Lula precisa dar mais entrevistas entre atos para diminuir rejeição

O presidente Lula costuma aparecer em horário nobre, no Jornal Nacional e em outros telejornais, em cortes de discursos feitos em comícios, falando alto e de maneira enfática, como não poderia ser diferente diante de uma multidão. Já Flávio Bolsonaro aparece frequentemente em entrevistas, com a voz modulada, em tom de conversa.

As emissoras de televisão, como concessionárias de serviço público, devem dar tratamento isonômico aos candidatos. Mas a exposição não se mede apenas em minutos. Enquanto as imagens de Lula frequentemente mostram discursos em atos públicos, Flávio aproveita melhor as oportunidades para conceder entrevistas. Essa diferença de formato pode influenciar a percepção dos eleitores, mesmo quando o tempo dedicado aos dois é semelhante.

Para o presidente diminuir a rejeição, um dos elementos da nova estratégia de comunicação precisa passar por dar mais entrevistas durante as agendas. É complicado, a logística é difícil, o assédio é grande e não se pode ter controle sobre o que acontece numa coletiva. Mas, ainda assim, me parece mais apropriado do que aparecer quase sempre aos gritos na televisão, o que pode passar ao eleitor uma imagem de agressividade — algo que combina com as práticas do bolsonarismo, não com o histórico de Lula como estadista.

Há também uma diferença importante entre o Lula dos comícios e o Lula das entrevistas. O presidente tem experiência, capacidade de argumentação, bom humor e uma habilidade de comunicação que aparece especialmente quando fala de maneira espontânea. Uma entrevista permite apresentar esse lado, explicar realizações do governo, responder a críticas e estabelecer uma relação mais próxima com o eleitor. Nos cortes de discursos exibidos pelos telejornais, boa parte disso se perde.

O PT tem escalado o novo porta-voz, Camilo Santana, para falar com a imprensa. Ajuda, mas Camilo, embora tenha boa eloquência, não é o candidato. É Lula quem precisa conquistar os eleitores que ainda resistem ao seu nome.

Nessa nova estratégia, a campanha de Lula tem sido mais combativa, embora ainda haja espaço para avançar. Inovou também nas redes, com Lula agora como o rei da selfie. Mas não se pode desconsiderar o poder dos veículos de massa, especialmente para alcançar eleitores menos envolvidos com a disputa política nas redes sociais.

É preciso dar mais entrevistas durante as agendas e também em encontros previamente marcados com a imprensa. Sabemos que estamos pedindo muito de Lula, que já enfrenta uma rotina intensa de campanha. Não precisa ser em todas as agendas, mas, em uma ou outra, poderia ser uma estratégia efetiva. Afinal, o Lula que conversa, argumenta e até brinca com os jornalistas tem condições de transmitir uma imagem muito diferente daquela que aparece nos poucos segundos de um discurso de comício exibido na televisão.

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