A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) quer tirar do ar 32 perfis no Instagram até depois do segundo turno da eleição presidencial. Em ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta quinta-feira (8), o candidato pede a suspensão integral das contas, a retirada de 221 publicações e o bloqueio de colaborações entre páginas que, segundo a ação, apoiam a reeleição do presidente Lula (PT). A iniciativa parte do mesmo grupo político que há anos acusa o Judiciário de censura, denuncia a perseguição a conservadores e se apresenta como defensor da liberdade de expressão nas redes sociais.
Flávio pretende impedir que dezenas de páginas participem da disputa política durante os últimos dias da campanha. A suspensão solicitada vai muito além da retirada de conteúdos considerados irregulares: impediria qualquer nova publicação, inclusive de notícias, opiniões e críticas legítimas, além de tornar as contas inacessíveis ao público até as 23h59 de 26 de outubro, um dia após a votação.
Entre os perfis que Flávio quer silenciar estão @eutocomlula, com aproximadamente 1,2 milhão de seguidores, @frentesulamericana, com 1 milhão, @fernandorossas13, com 461 mil, @342artes, com 446 mil, @jovenspelademocracia_, com 373 mil, e @papodecomuna, com 185 mil. Ao todo, são 32 contas ameaçadas de suspensão.
A ação também cita o Brasil Fora da Caverna (BFC), identificado pelo perfil @brasilforadacaverna, como uma das páginas de maior articulação na rede de publicações em colaboração favoráveis a Lula. O BFC aparece em conteúdos questionados pela campanha bolsonarista, embora não integre a lista específica dos 32 perfis cuja suspensão integral foi solicitada.
A ofensiva judicial inclui ainda o pedido de bloqueio temporário das publicações em colaboração, conhecidas como collabs, entre os perfis relacionados na ação. A ferramenta do Instagram permite que diferentes contas publiquem o mesmo conteúdo e compartilhem sua audiência, sendo amplamente utilizada por veículos de comunicação, movimentos sociais, artistas e organizações políticas.
Para impor as restrições, a campanha pede multas de R$ 100 mil por hora de descumprimento das ordens dirigidas às plataformas e R$ 50 mil por publicação em desacordo com determinações judiciais.
A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE nº 0602742-32.2026.6.00.0000) é dirigida contra Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Flávio pede, inclusive, a cassação do registro ou diploma da chapa presidencial e a declaração de inelegibilidade por oito anos dos responsáveis que comprovadamente tenham contribuído para as irregularidades apontadas.
A censura que Bolsonaro agora defende
A iniciativa escancara a conveniência com que o bolsonarismo trata a liberdade de expressão. Durante anos, Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados atacaram ministros do STF e do TSE por decisões que determinaram a remoção de conteúdos falsos e a suspensão de perfis envolvidos em campanhas de desinformação.
Essas decisões foram transformadas em bandeiras políticas, com acusações de censura, autoritarismo e perseguição ideológica. A defesa das redes sociais livres da intervenção judicial tornou-se um dos principais argumentos utilizados pelo grupo para mobilizar sua militância.
Agora, quando o alvo das restrições é a esquerda, Flávio Bolsonaro reivindica justamente a intervenção que condenava. E pede uma das medidas mais severas disponíveis: impedir que perfis políticos publiquem qualquer conteúdo durante o período decisivo de uma eleição presidencial.
A contradição aparece na própria fundamentação da ação. Os advogados de Flávio recorrem aos precedentes de 2022, quando o TSE adotou providências contra redes de desinformação que atuavam em favor de Jair Bolsonaro. A petição cita expressamente o processo movido pela coligação de Lula contra um chamado “ecossistema de desinformação” e sustenta que os mesmos critérios devem ser aplicados agora aos apoiadores do presidente.
O argumento bolsonarista mudou de acordo com o lado atingido pelas decisões. A suspensão de perfis conservadores era apresentada como ameaça à democracia. A suspensão de perfis de esquerda passou a ser defendida pela própria campanha de Flávio como providência necessária à proteção da eleição.
Há uma diferença importante entre solicitar a retirada de uma publicação comprovadamente falsa e impedir que uma página inteira continue se manifestando. Ao pedir a suspensão das contas até depois do segundo turno, a campanha pretende restringir também conteúdos que sequer foram questionados no processo.
Ofensiva contra a mobilização pró-Lula
A campanha de Flávio afirma ter analisado 2.856 publicações realizadas entre 5 e 7 de outubro, envolvendo uma rede de 1.525 perfis ligados por 5.882 relações de coautoria. Desse conjunto, classificou 218 publicações como falsas ou descontextualizadas, atribuindo a elas aproximadamente 11,6 milhões de visualizações.
Esses números foram apresentados pela própria campanha bolsonarista e ainda dependem de análise judicial. A petição reúne situações distintas, desde acusações de fraude eleitoral e imputações de crimes até interpretações sobre propostas políticas e possíveis consequências de um governo Flávio Bolsonaro para os trabalhadores, a Previdência e os programas sociais.
A tentativa de enquadrar críticas políticas como desinformação exige atenção especial. Divergências sobre as consequências de uma proposta econômica ou de uma mudança na legislação fazem parte do debate eleitoral. Não cabe transformar toda interpretação desfavorável ao candidato em motivo para restringir a manifestação de seus adversários.
A ação também tenta relacionar a atividade dessas páginas à campanha oficial de Lula, citando o programa Porta-Voz do Lula, iniciativa que organiza apoiadores e distribui tarefas de mobilização digital. Os advogados de Flávio argumentam que a atuação conjunta dos perfis constituiria uma estrutura organizada de disseminação de desinformação.
A própria petição, entretanto, reconhece que nem todos os perfis identificados integram formalmente a campanha presidencial. Admite ainda que nenhuma das publicações examinadas diretamente no perfil de Lula faz parte do conjunto que os advogados classificaram como desinformativo.
A existência de uma rede de apoiadores, a reprodução de conteúdos e a realização de publicações conjuntas são práticas permitidas pela legislação eleitoral. Para caracterizar abuso dos meios de comunicação e responsabilizar a chapa presidencial, será necessário demonstrar a ocorrência das irregularidades, sua gravidade e os vínculos efetivos com a candidatura.
A amplitude dos pedidos revela o alcance pretendido pela ofensiva judicial. Além das suspensões, a campanha quer impedir a circulação futura de determinadas afirmações sobre Flávio, restringir colaborações e submeter outros perfis a monitoramento. Embora a petição ressalve a divulgação de fatos verdadeiros e o direito à crítica, algumas das providências solicitadas podem comprometer a atividade regular de páginas políticas durante o segundo turno.