A deputada federal e candidata ao Senado Gleisi Hoffmann (PT-PR) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma representação contra influenciadores e perfis que defendem o fim ou a restrição do voto feminino. Protocolada nesta terça-feira (15), a ação pede a retirada de publicações e, nos casos de reiteração comprovada, a suspensão temporária dos perfis responsáveis.
A representação reúne manifestações feitas em redes sociais, podcasts e programas publicados em plataformas digitais. Entre os conteúdos questionados estão declarações de que mulheres votariam pior do que homens, de que o sufrágio feminino teria sido um erro e propostas para substituir o voto individual pelo chamado “voto familiar”.
Um dos casos citados é o do influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou em junho que mulheres “votam muito mal”. Para Gleisi, manifestações como essa não devem ser analisadas apenas como episódios isolados, mas dentro de um conjunto de discursos que colocam em questão a participação política das mulheres.
“As mulheres conquistaram o direito de votar e de participar da vida política depois de muita luta. Não podemos aceitar que discursos machistas nos levem de volta ao passado ou questionem a nossa capacidade de decidir os rumos do país. Essa página da história já foi virada e não pode ser reaberta. Nós avançamos e não podemos permitir retrocessos”, afirmou Gleisi.
Ação pede preservação dos dados
Além da retirada dos conteúdos, a representação pede que as plataformas preservem as publicações e informações técnicas relacionadas a alcance, impulsionamento e monetização. A medida permitiria conservar os registros mesmo nos casos em que o conteúdo seja posteriormente removido.
O pedido de liminar é direcionado aos conteúdos individualizados que, segundo a representação, efetivamente defendam a supressão, redução ou subordinação do voto feminino. Nos casos em que houver reiteração comprovada, Gleisi pede a suspensão temporária dos perfis.
A ação argumenta que o objetivo não é impedir discussões sobre voto, família ou modelos de democracia. O pedido é para que cada publicação seja analisada individualmente e que sejam retirados os conteúdos que busquem restringir direitos políticos em razão do sexo.
A representação sustenta ainda que a legislação eleitoral aplicável às eleições de 2026 passou a tratar expressamente da violência política contra a mulher e utiliza as normas eleitorais como fundamento para pedir a atuação do TSE.
“Voto familiar” e Partido Missão
Outro ponto da representação envolve o Partido Missão e o chamado Livro Amarelo.
A discussão sobre o “voto familiar” aparece no sexto fascículo do material. Em julho, a Folha de S.Paulo mostrou que Orlando Lima, uma das lideranças do partido, escreveu sobre a proposta de “democracia familiar”, modelo que coloca a família como unidade política. No mesmo fascículo, Lima também discute a possibilidade de uma renda básica condicionada à renúncia voluntária ao direito de voto.
Na ação apresentada ao TSE, Gleisi pede que o Missão apresente a íntegra do sexto fascículo e esclareça sua autoria, as formas de divulgação e uma eventual utilização do conteúdo pela campanha presidencial.
O partido contesta a interpretação de que essas formulações representem sua proposta eleitoral. Questionado anteriormente pela Folha, o candidato à Presidência Renan Santos afirmou que o conteúdo não constituía uma proposta partidária, mas reunia discussões e especulações sobre diferentes modelos de democracia.
A controvérsia em torno do voto feminino já havia chegado às autoridades antes da representação de Gleisi. Em julho, integrantes da Bancada Feminina da Câmara acionaram a Procuradoria-Geral da República para pedir investigação sobre declarações de Paulo Figueiredo e sobre a divulgação de teses relacionadas ao “voto familiar”.
Agora, Gleisi leva a discussão diretamente à Justiça Eleitoral e pede uma resposta durante a campanha de 2026.
“Não podemos aceitar que questionem nossa capacidade de decidir os rumos do país”, afirmou a candidata.