O cara da agenda do Lula: Gilberto Carvalho volta à cena

Quem acompanha o presidente Lula nas viagens desta campanha provavelmente já avistou, mesmo que de longe, ou cruzou com Gilberto Carvalho. Aos 75 anos, o ex-ministro voltou a ocupar uma função que conhece de outras eleições e dos anos em que trabalhou diretamente com o presidente: cuidar da agenda.

Isso significa acompanhar Lula nos comícios, participar da organização de cada passagem do candidato e ajudar a encaixar atos, reuniões, deslocamentos e outros compromissos em um calendário apertado. Carvalho esteve também no comício realizado em Curitiba, no dia 12 de setembro, na Boca Maldita, durante a passagem de Lula pelo Sul.

Parece uma atribuição burocrática até se considerar o que significa montar os dias de um candidato à Presidência.

São 26 estados e o Distrito Federal, aliados disputando espaço na agenda, gravações, entrevistas, encontros com movimentos sociais, reuniões políticas e eventos de rua. Cada viagem consome horas — às vezes um dia inteiro — e escolher um destino significa, inevitavelmente, deixar outros para depois.

É nesse quebra-cabeça que Carvalho trabalha. Ele é um dos integrantes da coordenação da campanha e o nome responsável pela agenda eleitoral de Lula. Não é exatamente território desconhecido.

A mesma função, 24 anos depois

Na campanha que levou Lula pela primeira vez à Presidência, em 2002, Gilberto Carvalho já trabalhava diretamente na organização de sua agenda.

Depois da vitória, a relação deixou de ser eleitoral e passou para dentro do Palácio do Planalto. Carvalho assumiu a chefia do Gabinete Pessoal da Presidência e permaneceu ao lado de Lula durante os dois primeiros mandatos, de 2003 a 2010.

A função o colocou entre os auxiliares com acesso mais direto ao presidente. A agenda, as audiências e boa parte das demandas que chegavam a Lula passavam pelo gabinete.

Quando Dilma Rousseff tomou posse, em 2011, Carvalho permaneceu no governo, agora como ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Uma de suas principais responsabilidades passou a ser a interlocução do Planalto com movimentos sociais.

Foi naquele período que apareceu uma definição que ajuda a explicar seu papel político. Carvalho contou que Dilma queria que ele funcionasse como uma espécie de “grilo falante” do governo: alguém que levasse para dentro do Planalto reivindicações e críticas vindas dos movimentos sociais.

Décadas de convivência com Lula também deram a ele algo difícil de reproduzir apenas com organogramas: conhecimento sobre a maneira como o presidente trabalha, toma decisões e reage ao cotidiano de uma campanha.

Em 2026, Carvalho estava na Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária do Ministério do Trabalho. Deixou o governo em abril para se dedicar à preparação eleitoral, inicialmente trabalhando na articulação com movimentos sociais, lideranças religiosas e aliados.

Quando a campanha entrou em sua fase mais intensa, voltou ao trabalho que já conhecia: a agenda de Lula.

Quem está em volta de Lula

Carvalho faz parte de uma estrutura maior, coordenada pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva. A campanha foi incorporando nomes e reorganizando áreas ao longo do ano, principalmente agenda, mobilização, logística e comunicação. O objetivo era montar uma estrutura capaz de acompanhar Lula nas viagens e responder ao ritmo de uma campanha presidencial sem concentrar todas as decisões em um único núcleo.

A comunicação tem funcionamento próprio. Raul Rabelo assumiu o marketing eleitoral, enquanto outros profissionais foram incorporados à operação de comunicação e às redes durante a campanha. Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PT, segue tendo papel relevante na orientação política e comunicacional da militância e dos porta-vozes do partido. Em 18 de setembro, por exemplo, foi ele quem distribuiu orientações do comando da campanha a grupos de militantes e comunicadores petistas.

Sidônio Palmeira permaneceu à frente da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, fora formalmente da estrutura eleitoral, embora tenha influência sobre a comunicação política de Lula.

Uma das figuras mais conhecidas da fase anterior da estratégia digital já não está ao redor do presidente.

Mariah Queiroz chegou à Secom em janeiro de 2025, depois de trabalhar nas redes de João Campos no Recife, e assumiu a Secretaria de Estratégias e Redes. Depois de trazer modernidade às redes do governo e do presidente, em agosto deste ano, deixou o governo e voltou a Pernambuco para comandar as redes da campanha de João Campos ao governo estadual.

Onde Lula estará amanhã?

Uma agenda presidencial nunca é apenas uma planilha. Um comício como o de Curitiba começa muito antes de Lula subir ao palco. É preciso definir a cidade e o horário, articular o roteiro com as equipes locais, encaixar os candidatos e aliados que participarão do ato, calcular deslocamentos, chegada e saída do presidente e compatibilizar tudo isso com os compromissos anteriores e seguintes.

Carvalho acompanha esse processo de perto. É visto nos comícios porque seu trabalho não termina quando a agenda é fechada: ele viaja com a campanha e participa da execução dos compromissos definidos.

Há uma curiosa simetria nisso. Quando Lula disputava a Presidência pela primeira vez com chances reais de vitória, em 2002, Gilberto Carvalho já estava às voltas com horários, viagens e compromissos do candidato. Depois vieram oito anos dentro do gabinete presidencial, um ministério no governo Dilma, outras funções partidárias e governamentais e períodos mais distantes do núcleo cotidiano do presidente.

Vinte e quatro anos depois, ele está novamente acompanhando Lula pelo país e ajudando a organizar seus dias. É o cara da agenda — aquele que, diante de uma fila interminável de pedidos, precisa ajudar a responder uma pergunta bastante concreta: onde Lula precisa estar amanhã?

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