Sem poder voltar às ruas, Zé Dirceu ganha apoio de Lula na tentativa de retornar à Câmara

José Dirceu planejava voltar às ruas em 7 de Setembro. Não voltou.

Aos 80 anos e candidato a deputado federal por São Paulo, o ex-ministro da Casa Civil concluiu em 4 de setembro o tratamento contra um linfoma diagnosticado em maio. Os exames realizados depois da sexta e última etapa da quimioterapia indicaram remissão da doença, mas a equipe médica recomendou que permanecesse resguardado por mais quatro semanas para recuperar a imunidade.

Na prática, a orientação deve manter Dirceu longe das atividades presenciais durante praticamente toda a reta final da primeira eleição que disputa em 24 anos.

Nesta quinta-feira (17), a campanha ganhou um reforço de peso. Em vídeo publicado por Dirceu nas redes sociais, o presidente Lula pediu votos para o ex-ministro e afirmou que sua eleição para a Câmara representaria uma “reparação histórica”.

“O companheiro José Dirceu merece uma reparação. Acho que pouca gente sofreu o mal da perseguição como o José sofreu nesse país”, afirmou Lula.

O presidente também mencionou diretamente o tratamento de saúde e a impossibilidade de Dirceu fazer uma campanha presencial com a intensidade que pretendia.

“O José Dirceu teve um câncer, estava se recuperando, e o José Dirceu não pôde fazer a campanha dele com a força que o José Dirceu tem”, disse.

Ao pedir votos, Lula classificou o antigo companheiro de governo como “um dos homens mais brilhantes na política brasileira” e terminou com outra declaração sobre o período em que Dirceu permaneceu afastado da Câmara: “Vamos trazer de volta de onde ele nunca deveria ter saído”.

Dirceu respondeu ao apoio afirmando recebê-lo “com muita responsabilidade”. Em publicação nas redes, lembrou as décadas de convivência entre os dois na construção do PT e agradeceu “pela amizade, pela confiança e por tantos anos de caminhada”.

O gesto acrescenta um novo capítulo a uma relação política de mais de quatro décadas, marcada por proximidades e afastamentos e recentemente reconstruída em uma extensa reportagem da revista piauí.

Uma campanha 100% online

Antes de concluir o tratamento, Dirceu imaginava que conseguiria retornar à campanha presencial.

Em agosto, disse ao Poder360 que pretendia voltar às ruas a partir de 7 de setembro, inicialmente usando máscara por causa da baixa imunidade. O plano dependia da autorização dos médicos. Com a conclusão da quimioterapia, veio a recomendação de permanecer resguardado.

“Infelizmente, eu gostaria de ir para a rua, mas talvez depois de 4 de outubro”, afirmou.

Sem poder participar presencialmente das atividades daquele 7 de Setembro, Dirceu reagiu ao que aconteceu nas ruas.

No dia 8, publicou um vídeo em que chamou de “traidores da pátria” bolsonaristas que participaram da manifestação realizada na Avenida Paulista. O ex-ministro criticou a presença no ato de um boneco inflável do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segurando uma representação de Lula vestido de presidiário e classificou como “intervenção política” o apoio de setores da oposição a uma atuação norte-americana nos assuntos internos do Brasil.

A manifestação expôs uma circunstância incomum na trajetória de um dos principais dirigentes da história do PT: impedido de participar fisicamente da campanha, José Dirceu tenta retornar à Câmara dos Deputados fazendo política de dentro de casa.

O diagnóstico de um linfoma no duodeno veio em maio, quando Dirceu já se preparava para disputar novamente uma eleição. A quimioterapia obrigou o candidato a recalcular a estratégia.

Em entrevista à BBC News Brasil, publicada em agosto, Dirceu definiu sua campanha como “100% online”. Com a imunidade baixa e impossibilitado de manter contato com muitas pessoas, criou a Do Zé TV e o quadro Expresso do Zé, no qual passou a publicar análises e conversar remotamente com seguidores.

“Estou fazendo meio expediente”, brincou na entrevista.

À BBC, contou também que os dias seguintes às sessões de quimioterapia eram os mais difíceis. Nos outros períodos, mantinha leituras, reuniões, entrevistas e exercícios leves.

O tratamento alterou a forma da campanha, mas não interrompeu sua presença no debate político. Segundo dados fornecidos pela equipe de Dirceu e publicados pelo Poder360, nos quatro meses seguintes ao diagnóstico ele concedeu mais de cem entrevistas e participou de lives e plenárias virtuais.

Mesmo depois da conclusão da quimioterapia, a rotina permaneceu digital. Em entrevista publicada pelo UOL em 12 de setembro, Dirceu discutiu a situação do Supremo Tribunal Federal, reforma do Judiciário, governo Lula, PT e eleições. O veículo registrou que o candidato seguia fazendo campanha virtual em razão das restrições de saúde.

24 anos depois

A última vez em que José Dirceu disputou votos foi em 2002.

Naquele ano, foi eleito deputado federal por São Paulo e, depois da vitória de Lula na eleição presidencial, deixou a Câmara para assumir a Casa Civil. Permaneceu no cargo de 2003 a 2005.

Antes disso, havia presidido nacionalmente o PT entre 1995 e 2002 e desempenhado papel central na organização partidária e nas articulações políticas que antecederam a chegada de Lula à Presidência.

A relação entre os dois é o fio condutor do perfil publicado pela piauí neste mês. A revista reconstrói mais de quatro décadas de convivência política, passando pela formação do PT, pelas campanhas presidenciais, pela chegada ao governo e pelos períodos de aproximação e afastamento entre os dois.

Mesmo depois de anos longe de cargos de primeiro escalão, Dirceu continuou sendo procurado como interlocutor político. A reportagem também chama a atenção para o interesse de pessoas de uma geração mais jovem em suas análises — justamente um público que era criança ou sequer havia nascido quando ele viveu seu período de maior influência no primeiro governo Lula.

Seu mandato de deputado federal foi cassado pela Câmara em 2005, durante a crise do mensalão. Em 2012, Dirceu foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470 por corrupção ativa e formação de quadrilha. Posteriormente, o STF absolveu os condenados do crime de formação de quadrilha no julgamento dos embargos infringentes. Dirceu cumpriu pena pela condenação por corrupção ativa.

Anos depois, voltou a ser preso no âmbito da Operação Lava Jato. Em 2024, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, anulou os atos e condenações de Dirceu decorrentes da atuação do então juiz Sergio Moro na operação, estendendo ao ex-ministro os efeitos da decisão que havia reconhecido a parcialidade de Moro nos processos contra Lula. Com a decisão, Dirceu recuperou seus direitos políticos.

É sobre esse período que Lula agora fala ao pedir uma “reparação histórica” para o antigo aliado.

Até depois das urnas

A candidatura de 2026 representa, portanto, mais do que o retorno de Dirceu às urnas depois de 24 anos. É uma tentativa de voltar à instituição da qual saiu há 21.

Mas ocorre em condições muito diferentes das campanhas que marcaram sua trajetória.

Sua formação política aconteceu muito antes das redes sociais. Durante décadas, seu trabalho esteve associado à organização partidária, diretórios, congressos, reuniões, viagens pelo país e construção de alianças.

Em 2026, as viagens foram substituídas por videoconferências. As plenárias presenciais, por encontros virtuais. Entrevistas e vídeos passaram a ocupar parte do espaço destinado às agendas de rua.

O tratamento terminou em 4 de setembro. No dia seguinte, Dirceu anunciou publicamente a remissão ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Segundo boletim médico do Hospital Sírio-Libanês reproduzido por diferentes veículos, o tratamento foi concluído “com êxito”, mas Dirceu deveria permanecer resguardado durante as quatro semanas seguintes antes de retomar as atividades habituais.

O período praticamente coincide com o restante da campanha.

Agora, sem poder pedir votos presencialmente, Dirceu recebe de Lula um dos apoios mais simbólicos de sua tentativa de retorno.

“Ele merece o seu voto, ele merece o meu voto e ele merece o voto do povo paulista”, afirmou o presidente.

Dirceu respondeu lembrando que a história entre os dois “vem de longe” e que passaram juntos por “grandes conquistas” e “momentos muito difíceis”.

Aos 80 anos, depois de quatro meses de tratamento contra um linfoma e mais de duas décadas sem disputar uma eleição, José Dirceu tenta retornar à Câmara sem poder fazer a reta final da campanha nas ruas.

Lula, agora, pede que os eleitores façam por ele aquilo que a recomendação médica impede Dirceu de fazer pessoalmente: levar sua candidatura até o eleitor.

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