encontrar uma forma de mostrar os efeitos da mineração e do abandono sem reduzir os moradores à condição de personagens de uma tese política.

No resultado final, permanecem o desemprego, a falta de perspectivas e a sensação de esvaziamento que marcam a comunidade. Mas também aparecem os vínculos de amizade, os momentos de humor, os afetos e as estratégias encontradas pelos moradores para seguir vivendo.

É justamente dessa tensão que surge a força do documentário: um filme sobre uma comunidade em colapso, mas também sobre as pessoas que insistem em existir dentro dela.

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