O início da campanha de Lula assustou aliados e apoiadores. Parecia solene demais. A ideia era apresentar um estadista, acima do ruído eleitoral, mas havia um problema evidente: enquanto Lula falava de grandes temas nacionais e internacionais, Flávio Bolsonaro abordava, ainda que muitas vezes de maneira simplista e inverossímil, problemas imediatamente reconhecíveis pela população.
Enquanto Flávio aparecia com um carrinho de supermercado para falar de preços, a campanha de Lula discutia soberania e minerais críticos.
Os grandes temas importam. O problema era a distância entre o discurso e a vida cotidiana.
Na última semana, a campanha de Lula parece ter percebido isso e corrigido o rumo. O presidente passou a falar mais de comida, salário, saúde, trabalho, endividamento e bets. Assuntos que entram todos os dias pela porta das casas brasileiras.
A mudança coincidiu com uma sequência de boas notícias.
Na quarta-feira (16), o Banco Central reduziu a Selic pela quinta vez consecutiva, de 14% para 13,75% ao ano. A decisão é do Copom, num Banco Central autônomo, e completou 1,25 ponto percentual de redução desde o início do atual ciclo de cortes, em março.
Na quinta-feira (17), Lula anunciou reajuste de 15,04% no Bolsa Família. O piso passa de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio, de R$ 675 para R$ 777. Segundo o governo, o reajuste recompõe pelo INPC a inflação acumulada desde março de 2023. Os novos valores começam a ser pagos em outubro.
No mesmo dia, Lula anunciou que as chamadas canetas emagrecedoras serão oferecidas gratuitamente pelo SUS para o tratamento da obesidade. O Ministério da Saúde ainda estuda a incorporação e prepara os protocolos para definir quem terá acesso aos medicamentos. Um estudo com 250 pacientes com obesidade grave já está em andamento no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre.
Juros, renda e saúde. A campanha passou a ter fatos recentes para falar de coisas que mexem com a vida das pessoas.
Isso não significa dizer que o país esteja um mar de rosas. Não está. O custo de vida pesa, o endividamento das famílias preocupa e há problemas que o governo não conseguiu resolver. Fingir que essas dificuldades não existem seria um erro.
Mas Lula também tem realizações para apresentar. A ampliação da isenção do Imposto de Renda tirou da cobrança quem recebe até R$ 5 mil mensais. Houve valorização do salário mínimo, retomada do Minha Casa, Minha Vida e fortalecimento do Farmácia Popular. Na saúde, o governo criou o Agora Tem Especialistas para reduzir as filas por consultas, exames e cirurgias.
A campanha precisava mostrar melhor como essas decisões aparecem no salário, na compra do mês, no remédio, na prestação da casa e no atendimento de saúde.
É preciso dizer que Flávio mentiu
A outra mudança importante ocorreu no enfrentamento político.
Flávio Bolsonaro tem apresentado propostas grandiosas. Uma delas é levar o SUS a um padrão comparável ao Hospital Albert Einsten, ao mesmo tempo em que fala em redução de impostos.
É legítimo querer um SUS melhor. A questão é explicar como financiar uma expansão dessa dimensão reduzindo receitas. Até agora, essa conta não está clara.
E a campanha de Lula começou a explorar um problema ainda maior: a confiabilidade da palavra do adversário.
Aqui não há necessidade de rodeios. É preciso mostrar que Flávio mentiu.
O episódio do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, oferece um caso recente para sustentar essa afirmação. Quando vieram a público as informações sobre Daniel Vorcaro e o financiamento da produção, Flávio negou ter procurado o banqueiro. Depois, admitiu que havia feito exatamente isso e pediu desculpas pela negativa.
As informações reveladas posteriormente mostraram que a relação era ainda mais extensa. Segundo documentos da investigação divulgados pela imprensa, Flávio participou diretamente das tratativas para levantar recursos para o filme e pediu valores milionários a Vorcaro.
A relevância eleitoral do episódio vai além de Dark Horse. Flávio está pedindo ao eleitor que acredite em suas promessas para os próximos quatro anos. Sua palavra, portanto, precisa ser confrontada com aquilo que ele próprio disse quando teve de responder sobre um fato do presente.
Se mudou de versão diante de um episódio verificável, a campanha adversária tem material para questionar a credibilidade das promessas que ele apresenta agora.
Esse enfrentamento faltou no começo da campanha de Lula. A disputa estava excessivamente comportada enquanto Flávio ocupava espaço com promessas de enorme apelo e pouca discussão sobre sua viabilidade.
Agora há confronto. E isso dá à eleição uma discussão que deveria existir desde o início: comparar propostas, contas, resultados e a confiabilidade de quem as apresenta.
A campanha ganhou vida
A comunicação também melhorou.
As redes de Lula estão mais animadas e perderam parte do tom solene do começo. Os programas de televisão ganharam ritmo. O uso de inteligência artificial nas aberturas tem servido para apresentar realizações e construir cenas visualmente interessantes, bem diferente do uso grosseiro e gratuito que a ferramenta muitas vezes recebe na propaganda eleitoral.
Mas a mudança que talvez tenha mais potencial está na emoção.
Começaram a circular peças com pessoas falando sobre aquilo que mudou em suas vidas nos governos Lula. Em uma delas, uma mulher lembra que dava farinha com café ao filho porque era o que tinha para comer.
A imagem é brutal justamente porque dispensa grandes explicações.
Um índice econômico pode informar que a renda aumentou. Para quem viveu a pobreza, a memória é outra: o que havia para colocar no prato, se o salário chegava ao fim do mês, se era possível comprar um remédio ou imaginar a compra da própria casa.
Esse registro emocional faltava.
Lula tem 81 anos, mais de cinco décadas de vida política e diz disputar sua última eleição presidencial. Há uma história enorme ali, mas tratá-lo como monumento seria repetir o erro do começo da campanha. Sua trajetória ganha força quando aparece ligada às histórias de quem viveu as transformações ocorridas durante seus governos.
Bets e 6×1
Lula também passou a falar das bets com mais força. As apostas on-line se transformaram num problema para milhares de famílias, com efeitos sobre renda, endividamento e saúde mental. O governo discute novas medidas para restringir o setor. Dados citados pelo Ministério da Fazenda indicam que as apostas movimentaram R$ 220,6 bilhões em 2025.
O fim da escala 6×1 também entrou com mais força no discurso de campanha.
A pauta não nasceu com Lula e tem outros defensores no Congresso, mas sua incorporação à campanha ajuda a discutir uma questão imediatamente compreensível para milhões de trabalhadores: quantos dias da semana são consumidos pelo trabalho e quanto tempo sobra para família, descanso, estudo e lazer.
É uma discussão sobre qualidade de vida que não precisa de tradução técnica.
Faltando duas semanas para a eleição, a campanha de Lula parece finalmente ter encontrado um rumo melhor.
A semana entregou fatos para explorar: o Bolsa Família aumentou, os juros caíram novamente e o governo anunciou a oferta de canetas emagrecedoras pelo SUS. Lula passou a falar de bets e da escala 6×1. A propaganda ficou mais ágil. Entraram histórias pessoais e emoção. E a campanha começou a confrontar com mais disposição as promessas e contradições de Flávio Bolsonaro.
Ainda há problemas econômicos e sociais que não desapareceram e nenhuma peça publicitária será capaz de escondê-los.
A diferença é que a campanha finalmente parece disposta a disputar a eleição onde ela de fato acontece: no preço da comida, no salário, no acesso à saúde, nas horas de trabalho e na confiança que cada candidato pede ao eleitor.