Fábricas fechadas, gasolina acima de R$ 9 e fome: o saldo da crise econômica no governo Bolsonaro

O governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) foi marcado pelo fechamento de fábricas de grandes multinacionais, disparada dos preços dos alimentos e combustíveis, aumento de impostos, perda do poder de compra e agravamento da fome. Durante o mandato, a inflação acumulou 26,9%, os alimentos ficaram 46,2% mais caros e a gasolina chegou a ser vendida por R$ 9,28 o litro. Em 2022, o Brasil chegou a 33,1 milhões de pessoas enfrentando a fome, segundo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Os indicadores econômicos revelam a dimensão da crise. Em 2021, a inflação atingiu 10,06%, a maior taxa anual desde 2015. Os preços da gasolina subiram 47,49% somente naquele ano, enquanto o gás de cozinha aumentou 36,99%. Produtos básicos, como arroz, óleo de soja, café e leite, registraram aumentos expressivos, comprometendo principalmente o orçamento das famílias de menor renda.

A crise também atingiu a indústria. Em janeiro de 2021, a Ford anunciou o encerramento da produção de veículos no Brasil, depois de mais de um século de presença industrial no país. Outras multinacionais, como Mercedes-Benz, Sony, Panasonic e LG, também interromperam linhas de produção ou fecharam unidades durante o mandato.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro adotou medidas que ampliaram a tributação. Em setembro de 2021, o então presidente elevou em aproximadamente 36% as alíquotas diárias do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidentes sobre operações de crédito. Durante seus quatro anos de governo, também deixou de corrigir a tabela do Imposto de Renda, apesar da inflação acumulada de quase 27%, aumentando o peso do tributo sobre os salários.

Montadoras e multinacionais fecharam fábricas

Um dos episódios mais emblemáticos da crise industrial ocorreu em janeiro de 2021, quando a Ford anunciou o encerramento de suas atividades de fabricação de veículos no Brasil.

A decisão envolveu as fábricas de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE), onde eram produzidos veículos e componentes das marcas Ford e Troller. Em 2019, a montadora já havia encerrado a produção em São Bernardo do Campo (SP).

Segundo a própria companhia, aproximadamente 5 mil trabalhadores seriam afetados pela reestruturação na América do Sul, principalmente no Brasil. O impacto se estendeu à cadeia de fornecedores, empresas prestadoras de serviços e economias locais dependentes da indústria automotiva.

Em dezembro de 2020, a Mercedes-Benz anunciou o encerramento da produção de automóveis na fábrica de Iracemápolis, no interior paulista. Inaugurada em 2016, a unidade produzia os modelos Classe C e GLA e empregava 370 trabalhadores. A empresa manteve suas operações de caminhões e ônibus no país.

Ao justificar a decisão, a Mercedes-Benz citou a deterioração das condições econômicas brasileiras, agravadas pela pandemia de Covid-19, e a queda nas vendas de automóveis de luxo.

Na indústria eletrônica, a Sony anunciou em setembro de 2020 que encerraria as atividades de sua fábrica em Manaus, o que ocorreu em março de 2021. A companhia interrompeu a fabricação de televisores, equipamentos de áudio e outros eletrônicos, depois de quase cinco décadas de produção no Brasil.

Em agosto de 2021, a Panasonic também anunciou o fim da produção nacional de televisores, após cerca de 40 anos de fabricação em Manaus. A decisão afetou aproximadamente 130 postos de trabalho, embora a companhia tenha mantido outras operações industriais.

A sul-coreana LG decidiu, em abril de 2021, abandonar mundialmente o mercado de smartphones. No Brasil, a medida levou ao encerramento das atividades da fábrica de Taubaté (SP), atingindo cerca de 700 trabalhadores e outros 430 postos de emprego em empresas fornecedoras da região, segundo o sindicato dos metalúrgicos.

Os fechamentos tiveram causas distintas, incluindo reestruturações globais, mudanças tecnológicas, queda das vendas e dificuldades econômicas anteriores ao governo Bolsonaro. Os episódios, contudo, expuseram a fragilidade da atividade industrial brasileira naquele período. Em 2022, último ano do mandato, a produção industrial nacional recuou 0,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Gasolina chegou a R$ 9,28 e alimentos dispararam

A disparada dos preços dos combustíveis foi um dos principais símbolos da crise econômica do governo Bolsonaro.

Em junho de 2022, a gasolina aditivada chegou a ser comercializada por R$ 9,28 o litro no Rio de Janeiro, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Naquele período, o preço médio nacional da gasolina comum superava R$ 7,20.

O gás de cozinha também atingiu preços elevados. Na semana de 5 a 11 de junho de 2022, o botijão de 13 quilos custava, em média, R$ 112,64 no país. O diesel, fundamental para o transporte de mercadorias e para a produção agrícola, também registrou aumentos expressivos, ampliando os custos em diferentes setores da economia.

A Petrobras manteve durante o governo Bolsonaro a política de preços baseada nas cotações internacionais do petróleo e na variação do dólar, conhecida como paridade de importação. Adotada em 2016, a política transmitia ao mercado brasileiro parte das oscilações internacionais. A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, agravou a pressão sobre os combustíveis.

Apenas na segunda metade de 2022, às vésperas das eleições, o governo federal promoveu mudanças tributárias que reduziram os preços da gasolina, do diesel e de outros combustíveis. A gasolina comum encerrou aquele ano custando, em média, R$ 4,97 por litro.

Nos supermercados, a situação também foi crítica. Em 2020, o óleo de soja acumulou aumento de 103,79%, enquanto o arroz subiu 76,01%. As carnes ficaram 17,97% mais caras, o leite longa vida aumentou 26,93% e a batata-inglesa, 67,27%.

Em 2021, a pressão continuou. O café moído subiu 50,24%, a mandioca, 48,08%, e o açúcar refinado, 47,87%.

No último ano do mandato, em 2022, a cebola disparou 130,14%, a batata-inglesa aumentou 51,92% e o pão francês ficou 18,03% mais caro. A inflação de alimentos e bebidas chegou a 11,64% naquele ano, mais que o dobro da inflação geral, de 5,79%.

Considerando os quatro anos de governo, entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, o grupo alimentação e bebidas acumulou inflação de aproximadamente 46,2%, de acordo com os índices do IBGE.

O Paraná também sofreu os efeitos da escalada dos preços. Em 2021, a região metropolitana de Curitiba registrou inflação de 12,73%, a maior entre todas as áreas pesquisadas pelo IBGE. Na capital paranaense e região, a gasolina aumentou 51,78% naquele ano.

Em dezembro de 2022, a cesta básica custava R$ 698,66 em Curitiba, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O valor representava uma parcela expressiva do salário mínimo de R$ 1.212 vigente naquele período.

Bolsonaro aumentou impostos e congelou tabela do IR

Enquanto os preços disparavam e o poder de compra diminuía, o governo Bolsonaro também adotou medidas de aumento da tributação.

Em 16 de setembro de 2021, o presidente assinou o Decreto 10.797, que elevou temporariamente as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidentes sobre empréstimos e financiamentos contratados por pessoas físicas e jurídicas.

Para pessoas físicas, a alíquota diária passou de 0,0082% para 0,01118%, aumento de aproximadamente 36,3%. Para empresas, subiu de 0,0041% para 0,00559%, elevação semelhante.

A medida vigorou de 20 de setembro a 31 de dezembro de 2021 e tinha como objetivo arrecadar R$ 2,14 bilhões adicionais para financiar a implantação do Auxílio Brasil, programa que substituiu o Bolsa Família.

Na prática, o governo encareceu operações de crédito em um momento de inflação elevada, desemprego e dificuldades financeiras para famílias e empresas.

Outro fator que ampliou a tributação sobre os trabalhadores foi o congelamento da tabela do Imposto de Renda. Durante os quatro anos de mandato, Bolsonaro não promoveu nenhuma correção das faixas de tributação pela inflação.

A faixa de isenção permaneceu em R$ 1.903,98 mensais, valor que já estava congelado desde 2015. Com a inflação e os reajustes nominais dos salários, trabalhadores passaram a pagar Imposto de Renda ou tiveram uma parcela maior de seus rendimentos tributada.

Segundo levantamento divulgado pelo Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco), a defasagem acumulada da tabela entre 2018 e 2022 chegou a 26,25%, a maior registrada em um período presidencial de quatro anos até então.

Em abril de 2022, Bolsonaro também editou a Medida Provisória 1.115, elevando temporariamente a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de bancos e outras instituições financeiras. Para os bancos, a alíquota passou de 20% para 21%; para outras instituições abrangidas, de 15% para 16%. A medida foi posteriormente convertida em lei.

Embora o governo tenha reduzido determinados tributos, especialmente sobre combustíveis e produtos industrializados em 2022, também promoveu aumentos específicos de impostos e manteve a defasagem da tabela do IR, que ampliou a tributação efetiva sobre parte dos trabalhadores.

Desemprego, perda de renda e avanço da fome

O agravamento das condições econômicas apareceu nos indicadores de emprego, renda e pobreza.

No primeiro trimestre de 2021, a taxa de desemprego chegou a 14,7%, de acordo com os dados divulgados à época pelo IBGE. Aproximadamente 14,8 milhões de brasileiros procuravam trabalho, o maior contingente registrado pela pesquisa até então.

O desemprego começou a recuar ao longo de 2021 e 2022, mas a média anual do último ano de Bolsonaro ainda foi de 9,3%, equivalente a 10 milhões de pessoas desocupadas.

A deterioração do poder de compra também ficou evidente nos dados sobre rendimento. Em 2021, a renda domiciliar per capita caiu para R$ 1.353, o menor valor da série histórica da pesquisa divulgada pelo IBGE.

Naquele mesmo ano, 62,5 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza, dos quais 17,9 milhões estavam em situação de extrema pobreza. Os dois indicadores atingiram os maiores contingentes registrados pela série histórica iniciada em 2012, conforme os critérios utilizados naquele levantamento.

A situação mais grave apareceu nos indicadores de segurança alimentar.

Em junho de 2022, a Rede Penssan divulgou pesquisa mostrando que 33,1 milhões de brasileiros enfrentavam a fome. O levantamento também revelou que apenas quatro em cada dez famílias tinham acesso pleno à alimentação.

O avanço da insegurança alimentar ocorreu em meio à inflação dos produtos básicos, à precarização das condições de trabalho e à redução do poder de compra das famílias.

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