Filipe Barros atuou para beneficiar Banco Master e pressionar BC e CVM, revela O Globo

Brasília (DF), 19/03/2025 - Deputado Filipe Barros foi eleito presidente da comissão de relações Exteriores. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Levantamento publicado pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, aponta que o deputado federal paranaense Filipe Barros (PL), aliado próximo da família Bolsonaro e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara, utilizou o mandato e a estrutura do colegiado para apresentar iniciativas que beneficiariam diretamente o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, enquanto a instituição enfrentava uma crise que culminaria em sua liquidação.

Segundo a reportagem, entre novembro de 2024 e setembro de 2025, Barros apresentou sete requerimentos, um projeto de lei e promoveu uma audiência pública envolvendo temas de interesse do banco, ao mesmo tempo em que pressionava o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e agentes considerados desafetos de Vorcaro.

A revelação adiciona um novo capítulo ao escândalo que envolve o Banco Master, Daniel Vorcaro, políticos bolsonaristas, integrantes do mercado financeiro e órgãos de regulação.

Projeto reproduziu proposta ligada ao Master

Um dos pontos destacados pela reportagem é a apresentação, por Filipe Barros, de um projeto de lei que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que garantia parte dos investimentos captados pelo Master.

O texto reproduzia proposta semelhante à chamada “Emenda Master”, defendida anteriormente pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). Conforme revelou O Globo, a medida poderia dar fôlego ao banco, que oferecia remunerações muito acima das praticadas pelo mercado, mas também ampliaria significativamente a exposição do fundo garantidor.

Posteriormente, investigações apontaram que a proposta originalmente apresentada por Ciro teria sido redigida por funcionários do próprio Banco Master e entregue ao senador a pedido de Daniel Vorcaro.

Barros afirmou ao jornal que considerava a proposta uma “boa ideia” e negou ter discutido o tema com Vorcaro ou com Ciro Nogueira.

Pressão sobre Banco Central e CVM

A reportagem mostra ainda que o parlamentar utilizou a presidência da Comissão de Relações Exteriores para convocar debates envolvendo o Banco Central e a CVM, apesar de os temas terem pouca relação com as atribuições tradicionais do colegiado.

Em junho de 2025, Filipe Barros convidou o presidente da CVM, João Pedro Nascimento, para discutir o impacto da regulação do mercado de capitais na soberania econômica nacional e, simultaneamente, o conflito entre Irã e Israel. Também buscou levar à comissão o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sob o argumento de debater ataques ao sistema Pix.

Naquele período, o Banco Central já investigava irregularidades relacionadas ao Master e discutia internamente se a instituição deveria ser liquidada ou se haveria uma alternativa de mercado.

João Pedro Nascimento compareceu à audiência e, segundo a reportagem, enfrentou forte pressão dos parlamentares. Dias depois, renunciou ao comando da CVM antes do término do mandato. Pessoas próximas ao então presidente da autarquia relataram que ele se sentia ameaçado e atribuíam parte do desgaste ao tratamento recebido na comissão presidida por Filipe Barros.

Ataques a rivais do Master

O Globo também relata que Barros direcionou questionamentos à Previc e ao Ministério da Fazenda envolvendo decisões que afetavam interesses de rivais do Master.

Um dos casos dizia respeito ao BTG Pactual, considerado no mercado um dos principais concorrentes de Daniel Vorcaro. O deputado apresentou requerimentos questionando decisões regulatórias relacionadas à Ambipar, empresa que esteve no centro de disputas envolvendo investidores ligados ao Master e ao empresário Nelson Tanure.

De acordo com a reportagem, parte das iniciativas do parlamentar coincidia com interesses defendidos por Vorcaro e por aliados do banqueiro.

Relação com Eduardo Bolsonaro

A matéria também resgata declarações públicas de Eduardo Bolsonaro, que deixou a presidência da Comissão de Relações Exteriores e foi substituído por Filipe Barros.

Em transmissão ao vivo citada por O Globo, Eduardo afirmou que continuaria influenciando os rumos da comissão por meio do aliado paranaense.

“Eu acho que o Filipe Barros vai fazer uma grande presidência da Comissão de Relações Exteriores, é uma pessoa próxima. Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo”, declarou o deputado.

Na mesma fala, Eduardo afirmou que Barros levaria adiante as pautas que ele próprio pretendia implementar.

O que diz Filipe Barros

Ao jornal, o deputado negou qualquer irregularidade e afirmou jamais ter recebido recursos de Daniel Vorcaro. Também sustentou que suas iniciativas foram motivadas pelo interesse em temas ligados ao mercado financeiro e pela discordância em relação ao atual modelo de autonomia do Banco Central.

Barros defendeu ainda que questões econômicas e financeiras podem ser discutidas no âmbito da Comissão de Relações Exteriores por estarem ligadas à soberania nacional.

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