Banco Master e o retrato de um capitalismo e extrema-direita sem freios

O escândalo do Banco Master, que domina o noticiário há meses, diz muito sobre o tempo em que vivemos e é próprio do capitalismo. Mais do que um episódio isolado do mercado financeiro, que colocou as instituições em xeque, ele expõe uma lógica predatória de funcionamento que há muito opera no Brasil e em outros países sob aparência de normalidade.

Não tem como olhar para o escândalo do Banco Master sem enxergar seus tentáculos. O que está ali é a expressão de um sistema que concentra excessos de um lado e limita vidas do outro.

E esses tentáculos chegam também à política.

Flávio Bolsonaro, candidato da extrema direita à Presidência, é formalmente investigado pela Polícia Federal por sua atuação na arrecadação de recursos para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Documentos da PF apontam que ele atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações, com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das gravações. O orçamento negociado chegou a cerca de R$ 123 milhões, e mais de R$ 61 milhões foram efetivamente captados.

A proximidade não ficou restrita ao filme. Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos para o Brasil com a família em um jato ligado a Vorcaro. O voo saiu de Fort Lauderdale e terminou em Brasília.

E Flávio não foi o único expoente do bolsonarismo a viajar nas asas de Vorcaro. Em outubro de 2022, Nikolas Ferreira percorreu o país em um avião da Prime Aviation, empresa que tinha Daniel Vorcaro entre seus donos, durante a campanha pela reeleição de Jair Bolsonaro. O jato foi usado durante dez dias, entre 20 e 28 de outubro, para percorrer capitais do Nordeste, além de Brasília e cidades de Minas Gerais. Nikolas afirma que não sabia que a aeronave estava ligada a Vorcaro.

Meses depois da revelação desses voos, vieram a público mensagens nas quais o próprio Vorcaro afirmava ter bancado as viagens de Nikolas. O deputado nega ter recebido vantagens do banqueiro.

A ostentação extravagante, os vínculos com o mercado financeiro, a ideia permanente de prosperidade ilimitada, os excessos privados convivendo com um sistema de regulação permissivo: tudo ali expõe, de forma quase didática, uma lógica em que poucos acumulam de maneira desproporcional enquanto muitos precisam viver com restrições.

A população enxerga, neste momento, um sistema tensionado também pelas notícias envolvendo a proximidade de figuras de poder com Daniel Vorcaro. Como escreveu Antonio Gramsci, a crise acontece quando o velho ainda não morreu e o novo ainda não conseguiu nascer. Nesse intervalo, surgem os fenômenos mórbidos mais variados. E a sucessão de notícias negativas contribui para ampliar essa percepção. Há quantos meses o Banco Master não domina o noticiário?

E tem o bolsonarismo, que, por razões de interesse próprio, como forma de proteger o clã Bolsonaro das consequências dos crimes investigados, sempre criticou o Supremo Tribunal Federal. Cresce o sentimento antisistema, alimentado por muitas fake news nas redes e nos grupos de WhatsApp, tentando inverter a narrativa.

Bertolt Brecht perguntava: “Que é assaltar um banco comparado a fundar um banco?” O Banco Master é a caricatura de um modelo econômico que o neoliberalismo e a extrema direita sempre defenderam. A acumulação de riqueza em escala absurda e a ostentação sem limite também são expressão desse mesmo modelo predatório: milhões em shows e festas privadas, com direito a bandas como Coldplay, mansões de preços inimagináveis no exterior, todo tipo de luxo levado ao excesso.

No Paraná, esse tipo de lógica também encontra terreno conhecido. O apresentador Ratinho foi sócio do empreendimento Tayayá, resort de luxo instalado em área ambientalmente sensível às margens do Rio Paraná, cujo licenciamento recebeu aval do próprio Estado mesmo diante de questionamentos do Ministério Público Federal. Coube ao governo de Ratinho Júnior recorrer judicialmente para sustentar a licença ambiental do projeto. É a mesma ideia de desenvolvimento em que o interesse privado avança com facilidade, enquanto o Estado encolhe em sua função pública, justamente o mesmo governo que promove privatizações, desmonta estruturas estatais e trata patrimônio coletivo como oportunidade de mercado.

Acontece que a indignação provocada por esse escândalo está sendo canalizada principalmente pelo governo federal, e não por quem literalmente viajou nas asas desse banco e contou com um ambiente regulatório permissivo durante o governo Bolsonaro, que permitiu que tudo chegasse a esse ponto.

Foi durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Banco Central barrou a venda do Master ao BRB e, em novembro de 2025, decretou a liquidação extrajudicial da instituição, citando uma grave crise de liquidez, comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira e graves violações às normas do sistema financeiro. As investigações também avançaram, inclusive com a atuação da Polícia Federal para apurar responsabilidades.

Ou seja: o mesmo governo que hoje absorve parte do desgaste é aquele durante o qual o caso deixou de ser tolerado e passou a ser enfrentado.

Nossas instituições sempre tiveram falhas e agora se mostram ainda mais frágeis — algo próprio de uma democracia que precisa ser diariamente defendida e aprimorada. Ao mesmo tempo, não fosse essa institucionalidade fazer valer a vontade popular expressa nas urnas, talvez o presidente Lula não estivesse no poder, diante da tentativa de golpe. Mas essas instituições, ainda que naquele momento tenham cumprido papel decisivo ao preservar a democracia, há muito precisam de reformas profundas, tanto no sistema político quanto no Judiciário. E o próprio Partido dos Trabalhadores vem defendendo isso há décadas.

No entanto, existe uma crise que é do capitalismo, muito mais do que das nossas instituições. Ela não nasceu agora, mas obedece à lógica da concentração de renda, do neoliberalismo e da desigualdade social. Cabe ao campo progressista fazer essa disputa com a sociedade e mostrar que é justamente a esquerda quem tem condições reais de enfrentar essas distorções.

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